Ao completar 10 anos de atuação, o Social Brasilis revisita sua trajetória no campo do impacto socioambiental a partir da prática cotidiana em territórios periféricos do Nordeste. Em entrevista ao Impacta Nordeste, a fundadora Emanuelly Oliveira analisa os principais marcos dessa caminhada, os aprendizados acumulados, as revisões estratégicas e as escolhas feitas ao longo da década, além das perspectivas para os próximos anos.
*Foto de capa: Manu Oliveira homenageada na categoria Educação do Prêmio RioMar Mulher 2025. (Divulgação)

Criado a partir da convicção de que a educação é uma estratégia para enfrentar desigualdades sociais, o Social Brasilis completa 10 anos de atuação reunindo resultados, revisões estratégicas e aprendizados que raramente aparecem nos discursos mais idealizados sobre empreendedorismo social. O negócio foi fundado e é liderado por Emanuelly Oliveira, natural de Quixadá, no sertão central cearense, onde teve seus primeiros contatos com iniciativas de transformação social a partir da educação.
A origem do Social Brasilis está diretamente ligada à experiência de Manu em sala de aula. Em 2015, atuando como professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em uma escola pública do Pirambu, a maior favela do Ceará, ela conviveu durante cinco anos com estudantes prioritariamente das classes D e E. Foi nesse contexto que percebeu um problema estrutural que extrapola o ambiente escolar: o avanço acelerado da tecnologia, que ao mesmo tempo em que cria novas oportunidades, aprofunda as desigualdades ao excluir populações sem acesso à formação técnica e digital.

A ausência de qualificação, especialmente em áreas ligadas à tecnologia, compromete a inclusão produtiva dessas comunidades, dificultando o acesso ao mercado formal de trabalho e ampliando vulnerabilidades sociais e econômicas. Diante desse cenário, nasceu o Social Brasilis, com a proposta de enfrentar essa lacuna por meio da educação tecnológica e do estímulo ao empreendedorismo como alternativas concretas de geração de renda e autonomia.
Ao longo dessa trajetória, o negócio foi estruturado a partir de poucos recursos financeiros, criando o modelo de negócio, ajustando estratégias e consolidando uma atuação voltada à inclusão produtiva na base da pirâmide. Atualmente, o Social Brasilis desenvolve programas de letramento digital e tecnológico em territórios periféricos, facilitando o acesso ao mercado de trabalho e ao empreendedorismo, especialmente em um contexto de rápidas transformações nas profissões e nas formas de produzir e se comunicar.
A estratégia de atuação se organiza em dois pilares principais. O primeiro é a qualificação de juventudes e educadores que ainda estão na escola, por meio de formações continuadas em STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), com foco no desenvolvimento de competências técnicas e socioemocionais e na construção de projetos de vida. O segundo pilar é o estímulo ao empreendedorismo, voltado principalmente a pessoas egressas da educação básica ou que interromperam seus estudos, como alternativa de geração de trabalho e renda, incluindo negócios de impacto socioambiental e o debate sobre sustentabilidade e inclusão nos territórios populares.
Os resultados acumulados ao longo da década indicam o alcance da iniciativa, mais de 15 mil pessoas impactadas diretamente, cerca de 300 negócios socioambientais fomentados e 12 programas executados em parceria com organizações como Ambev, Lenovo, CIEDS e a Coalizão pelo Impacto, no Brasil e no exterior.

