Entre especialistas de países do Sul Global, Alagoas sedia encontro internacional sobre educação e inteligência artificial. Entre o avanço tecnológico e o protagonismo dos territórios, trago minha experiência a partir da minha atuação como membro do GT Jovem do programa TekoIA, do UNICEF. Afinal, se a inteligência artificial está se tornando o principal motor de construção de aprendizado sobre povos e lugares, a juventude tem o poder de lutar para que a história seja contada por quem a vive.

Com o avanço da internet e a chegada das redes sociais, as possibilidades de contar novas histórias se expandiram, com destaque para aquelas que estavam invisibilizadas, nas bordas.
Profissionais criativos como escritores, designers, animadores, artesãos dentre outros responsáveis por contar os enredos do mundo, agora com destaque para os contextos periféricos, finalmente tiveram a chance de trazer a pluralidade de narrativas sobre temas de relevância global. Diante disso, surge o novo modo de narrar o mundo por meio da tecnologia: a ascensão da Inteligência Artificial e, com ela, a promessa de uma nova vanguarda na construção de conhecimento.
Porém, no atual contexto caótico da IA em nossas vidas, é necessário ampliar o debate sobre produtividade e disrupção de mercado para que a narrativa não tire o protagonismo do ser humano no aprendizado e transmissão da riqueza da nossa pluralidade.
A IA como fábrica de narrativas pasteurizadas
Entre os dias 14 e 15 de Abril, na cidade Maceió, o Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) apoiou a realização do Encontro Anual 2026 do Instituto de Inteligência Artificial na Educação (IA.Edu).
Além de celebrar os avanços da Inteligência Artificial na educação do Brasil, a programação do evento debateu o combate às desigualdades de aprendizagem no país a partir da IA.
A IA tem sido um dos principais motores de organização do que o mundo sabe sobre um lugar, um povo, uma cultura. E ela parte de um lugar que não é neutro, treinada por dados que priorizam volume ao invés de veracidade. O ponto negativo é que eles carregam os preconceitos, os apagamentos e os estereótipos que já existiam antes.
Quando, por exemplo, a maior parte do conteúdo digital sobre o Nordeste é produzida de fora para dentro, com enquadramentos que reduzem a região à seca, à pobreza ou ao folclore exotizado, esses são os padrões que a máquina aprende. E é com esses padrões que ela vai responder quando alguém perguntar sobre nós.
Além disso, em nossa região, inicia-se um debate sobre o avanço de empreendimentos ligados à esta tecnologia, como o avanço do datacenter do Tiktok em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza, com a alegação de desenvolvimento e início da soberania tecnológica para o Nordeste.

Porém, a soberania desse caso passa longe da autonomia e do protagonismo do povo nordestino. Pensar dessa maneira, só abre margem para o avanço de projetos predatórios em nosso território.
É inegável que a “era da informação” acelerou o fluxo de consumo. O que resta agora é usar esse cenário como uma vantagem para explanar novas narrativas e soluções, sobretudo na educação, para incluir no debate aqueles que estão fora do alcance desse palco.
Subverter a IA de ferramenta para estratégia de educação no Sul Global
Falar de IA na educação implica estar ciente de que é preciso se comprometer com um novo modelo de consumo e construção da informação. De acordo com estudo lançado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), sete em cada dez estudantes do Ensino Médio usam IA generativa, mas apenas 32% receberam orientação nas escolas.
Este contexto só evidencia o quanto é preciso preparar o jovem para refletir sobre o seu lugar no mundo e se o que a tecnologia atual constroi de narrativa sobre a sua realidade condiz com o que ele vive.
Partindo desse ponto, o Encontro debateu a importância de capacitar estudantes como “cidadãos-aprendizes-transformadores”, trazendo no Marco Conceitual lançado durante a programação o questionamento sobre o atual uso da IA. Especialistas presentes destrincharam estratégias para inseri-la no contexto de aprendizado que respeite as diversidades regionais, culturais, econômicas e sociais brasileiras e garanta que a inovação não deixe ninguém para trás.

