Opinião

A “gig economy” e os negócios de impacto

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Na ausência de políticas públicas para dar mais segurança para trabalhadores da chamada “gig economy”, seria possível criar soluções para a precarização do trabalho por meio dos negócios de impacto social?

Por Marcello Santo

Não é mais novidade que o mercado de trabalho passa por profundas transformações. Mudanças políticas e tecnológicas impulsionaram novas possibilidades, para o bem e para o mal, transformado de vez o que entendemos por trabalho. Ao ingressarem no mercado, as atuais gerações de jovens e jovens adultos encontram uma realidade totalmente diferente das gerações de seus pais. Toda noção de carreira, estabilidade, planejamento de vida e oportunidades mudou.

Uma das novas formas de relação de trabalho mais presente em nossa vida cotidiana é a chamada gig economy ou economia do bico, em tradução livre. O bico (ou viração, dependendo da sua região), um modelo de trabalho familiar a milhões de pessoas nas comunidades do Brasil, agora conta com a mediação da tecnologia, conectando a oferta e a demanda por serviços. Essa inovação expandiu e facilitou a prática para um número ainda maior de pessoas.

Tratada como salvação por alguns e desastre por outros, essa inovação possibilitada pelo avanço tecnológico tem seu prós e contras. Por um lado ela permite rápido acesso a uma fonte de renda com pouquíssima barreira de entrada e de forma quase imediata. Por outro lado não oferece estabilidade ou qualquer segurança social. Em um país com alto índice de desemprego e baixas médias salariais, essa modalidade de emprego acaba se tornando a única fonte de renda para muitas pessoas.

“O contingente de pessoas que optam ou são levadas para essa modalidade de trabalho, por diferentes motivos, é enorme. Nada indica que esse modelo vá retroceder. A questão que fica é: como podemos desenvolver novas soluções para dar mais segurança aos trabalhadores inseridos nessa nova realidade?”

Independente do que achamos ideal, a realidade se impõem. O contingente de pessoas que optam ou são levadas para essa modalidade de trabalho, por diferentes motivos, é enorme. Nada indica que esse modelo vá retroceder. A questão que fica é: como podemos desenvolver novas soluções para dar mais segurança aos trabalhadores inseridos nessa nova realidade? Se nada for feito, em um futuro próximo teremos um contingente ainda maior de pessoas sem aposentadoria, dependendo de familiares e de programas assistenciais do Estado.

Recentemente algumas das grandes empresas que possuem modelos de negócios baseados na gig economy começaram a despertar para esse problema. Os sindicatos, por sua vez, ainda tentando entender o seu lugar nesse novo mundo, não conseguem propor soluções práticas para essa nova realidade. É de extrema importância um debate aprofundado, que envolva todas as partes, para desenvolver soluções para um cenário que, tudo indica, vai se aprofundar.

Devido a abrangência e relevância da questão, o Estado é ator chave na solução desse dilema. Somente ele tem o poder de resolver tais questões estruturais da economia e do mercado de trabalho. Segundo divulgado na imprensa, há uma discussão ainda tímida no sentido de criar uma nova modalidade de MEI para abarcar os trabalhadores dos aplicativos. No entanto, tratando-se de uma problemática na qual não há modelos a serem seguidos, há espaço para soluções inovadoras?

Olhando para o mundo, há diversas experiências para solucionar essa equação. Na China, por exemplo, está sendo desenvolvido um fundo de pensão experimental dedicado aos trabalhadores da gig economy que será conduzido por 1 ano por uma empresa. Nos Estados Unidos, podemos destacar o Workers Strenght Fund, um fundo de doação emergencial para trabalhadores de aplicativos, e o Workers Benefit Fund, que oferece benefícios e trabalha junto a plataformas, sindicatos e líderes políticos para pensar em soluções para esses trabalhadores.

Com esses exemplos em mente, proponho a reflexão: os negócios de impacto social poderiam oferecer soluções para essa nova realidade?

*Imagem por Marília Castelli em Unsplash

Marcello M. E. Santo é empreendedor social, gestor de projetos e consultor. Diretor fundador da Plataforma Impacta Nordeste e cofundador da Motirô, incubadora virtual de negócios de impacto.

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