Em 2019, o Impacta Nordeste publicou sua primeira matéria sobre o Social Brasilis, destacando a educação como resposta às inquietações sociais. Passados mais sete anos, o contexto se tornou ainda mais complexo e exigente. O negócio amadureceu, redefiniu prioridades e ajustou sua atuação, enquanto o campo do impacto social ganhou visibilidade, mas segue enfrentando desafios estruturais persistentes.
Nesta entrevista, Manu Oliveira revisita os principais marcos dessa trajetória, analisa decisões que precisaram ser revistas, caminhos conscientemente abandonados e os próximos passos do Social Brasilis. Uma conversa que revela os bastidores de uma década empreendendo impacto social no Brasil, sem romantização e com os pés fincados na prática cotidiana.
Quando você compara o Social Brasilis de 2016 com o de hoje, o que continua essencial e o que precisou ficar para trás?
Nossa essência é o impacto social positivo real, a preocupação com uma mensuração de impacto consciente, apostar na escuta ativa da nossa rede de beneficiários, trazendo eles para perto, para terem voz e vez, gerar conexões para que possam ter destaque e sucesso. O que ficou para trás é o mito que precisamos ocupar todos os espaços, é não ter uma gestão estratégica, se sobrecarregar. Hoje queremos fazer nosso core de forma certa, estratégica e organizada, isso resulta em ampliação do nosso impacto por consequência.
Teve um momento em que você sentiu que o Social Brasilis deixou de ser só uma boa ideia e virou, de fato, um negócio estruturado? O que marcou essa virada?
Entre 2018 e 2019, quando começamos a fechar parcerias com grandes marcas de forma contínua, percebi que tinha que profissionalizar os processos. A responsabilidade pesa e aperta, precisamos entregar bons resultados porque se ter uma marca de renome também. A partir disso, passei a gerir com processos e desenvolver o time, buscando se destacar no mercado. O que marcou essa virada é ter que abrir mão de alguns vínculos que já não casavam com nossos valores e posicionamento, o peso de decidir e escolher um caminho pesa, mas todo empreendedor passa ou passará por isso.
Alguma decisão ou erro que, na época, pareceu um fracasso, mas hoje você vê como fundamental para o amadurecimento do negócio?
Eu tive sociedades e parcerias que não foram frutíferas, que mais pesaram do que contribuíram. Eu tive que tomar a decisão de finalizá-las e deixá-las ir. A ruptura gera desgastes, mas isso trouxe o aprendizado que é preciso ter aliados casados a seus valores, que reconheçam o impacto positivo como primordial e que reforcem isso em suas práticas e não apenas em seu discurso. Hoje avalio bastante com quem parceirizar.
Ao longo desses 10 anos, o que mudou na sua forma de entender impacto, não só medir, mas priorizar e decidir a partir dele?
O Social Brasilis tem uma boa teoria da mudança com instrumentais de coleta e análise de dados próprios, além de sistemas de mensuração de dados. Tudo é orientado por dados. Nossas metodologias são constantemente adaptadas visando atender às necessidades reais das comunidades que atuamos. Emitimos relatórios de impacto para clientes e parceiros de cada programa, além dos nossos relatórios anuais. O impacto hoje está em nosso posicionamento e comunicação, ele está a frente de tudo que fazemos por aqui.
O que o Social Brasilis escolheu não fazer, mesmo sendo financeiramente viável, para manter coerência com sua missão?
Não atuamos com politicagem, o que é diferente de advocacy por políticas públicas. Não apoiamos candidatos A ou B, não fazemos ponte com as comunidades em situação de campanhas, não estabelecemos vínculos partidários ou religiosos, nem com emendas parlamentares, por entender que o preço disso, em alguns casos, pode ser alto demais.
A partir da sua experiência, como você vê a evolução do ecossistema de impacto no Nordeste nesses 10 anos?
No dia da celebração de 10 anos do Social Brasilis reunimos, em Fortaleza, nossa terra, inúmeros parceiros e apoiadores, além da representação da rede de impactados do SB. Na ocasião, li um poema feito por mim e que traz, em um dos seus versos a seguinte ideia: “Parece que foi ontem que tive que ir para longe fazer uma incubação. No Pense Grande da Vivo, em Sampa, fiz conexões, mas isso me desperta reflexões. Que bom que hoje temos uma Somos Um e uma Coalizão, que viabilizam incubação para fortalecer o empreendedorismo local, para que o impacto do local possa se tornar global.”

