Saúde e representatividade: AfroSaúde ajuda a dar visibilidade à profissionais negros da área de saúde

6 de maio de 2020

Por Impacta Nordeste
Foto: Arthur Lima e Igor Leonardo, criadores da AfroSáude (Arquivo pessoal)


A Vale do Dendê, holding social que fomenta o ecossistema dos negócios de impacto em Salvador, é uma empresa que se destacou no Nordeste graças ao trabalho inspirador que envolve diversidade, criatividade e empreendedorismo social com foco nas comunidades e periferias da capital baiana.

Entre as iniciativas da Vale do Dendê, destaca-se a Aceleradora de Negócios de Economia Criativa, programa que ajuda novas empresas e startups inseridas no contexto de inovação e diversidade. A última edição do programa teve o apoio do British Council e patrocínio do Assaí Atacadista, Finance for Good Brazil e Grupo de Fundações e Institutos de Impacto (FIIMP), e contou com a participação de dezenas de empresas.

Da esquerda pra direita: Rosenildo Ferreira, diretor de inovação e marketing; Paulo Rogério Nunes, diretor-executivo; Ítala Herta, diretora de operações; e Hélio Santos, diretor de relações governamentais e mentorias da Vale do Dendê (Foto: Divulgação

Nesta série especial do portal Impacta Nordeste, vamos apresentar as cinco empresas finalistas do programa de Aceleração de Negócios de Economia Criativa da Vale do Dendê para receber o capital semente e ajudar no desenvolvimento dos negócios.

E para abrir a nossa série, vamos conhecer o trabalho da AfroSaúde, startup baiana que visa dar visibilidade à profissionais negros da área de saúde.

Representatividade e empreendedorismo de impacto

O desejo de empreender compartilhado entre os amigos Arthur Lima, dentista e especialista em saúde da família e mestrando em saúde, ambiente e trabalho, e o jornalista Igor Leonardo, foi o primeiro passo para a criação da AfroSaúde. No processo, ambos concordaram que o negócio deveria seguir um importante critério: promover impacto positivo para a sociedade.

Segundo Arthur, a ideia que serviria como base para a AfroSaúde surgiu após um debate sobre raça e mercado de trabalho durante uma aula do seu mestrado. “O tema me fez refletir sobre o meu lugar enquanto homem negro e profissional de saúde e todas as dificuldades que enfrentei no mercado.”, comenta.

A plataforma AfroSaúde. Foto: Divulgação

No processo de validação da ideia, Arthur constatou que esse mesmo questionamento era, infelizmente, uma triste realidade vivida por dezenas de profissionais negros ao redor do país. “Conversamos com muita gente sobre o assunto e também acompanhamos discussões nas redes sociais. Foi então que percebemos a necessidade urgente que a população negra tinha em encontrar profissionais de saúde também negros.” 

A AfroSaúde é uma plataforma criada especialmente para a comunidade negra ter maior acesso a serviços e profissionais de saúde que buscam representatividade durante o atendimento nos hospitais e centros de saúde.

Inserido no modelo HealthTec, na AfroSaúde, os usuários poderão encontrar profissionais de diversas especialidades, como fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos, que possuem a qualificação necessária para entender as especificidades da população negra do país. A dinâmica da AfroSaúde vai funcionar sob duas frentes: gestão (agendamento de consultas, planilha financeira e prontuário eletrônico) e educação (conteúdos sobre saúde, finanças, marketing e etc.).

Atualmente, a plataforma está na fase de pré-cadastro, onde os usuários interessados (pacientes e profissionais) podem preencher o formulário disponível para facilitar o agendamento de consultas e avaliação profissional. Segundo o próprio site da AfroSaúde, já são mais de 1040 profissionais cadastrados na plataforma em mais de 30 especialidades.

Desafios e respostas do público

Segundo Arthur Lima, um dos desafios enfrentados para consolidar o seu negócio está relacionado à questões financeiras. O valor para viabilizar a tecnologia utilizada na AfroSaúde é relativamente alto, principalmente neste momento em que o negócio está se estabilizando. No entanto, há um desafio ainda maior.

