“…a experiência do boca de brasa é um mergulho mesmo no teatro… nas danças populares… dos ritmos percussivos… no audiovisual e na fotografia…” — Natureza França, coordenação pedagógica das Escolas Criativas Boca de Brasa.

Eu lembro do meu 2021 como quem lembra de um corte de cena: a câmera na mão, o peito acelerado e uma pergunta simples que sempre volta quando a gente pisa no Centro e depois volta pra quebrada: por que a cidade nos reconhece tanto no carnaval e tão pouco no resto do ano? Eu cheguei no Boca de Brasa como aluno, com o projeto de documentário “Pés que Constroem”, e saí com outra medida de Salvador, uma régua que não começa na orla, nem termina no Pelourinho. Começa no território.
Essa é a tese aqui: o Boca de Brasa não é um “evento” com fotos bonitas. É um programa que atravessa décadas e disputa uma ideia de cidade onde a cultura deixa de ser enfeite e vira chão: formação, fomento, circulação, palco, técnica, rede. Um farol aceso na favela-potência.
Cultura como direito e como fronteira invisível
Salvador é um dos maiores celeiros culturais do Brasil. Isso a gente repete com orgulho. Mas também sabe, no corpo, o que esse orgulho esconde: a cultura circula com facilidade onde já existe estrutura, grana e visibilidade; e engasga onde a cidade só lembra quando precisa de mão de obra, de “paisagem humana” ou de espetáculo rápido.
Quando um programa nasce (e permanece) com o foco de descentralizar criação, produção, difusão, fomento e qualificação das manifestações artístico-culturais, ele está mexendo numa engrenagem antiga. O Boca de Brasa nasceu em 1986, foi suspenso em 2003 e relançado em 2013 com nova roupagem itinerante e, de lá pra cá, se consolidou como um programa “multiestruturado” dentro das políticas culturais da cidade.
E tem um detalhe simbólico que dá gosto de notar: “Boca de Brasa” também é um dos apelidos ligados a Gregório de Matos, poeta que dá nome à fundação municipal de cultura. Palavra, fogo e cidade no mesmo pacote.
O que é o Boca de Brasa
Na prática — e isso importa — o Boca de Brasa opera em camadas. Quem explica com clareza é Natália Leal, da coordenação das Escolas Criativas:
“…o boca de brasa é um programa da fundação Gregório de Matos e ele tem 3 linhas de atuação… 1… os espaços… o outro que é o movimento boca de brasa… um festival… e a outra ação… são as escolas criativas…”

Essas três linhas ajudam a entender por que o programa não se reduz a uma agenda cultural:
- Os Espaços: equipamentos que recebem e difundem produções, acolhendo artistas e agentes culturais — um ponto de encontro entre periferia e cidade.
- O Movimento (Festival): “a vitrine” onde o trabalho aparece para o público — o palco aberto onde a periferia não é tema, é autoria.
- As Escolas Criativas: o coração pedagógico, onde a cultura vira método e a formação vira futuro.
E aqui tem uma virada importante: escola criativa não é só “aula”. É condição de permanência. É rede. É incentivo. Como diz a própria Natália:
“…a escola… ajuda esses grupos através da qualificação… da formação… do incentivo com bolsas… a se fortalecerem e a criarem suas próprias produções nos territórios…”
Bolsa, nesse contexto, não é mimo. É infraestrutura mínima pra quem sempre fez arte com o que tinha e, muitas vezes, com o que faltava.
Como funciona na prática: laboratório, roda e território
Natureza França descreve um ritmo que é bem conhecido por quem já viveu processos formativos na quebrada: começa com investigação, vira experimentação, e termina com entrega pública — com a comunidade assistindo, criticando, se reconhecendo.
“…desde setembro nós estamos aí imersos em laboratórios criativos investigando, experimentando e criando nesses polos… estamos agora no mês de dezembro… preparando as produções que vão para o público entre Janeiro e fevereiro…”

Repare na palavra que ela usa sem cerimônia: imersos. Não é oficina de fim de semana. É processo. É rotina. É disciplina criativa que parece treino de atleta — só que o campeonato aqui é outro: é disputar narrativa, disputar palco, disputar direito de existir com beleza.
E quando ela lista linguagens, teatro, danças populares, ritmos percussivos, audiovisual, fotografia, agência de cultura e territorialidade — dá pra sacar que o Boca de Brasa funciona como um quilombo contemporâneo: cada pessoa chega com um saber, e sai com uma rede.
Histórias de transformação: quando a cidade aprende com a periferia
Tem uma fala de estudante que eu carrego porque ela diz sem enfeite o que muita gente tenta explicar com termos difíceis. Francislene Fabiane, aluna, chama o programa pelo nome que ele merece:
“…é um programa bastante interessante… é de resistência… eu acho bastante interessante porque tá na favela…”
E quando ela avança, a frase vira denúncia e promessa ao mesmo tempo:
“…a gente tá conhecendo a história da cidade que às vezes não são nem abordadas… alcança vários… periféricos e dá oportunidades para outros jovens…”

