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Março cansa

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Entre homenagens e feminicídios, o que o mês da mulher revela sobre o Brasil.

Sou mulher, nordestina, empreendedora social e feminista. Trabalho há anos com sustentabilidade, políticas públicas, empreendedorismo feminino e equidade de gênero. Essa agenda faz parte da minha trajetória profissional e também da minha vida como cidadã. Talvez por isso eu sinta ainda mais o peso deste mês — mesmo sendo o meu mês de aniversário.

Celebrar mulheres é bonito. Mas ler diariamente notícias de mulheres assassinadas, violentadas ou silenciadas torna esse mês inevitavelmente mais pesado.

Não me recordo de ter lido, em tão pouco tempo, tantas notícias devastadoras envolvendo mulheres. Feminicídios, violência doméstica, assédio, histórias interrompidas antes de terem a chance de florescer. Enquanto campanhas celebram o Dia Internacional da Mulher com flores e homenagens, a realidade insiste em lembrar que ser mulher ainda significa viver sob desigualdades estruturais profundas. Esse contraste não inspira. Ele cansa. É exaustivo e mulheres cansadas não vencem nenhuma guerra. Quando a violência vira rotina, o cansaço deixa de ser apenas emocional. Ele também é social, político e estrutural.

Os dados mostram isso. Segundo o IBGE, mulheres brasileiras dedicam cerca de 10 horas semanais a mais que homens ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. No Nordeste, essa desigualdade impacta diretamente a autonomia econômica das mulheres. E há um dado ainda mais duro: na Bahia, uma mulher é vítima de feminicídio a cada três dias.

Como falar de um futuro sustentável quando tantas mulheres ainda lutam para sobreviver no presente? 

Leana Mattei

Quem trabalha com a agenda de gênero se faz muitas perguntas. Como falar de um futuro sustentável quando tantas mulheres ainda lutam para sobreviver no presente? 

E ainda assim seguimos.

Seguimos porque também vemos outro lado dessa história. No Nordeste, e especialmente em cidades como Salvador, mulheres lideram transformações profundas: empreendem, articulam redes, lideram políticas públicas e constroem soluções para seus territórios.

A igualdade de gênero não é apenas uma pauta social.
É também uma agenda central de desenvolvimento sustentável, presente no ODS 5 da Agenda 2030 e cada vez mais integrada às estratégias de ESG. Sociedades mais igualitárias são também mais prósperas, resilientes e sustentáveis. Talvez por isso março seja um mês tão ambíguo: ele nos lembra de tudo o que ainda falta — e de tudo o que já começou a mudar.

Quando o cansaço chega, é essa segunda parte que precisa nos nutrir. A gente precisa ver além – no espelho e também do lado, na frente, para frente e avante.

Porque igualdade de gênero não é apenas uma pauta feminina.
É uma escolha de sociedade.

E talvez o verdadeiro teste civilizatório do nosso tempo seja simples: quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a igualdade deixe de ser discurso e passe a ser prioridade?

Leana Mattei é Gerente de ESG e Sustentabilidade da Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-estar e Proteção Animal (SECIS) da Prefeitura de Salvador e fundadora da Aganju, consultoria especializada em ESG, impacto social e comunicação sustentável. Estrategista de impacto e especialista em comunicação estratégica, atua há mais de 27 anos com sustentabilidade e articulação entre setor público, privado e sociedade civil. É palestrante, TEDx Speaker, professora, comunicadora e autora do livro A estrada vai além do que se vê. Doutoranda (aluna especial) em Comunicação e Cultura e mestra em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA, possui MBA pela UNIFACS, certificações internacionais em GRI e PMD Pro, é multiplicadora do Sistema B e integrante do conselho consultivo da Rede InPACTO.