“Historicamente, nós, negros, temos pouco acesso às linhas de crédito e a fundos de investimento. De nada adianta uma boa ideia se ela não consegue ser sustentável e se não há investimento. Estamos em dois mercados onde os brancos ainda são a maioria: saúde e tecnologia. Há uma gama de profissionais capacitados em ambas as áreas, mas, infelizmente, o que falta para eles é a oportunidade. A AfroSaúde tem, além do desafio de se firmar no mercado HealthTec, fomentar a empregabilidade de profissionais negros que atuam na área tecnológica no nosso negócio.”.

Em meio às dificuldades, a AfroSaúde tem sido muito bem recebida pelo público e pelos profissionais de saúde. O sucesso se explica pela representatividade, tão discutida nos últimos anos. “Por um tempo, ninguém tinha pensado sobre a necessidade de a população negra conseguir ter acesso à profissionais de saúde também negros. Existe uma questão de identificação e conforto por trás disso.”

Um questionário online realizado pelos fundadores da plataforma contou com a participação de 2.500 pessoas entre profissionais e pacientes de todo o Brasil. De acordo com Arthur, houve resposta bastante expressiva por parte dos profissionais de saúde em atender os seus semelhantes, no caso, a comunidade negra. Já os pacientes relataram que queriam profissionais com empatia e capacidade técnica para acolherem suas necessidades específicas de saúde, como anemia falciforme, diabetes e hipertensão, doenças comuns entre a população negra.

A plataforma é inovadora e aparenta ser uma importante ferramenta tanto na ampliação da representatividade negra na área da saúde, quanto no atendimento da população negra que, na maioria das vezes, não encontra profissionais atentos às suas demandas específicas.”

Depoimento dado na pesquisa realizada para validação do negócio

A importância da representatividade para essa parcela da população foi ainda mais perceptível no processo de validação da ideia para a plataforma. Na época, foi disponibilizado um formulário para que as pessoas pudessem expressar sua opinião sobre o projeto. Cerca de 1.400 respostas foram enviadas, entre elas, dezenas de depoimentos que envolviam situações de racismo vivido pelos participantes durante atendimento nos hospitais.

“Encontrar representatividade negra neste mercado faz toda diferença para a saúde física, claro, mas para a mental também. Encoraja, motiva e dá esperança de ver pretos no topo.”

Depoimento dado na pesquisa realizada para validação do negócio

Movimento “Black Money”

Mesmo com a popularização do empreendedorismo no Brasil nos últimos tempos, o número de pessoas negras donas do próprio negócio ainda era baixo. Com isso, muitos acabaram migrando para o campo do empreendedorismo social, criando modelos de negócio transformadores que atingissem as periferias e comunidades carentes, regiões onde estão concentradas grande parte da população negra do país. 

Muitas dessas empresas não tinham retorno financeiro suficiente ou não possuíam investidores que acreditaram nesse tipo de negócio. Em 2017, nasceu o Movimento Black Money (MBM), projeto inspirado em um movimento similar nos Estados Unidos liderado por empreendedores afrodescendentes. 

O objetivo do Black Money é estimular o consumo e surgimento de novos negócios criados exclusivamente para a comunidade negra, fortalecendo a economia entre entre a própria comunidade. A missão da AfroSaúde em conectar profissionais de saúde negros a pacientes também negros se encaixa perfeitamente nesta iniciativa.

“Alguns empreendedores têm fortalecido o conceito do MBM no Brasil, como por exemplo o Paulo Rogério Nunes e a Ítala Herta (fundadores da Vale do Dendê), e a Nina Silva, precursora do MBM. Pensamos em ampliar e fortalecer o conceito do MBM em termos práticos dentro da área de saúde: se a população negra paga por uma consulta, seja com médico, dentista, nutricionista, que seja para ter um atendimento com um profissional afrodescendente. Assim é possível valorizar e gerar renda para estes profissionais.”, diz Arthur.

