A cada escolha que ignora a natureza, a cada ato que desconsidera o bem-estar coletivo, estamos assinando promissórias que, um dia, cobrarão o que não conseguimos mais devolver.
Mark Twain certa vez observou que não é o que não sabemos que nos coloca em apuros, mas aquilo que temos certeza que não é assim. Esta reflexão ressoa profundamente no cenário atual, onde convicções inflexíveis e certezas absolutas frequentemente obscurecem a complexidade das crises contemporâneas.
Vivemos em um mundo de polaridades acentuadas. Nas cidades, as guerras urbanas transformam ruas em campos de batalha ideológicos, onde a intolerância e a desinformação alimentam conflitos incessantes. A emergência climática, por sua vez, não dá trégua; 2024 registrou-se como o ano mais quente em milênios, intensificando desastres naturais e desafiando nossa resiliência coletiva.
Não é o que você não sabe que vai colocá-lo em apuros. É o que você tem certeza que não vai.
Mark twain
As fakes News, em suas múltiplas faces, semeiam o medo e desestabilizam sociedades, enquanto visões políticas antagônicas fragmentam nações, erguendo muros invisíveis entre cidadãos. O avanço desenfreado da tecnologia e da inteligência artificial, embora promissor, levanta questões éticas e existenciais, ameaçando a própria essência do que significa ser humano. Crises financeiras e disputas pelo poder econômico exacerbam desigualdades, deixando milhões à margem da esperança.
O Fórum Econômico Mundial, traz à tona uma visão alarmante sobre os riscos que o mundo enfrenta no futuro próximo (Global Risks Report 2024). A importância desse relatório não reside apenas nas previsões sobre os impactos de crises climáticas, econômicas e políticas, mas também na constatação de que esses desafios estão cada vez mais entrelaçados e se intensificam mutuamente. O documento destaca, por exemplo, que a emergência climática, a desinformação e a instabilidade política são as principais ameaças globais que podem desestabilizar ainda mais as sociedades.
A responsabilidade de reverter esse cenário recai diretamente sobre as lideranças das nações, líderes de empresas e da administração pública em todas as esferas do mundo. O mais preocupante é a sensação de que esses riscos estão se tornando inevitáveis se não houver uma mudança significativa no engajamento dos líderes das nações e das instituições públicas e empresariais em prol da saúde do planeta.
São eles que têm o poder e o dever de implementar políticas e práticas sustentáveis, promover a equidade social e impulsionar transformações significativas que, com urgência, possam frear a escalada de crises globais. Sem um compromisso real e consciente das lideranças em todos os níveis, os danos à sociedade e ao meio ambiente continuarão a se agravar, ameaçando não só o presente, mas o futuro das gerações vindoura, de crianças que ainda irão nascer. Essa perspectiva nos desafia a pensar em soluções coletivas, mas também nos confronta com a realidade de que as ações até agora têm sido insuficientes para mitigar as crises iminentes.
Desde 2000, quando iniciei a pós-graduação em Filosofia para a Paz e Resolução de Conflitos, minha visão de mundo se transformou profundamente. Antes disso, minha preocupação era limitada ao meu próprio universo e ao das pessoas mais próximas, com uma visão etnocêntrica que só fui entender mais tarde, muito tempo depois de me formar em Administração. Até aquele momento, as faculdades de Administração não abordavam as questões humanas de forma relevante, deixando um grande número de gestores formados de forma incompleta e desinformada.
Os administradores aprendiam durante a permanência na faculdade que uma das principais responsabilidades do administrador era de maximizar os ganhos para os acionistas e essa visão formou gerações de profissionais. Hoje, com os estudos e uma visão mais ampla dos negócios, somos desafiados a pensar diferente. Trago a visão de Raj Sisodia quando desafiou o modelo tradicional de “lucro acima de tudo”, propondo uma abordagem mais humana e ética para a gestão empresarial.
Ele acredita que as empresas devem operar com uma visão mais ampla e responsável, considerando o bem-estar de todos os stakeholders – incluindo funcionários, clientes, fornecedores e a sociedade em geral. Sisodia co-fundador do movimento “Conscious Capitalism”, afirma que as empresas podem ser rentáveis e, ao mesmo tempo, ter um impacto positivo na sociedade, defendendo que os líderes empresariais devem repensar o propósito das organizações.
Diante desse panorama, é imperativo questionarmos nossas certezas e abraçarmos a humildade intelectual. Somente reconhecendo a complexidade das questões e ouvindo perspectivas divergentes poderemos construir pontes sobre os abismos que nos separam. A verdadeira sabedoria reside não em possuir todas as respostas, mas em compreender a profundidade das perguntas que ainda não fizemos.
A humanidade segue hipotecando seu próprio futuro, como quem vende a esperança em parcelas mensais, sem perceber que o preço da dívida será cobrado em formas de secas, tempestades e incertezas. A cada escolha que ignora a natureza, a cada ato que desconsidera o bem-estar coletivo, estamos assinando promissórias que, um dia, cobrarão o que não conseguimos mais devolver: a vitalidade dos rios, o ar limpo e o equilíbrio da terra. E assim, no compasso da rotina, trocamos o agora pelo efêmero, sem compreender que o amanhã é um eco das decisões de hoje, um futuro que, se não for cuidado com sabedoria e visão, nos cobrará com o peso daquilo que deixamos de proteger.

Telma Delmondes é Mentora de Desenvolvimento Humano e de Lideranças, Diretora-Executiva da Gesthum-Gestão para uma Cultura Humanizada, A. Gente do Capitalismo Consciente Brasil e Aconselhadora Biográfica (Antroposofia).