Países do Sul Global se reuniram no segundo dia do evento e trouxeram estratégias implementadas em seus contextos com foco em implementação, equidade e políticas públicas. O diálogo foi trazido pela Conferência Anual da Cátedra UNESCO UNITWIN Chair on AIED Unplugged, que é sediada na UFA.
Apesar do objetivo certeiro de alavancar a cooperação global entre países da América do Sul, África e Ásia a partir de instituições e especialistas prestigiados, é imprescindível questionar onde estão as juventudes neste debate.
Juventudes e saberes dos territórios na nova era digital
Participei do evento como membro do Grupo de Trabalho Jovem do TekoIA, programa desenvolvido pelo UNICEF em parceria com o Instituto IA.Edu para letramento em Inteligência Artificial (IA) e Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da UFAL (NEES).
A TekoIA faz parte do 1MiO – Um Milhão de Oportunidades, iniciativa também lançada pelo UNICEF que atua na inclusão produtiva de adolescentes e jovens e na transição positiva da educação para o mundo do trabalho.

O programa é inovador por partir do conceito da união entre tecnologia digital, cultural e territorialidade para desenvolvimento de senso crítico sobre a IA e posicionamento das juventudes como protagonistas desse processo. Em dezembro de 2025, iniciei uma jornada como parte desse processo, realizando pesquisas no meu território e co-criando a formação gratuita lançada pelo programa em abril deste ano. Você pode acessá-la aqui (https://1mio.com.br/tekoia).
Durante a minha fala no painel “Aprender com e sobre IA”, trouxe a importância da participação ativa de comunidades marginalizadas na contação de suas próprias histórias para que ela não seja sobrescrevida pelos ruídos causados pela imensa quantidade de informações, que muitas vezes não condizem com a verdade, como é o exemplo do uso de deep fakes no cenário político.
Como exemplo, trouxe as narrativas ao redor do meu próprio estado, o Ceará, como a divergência entre o local de fundação da nossa capital. A narrativa se divide entre o finado Forte São Tiago, na Barra do Ceará, e o Forte de N. Sra. da Assunção, no centro da cidade. Por muitos anos, a narrativa controlada pela elite era de que o marco zero era localizado no centro da cidade, onde a fortificação segue de pé. Com a chegada da democratização de novas narrativas, a Barra do Ceará, que fica na periferia da cidade, ganhou investimento público para revitalização e protagonismo nos meios digitais.
Apesar disso, há outros enredos ocultados pelos registros, mas que seguem vivas na oralidade de povos e comunidades tradicionais, como a presença do protagonismo feminino e negro na construção da história cearense e que foi tema do aniversário de 27 anos do Centro Cultural Dragão do Mar, outro marco da cidade de Fortaleza.

Assim como outros marcos históricos do nosso passado, hoje a Inteligência Artificial está no centro do debate sobre inovação e revolução tecnológica. Agora, tendo em vista os impactos sociais e ambientais que este processo pode trazer, é indispensável que a disputa de narrativas que começou com a ascensão da internet cumpra seu papel de visibilizar saberes que estão fora das telas.

Sabrina Cabral, é ativista e criadora do blog @sanydapeste, onde aborda temas como meio ambiente, direitos humanos e educação para a juventude periférica do Nordeste. Graduanda em Engenharia Civil na UFC e bolsista do programa Bolsa Jovem da Prefeitura de Fortaleza e BID, é engajada em temas como sustentabilidade, economia criativa e design. É fundadora da iniciativa Ruma, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento sustentável a partir das juventudes do Nordeste, conquistando bolsas de desenvolvimento de projetos no MIT e se tornado Representante Juvenil em iniciativas da ONU na América Latina e Caribe, como o acampamento Juventudes Ya! do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
Sabrina faz parte da Rede Impacta Nordeste de Jovens Lideranças.