Nordeste e negócios de impacto social

A AfroSaúde tem como sede o estado da Bahia. A região Nordeste é a região brasileira que mais sofre com problemas sociais históricos e estruturais. Apesar das dificuldades econômicas que o Nordeste enfrenta até hoje, houve um crescimento dos negócios de impacto social na região. Para Arthur, esse fenômeno pode ajudar a resolver ou amenizar alguns dos problemas crônicos que acometem o Nordeste, como o desemprego, dificuldade de acesso à saúde e saneamento básico.

Muitos empreendedores sociais com ideias inovadoras e com grande potencial transformador acabam se frustrando durante o processo e desistem de colocar a ideia em prática, grande parte pela falta de interesse de investidores em injetar dinheiro para fomentar o negócio. Além disso, ainda existem empresas com certa resistência em ver seu nome atrelado a projetos que atuam com pautas sociais relevantes, como o racismo.

“Eu vejo que quando os negócios pautam problemas importantes como o racismo e a desigualdade social, as dificuldades de acesso ao investimento são maiores”.

“Eu vejo que quando os negócios pautam problemas importantes como o racismo e a desigualdade social, as dificuldades de acesso ao investimento são maiores. Aqui na AfroSaúde conseguimos o nosso 1° capital semente quando participamos do programa de aceleração da economia criativa da Vale do Dendê. A Vale (do Dendê) tem esse excelente trabalho de dar visibilidade e capacitação para afroempreendedores e negócios periféricos, uma grande oportunidade para este nicho ainda pouco explorado.”

Próximos passos da AfroSaúde

A primeira versão da plataforma AfroSaúde já está finalizada. Os profissionais que tem interesse em participar do projeto já podem se cadastrar e criar seus perfis profissionais. Já os pacientes também podem fazer a busca do profissional que deseja na plataforma por cidade e estado.

Segundo Arthur, foi inserido a pedido dos usuários um filtro contendo as formas de pagamento disponíveis para facilitar a pesquisa de profissionais que atendem planos de saúde específicos. Uma das novidades planejadas para a AfroSaúde em 2020 será a implantação de serviços de gestão clínica e ferramentas de telemedicina.

No momento atual de pandemia do coronavírus no Brasil, a atuação da AfroSaúde passou a ser mais direcionada para a população negra e periférica para evitar a superlotação dos serviços de saúde de Salvador e levar informação precisa sobre a doença.

“Criamos o Telecorona da Periferia, uma central telefônica gratuita com médicos, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas e assistentes sociais que darão orientações e suporte para a população da periferia de Salvador. Além disso, também terá a plataforma de acolhimento emocional por videoconferência em parceria com a Digitalk, empresa de tecnologia da informação e serviços, que utiliza diversas ferramentas de inteligência artificial para comunicação.”

Para financiar o projeto, a AfroSaúde criou uma campanha de Matchfunding, na plataforma Benfeitoria. Nessa modalidade, para cada R$ 1 arrecadado pelos projetos selecionados por intermédio da plataforma da Benfeitoria, o Fundo Colaborativo Enfrente contribui com mais R$ 2.

“Não queremos ser nem os primeiros e nem os únicos a ocupar esses espaços.”

O trabalho de Arthur e Igor com a AfroSaúde vem se destacando cada vez mais no campo do empreendedorismo social. A dupla já coleciona algumas participações em eventos para falar sobre empreendedorismo e saúde, além de outros temas relevantes. E são nestes momentos em que os sócios reforçam o ingresso de mais negros no mercado de saúde e tecnologia.

“As pessoas ficam felizes em verem dois negros à frente de um negócio de impacto social como o nosso. Mas nós não queremos ser nem os primeiros e nem os únicos a ocupar estes espaços. O Brasil, em especial o Nordeste, enfrenta dezenas de problemas sociais, e nós enquanto cidadãos ainda temos o instinto de cobrar do estado a resolução destes problemas. Nosso trabalho é fazer com que a população também contribua para estas mudanças, fortalecendo a ideia de que o ativismo precisa existir, mas que o retorno financeiro também precisa acontecer”.

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