Tecendo redes de apoio no pós-pandemia

23 de junho de 2020

Por Daiany França Saldanha


O primeiro texto que escrevi para o Impacta Nordeste foi sobre “o papel das redes na mudança social”. Hoje voltarei a escrever sobre redes, desta vez a respeito da sua importância neste momento de “retomada pós-pandemia”.

Muito mais do que as redes profissionais ou temáticas, hoje quero me dedicar às “redes de apoio social”.

Brito e Koller definem redes de apoio social como “conjunto de sistemas e de pessoas significativas, que compõem os elos de relacionamento recebidos e percebidos do indivíduo”.

Você consegue identificar sua rede de apoio mais próxima? A família, talvez? Amigos de extrema confiança e forte comunhão de ideais? Colegas do mundo do trabalho? Sua comunidade religiosa ou espiritual?

Independente de quem seja, quantas pessoas sejam, se é uma rede estruturada ou não, o importante a ser dito é que ter o apoio de “pessoas significativas” nas nossas vidas ganha ainda mais relevância nesses tempos. Por quê?

Tentarei justificar em 4 pontos:

  1. Estamos vivendo uma profunda crise sanitária, econômica, política, social e emocional. Certo, mensagem “batida”, mas é importante prestar atenção como isso tem repercutindo nas nossas vidas agora mesmo.
  2. A pandemia não acabou. Embora a reabertura do comércio e o retorno de algumas atividades presenciais nos dê essa sensação, na América do Sul, sobretudo, a Covid-19 segue avançando de maneira “progressiva e persistente”, como alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). A agência das Nações Unidas reforça que o “distanciamento social, a higiene e a saúde pública” continuam sendo a resposta mais eficiente de contenção do vírus.
  3.  Os efeitos físicos, psicológicos e emocionais da pandemia são bastante preocupantes. Medo, ansiedade e tristeza são sentimentos naturais em situações de estresse elevado e persistente como na pandemia, mas o seu prolongamento pode trazer sérios prejuízos à saúde mental. Saúde mental não é coisa de louco.
  4. O temor do desemprego cresce ainda mais. Não ter uma fonte de renda estável e permanente tem tirado o sono de muita gente. Além disso, temos assistido a escalada da miséria no Brasil. Metade da população brasileira sobrevive com 15 reais por dia (dados do IBGE de 2019). O desemprego e a pandemia podem aprofundar ainda mais as nossas desigualdades.

Bem, para mim, somente por esses pontos, parece razoável a necessidade de estabelecer e manter redes de apoio, permitindo uma vivência saudável e aumento das capacidades de resiliência.

Como sei que este texto conversa com diversos profissionais de projetos de impacto social e do terceiro setor, gostaria de destacar que tecer redes de apoio no período pós-pandemia é exercer papel substancial no processo de superação das crises existentes. Uma vez que você tem uma rede de apoio acolhedora e respeitosa, automaticamente você é a rede de apoio de alguém. E é a natureza do nosso trabalho impactar diretamente no bem-estar das pessoas e das suas relações com o mundo.

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Por Daiany França Saldanha

Daiany França Saldanha é cearense, mulher negra, gestora de projetos sociais e empreendedora. É fundadora do Instituto Esporte Mais, gerente do projeto e rede Construindo o Futuro e mestranda do Programa de Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da USP.