Isso é grande. Porque, no fundo, a disputa é sobre quem tem autorização para narrar Salvador. O que entra no roteiro oficial, o que fica na margem, o que vira silêncio. Se a periferia aprende técnica no Boca de Brasa, a cidade aprende verdade — e aprende a se olhar de outro ângulo.
Eu vi isso de perto quando participei em 2021 com “Pés que Constroem”. Eu cheguei com uma ideia de documentário e com aquela insegurança clássica de quem vem de baixo: “será que meu tema importa?”. O Boca de Brasa não responde com discurso. Responde com estrutura: orientação, troca, escuta, devolutiva. É o tipo de experiência que diz, sem precisar dizer: se você tem uma história, você tem uma chave. E a porta é coletiva.
Resultados: formação, fomento e vitrine
O Boca de Brasa tem crescido como programa estruturante e, em edições recentes, aparece também em números e chamadas públicas: há iniciativas com centenas de vagas em formações gratuitas e atuação em múltiplos territórios da capital.
Do lado do fomento direto, editais e bolsas têm sido parte da engrenagem das Escolas Criativas e de polos específicos — com seleção de projetos e apoio financeiro para tirá-los do papel.
E existe ainda a dimensão de aceleração de iniciativas culturais, que reforça essa lógica de continuidade: não basta formar e aplaudir; tem que ajudar a sustentar o corre depois da aula, depois do palco, depois da foto.
Parcerias e ecossistema: a rede por trás do farol
Nenhuma política pública funciona sozinha — e, quando funciona na periferia, quase sempre é porque existe uma rede costurando. O Boca de Brasa se articula por meio da Fundação Gregório de Mattos e de organizações parceiras em projetos, polos e etapas formativas.
Essa costura é parte do segredo: o programa vira ponte entre a potência dos territórios e os meios necessários para que essa potência apareça com dignidade — de luz, som, produção, comunicação, técnica, planejamento. É a arte deixando de ser “vocação” e passando a ser também trabalho, economia e direito.
Como participar
Se você é artista, coletivo, produtor, educador, técnico, ou simplesmente alguém que quer ver Salvador por um ângulo mais verdadeiro, aqui vai um caminho simples:
- Acompanhe o site do Movimento Boca de Brasa: movimentobocadebrasa.com.br
- Fique de olho nas páginas de polos e editais quando abrirem inscrições e bolsas: bocadebrasacidadebaixa.com.br
- Vá ao festival, ocupe plateia, prestigie lançamento de trabalho de quem é do território porque plateia também é política.
E se você é de organização, instituto, empresa ou coletivo que investe em impacto social: apoiar cultura periférica com continuidade não é filantropia “bonita”. É investimento em cidade viva.
O fogo que não é só chama é caminho
Quando eu penso no Boca de Brasa, eu volto pra imagem do começo: mergulho, laboratório, roda, território. Só que agora eu acrescento outra cena. A de um farol que não aponta pra longe aponta pra dentro. Pra dentro da favela-potência, desse quilombo urbano que Salvador insiste em produzir todos os dias, mesmo quando falta tudo.
E aí a pergunta muda: não é “o que a periferia tem a oferecer para a cidade?” É “o que a cidade precisa reaprender com a periferia para ter futuro?”.
Se você quer acompanhar esse fogo de perto, começa pelo básico: abre o mapa, escolhe um polo, segue o Movimento, compartilha um trabalho, comparece. A cultura não pede licença, mas ela precisa de rede para não apagar.

Jônatas Akillah Pereira, 29 anos, é formado em Publicidade e Propaganda na Universidade Salvador (UNIFACS) desde 2015 e graduando em Bacharelado Interdisciplinar em Artes com ênfase em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem experiências profissionais como social media, marketing político e na área de cinema como editor e produtor. É um apaixonado pela tecnologia, escrita e cinema. Um eterno aprendiz sempre disposto a absorver o que o mundo e as pessoas em sua volta estão dispostos a ensinar. Busca direcionar o seu conhecimento para a luta antirracista. Jônatas faz parte da Rede Impacta Nordeste.






