OpiniãoSustentabilidade

5 lições que a reciclagem pode ensinar para além da sala de aula

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Saville Alves compartilha aprendizados de projetos de reciclagem e educação ambiental e mostra como essas experiências podem estimular a responsabilidade coletiva, a inclusão produtiva e novos hábitos.

15 de novembro é o dia do professor e, desde quando iniciei minha trajetória como empreendedora de impacto socioambiental, tive a oportunidade de conhecer educadoras que têm transformado vidas e que abriram as portas de suas escolas para que a gente pudesse compartilhar experiências que promovessem uma interação maior dos alunos, com os conhecimentos teóricos e a beleza da prática dos ciclos da natureza.

Professora Cássia, por exemplo, mulher preta, diretora de uma escola no subúrbio ferroviário de Salvador, me deu uma dessas oportunidades que apenas professoras com esse olhar gentil e sensível são capazes. Foi lá onde nasceu o primeiro projeto da SOLOS. De lá para cá, já atendemos mais de 5 mil alunos de redes públicas e particulares através de programa de educação ambiental e ações de engajamento comunitário. 

E a reciclagem pode ensinar muito.

1. Responsabilidade é coletiva

Um dos primeiros aprendizados que a reciclagem nos traz é que nenhum de nós resolve um problema complexo sozinho.

A destinação correta de um resíduo depende de uma cadeia que envolve consumidores, empresas, poder público, cooperativas, catadores, indústria e diferentes profissionais. Cada um tem uma responsabilidade nesse processo.

É uma lógica que vale para muitos outros desafios da sociedade: quando entendemos que fazemos parte de uma rede, percebemos que nossas escolhas individuais também têm consequências coletivas.

2. Aquilo que descartamos não desaparece

O que chamamos de “lixo” continua existindo depois que sai das nossas mãos.

Um copo descartável, uma garrafa, uma embalagem ou uma lata seguem tendo um impacto depois do momento em que colocamos esses materiais na lixeira.

Ensinar isso é estimular uma mudança importante de perspectiva: antes de pensar apenas em como descartar, precisamos pensar em quanto consumimos, o que consumimos e quais alternativas existem.

3. Reciclagem também é sobre pessoas

Quando falamos de reciclagem, é comum que a conversa fique concentrada nos materiais, nas toneladas recuperadas ou nos índices de reciclagem.

Mas existe uma parcela muito importante de pessoas que não pode ser esquecida.

No Brasil, milhares de catadores e catadoras fazem parte da cadeia da reciclagem e são responsáveis por uma etapa fundamental desse processo. Valorizar essa atividade significa reconhecer que sustentabilidade também precisa caminhar junto com trabalho digno e inclusão produtiva.

Não existe economia circular verdadeiramente inclusiva se as pessoas que fazem essa cadeia acontecer não estiverem no centro dela.

4. Conhecimento pode transformar hábitos

Uma criança que aprende na escola por que deve separar seus resíduos pode chegar em casa e fazer essa conversa continuar.

É assim que o conhecimento ganha outra dimensão: ele sai da sala de aula e chega às famílias, aos espaços públicos, aos ambientes de trabalho e às comunidades. Os filhos, ainda que não sejam os tomadores de decisão, apresentam novos conceitos e podem gerar constrangimento quando vêem um adulto agindo de forma indevida.

Já vimos isso acontecer diversas vezes em projetos de reciclagem. Quando as pessoas entendem o motivo de uma ação, e não apenas recebem uma instrução, aumentam as possibilidades de que aquele comportamento se torne parte da rotina. Educação ambiental é criar condições para que novos hábitos façam sentido.

5. Transformação começa com perguntas

Talvez essa seja a lição que mais aproxima a reciclagem da educação.

Por que produzimos tanto lixo?

Para onde ele vai?

Quem trabalha para que esse material seja reciclado?

Por que alguns materiais têm mais valor do que outros?

O que podemos fazer diferente?

São perguntas simples, mas capazes de abrir discussões sobre o tema.

É justamente esse o papel que acredito que a educação pode exercer: não entregar todas as respostas, mas criar espaço para que novas perguntas sejam feitas.

Na reciclagem, também aprendemos que transformação não acontece de uma hora para outra. Ela depende do tempo, porque é através dele que um conteúdo se transforma em conhecimento; que uma trend se transforma em hábito; e uma selfie se torna um momento inesquecível.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para  facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.