Isso resume muito que eu penso da evolução do nosso ecossistema. Há mais programas de apoio ao empreendedor(a) de impacto, editais públicos de fomento, portais como o Impacta Nordeste, grupos organizados, organizações tradicionais que possam adotar alguma vertente de impacto, vejo futuro e fortalecimento do setor aqui no Nordeste, que é uma região rica socioambientalmente, mas que possui muitos desafios que demandam muitas ideias e soluções criativas e inovadoras. Há muito espaço para crescer e desenvolver negócios de impacto por aqui.
Que aprendizado dessa trajetória não aparece em cursos, editais ou metodologias, mas só na prática?
Saber onde colocar sua energia e atenção para ela ser investimento e combustível, para ela retornar em forma de dados, impacto, faturamento e resultados. Isso passa a ser intuitivo com o tempo e os aprendizados que são gerados no decorrer da sua trajetória contribuem para fortalecer essa intuição empreendedora, o feeling.
Que gargalos estruturais nos negócios de impacto ainda persistem e pouco mudaram na última década?
A competição por poucos recursos de fomento e desenvolvimento no setor. Apesar das oportunidades terem crescido, cresceu o número de negócios também e os recursos continuam escassos, diminutos.

Temos que fazer o máximo com o mínimo, operar, gerar inovação através da criatividade e nas conexões, no networking, nas trocas dentro do ecossistema. Relações são muito importantes no setor, elas te permitem crescer, o impacto é coletivo sempre.
Para os próximos anos, o que faz mais sentido para o Social Brasilis: consolidar, escalar, aprofundar ou se reinventar?
Estou aberta e atenta a todas as possibilidades, o futuro é incerto, precisamos criá-lo a partir do que tá querendo emergir. Agora, no Social Brasilis, querendo continuar nosso crescimento por todo o Brasil e exterior, já temos operado em outras regiões, chegamos em São Paulo e Rio de Janeiro, internacionalmente também, e queremos consolidar essa atuação e nos destacamos como um hub de inclusão produtiva para populações da base no país.
Depois de 10 anos, o que essa caminhada te ensinou sobre tempo, processo e paciência no impacto social?
Que não existe tempo oportuno para criar ou desenvolver nada, o momento é agora e precisamos “botar pra fazer” com os recursos que temos, depois vamos nos moldando, recriando, modernizando. E que transformação acontece de dentro para fora, posso ter uma ideia de negócio de impacto socioambiental incrível, mas se eu de fato não acreditar naquilo, não tiver leveza, brilho nos olhos e valores inegociáveis, o impacto sempre será secundário e o próprio ambiente se ocupa de minar essa ideia porque, no fundo, não entrega valor e resultados concretos e coerentes.
Não foi apenas um sonho
No último dia 5 de fevereiro de 2026, o Social Brasilis celebrou seus 10 anos de atuação ao lado de conselheiros, parceiros e lideranças que contribuem para a construção de um ecossistema mais colaborativo e comprometido com o desenvolvimento social e ambiental.
O encontro marcou também o lançamento do documentário “Não foi apenas um sonho”, que revisita a trajetória de uma década de um negócio de impacto social periférico e nordestino, evidenciando os desafios, aprendizados e estratégias adotadas para se posicionar e se sustentar no campo do impacto socioambiental.
A jornada do Social Brasilis pode ser conferida no documentário disponível no link:
https://youtu.be/vTOO5GqMw2w?si=dV_B9xiIIzvWPTay

Sara Café, é graduada em Comunicação Social/Jornalismo, especialista em assessoria de comunicação e formação em fotografia. Atua na área de inovação e impacto social através de trabalhos de jornalismo, redação e produção de conteúdo, mídias sociais, assessoria de imprensa e coberturas fotográficas. Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Laboratório de Inovação do SUS no Ceará (2021) e do Observatório de Educação Permanente em Saúde (2022), projetos da Escola de Saúde Pública do Ceará. Produz entrevistas e matérias jornalísticas especializadas para o hub de negócios TrendsCE. Voluntária e Diretora de Comunicação do Instituto Verdeluz (gestão 2019 a 2022) e membra da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência), da Rede Narrativas e integrante da Rede Linguagem Simples Brasil.
Sara faz parte da Rede Impacta Nordeste.






