A filantropia também padece de respiradores

20 de maio de 2020

Por Fabio Deboni


Assistimos da janela do nosso PC, durante a quarentena, atores da filantropia rompendo barreiras e se comunicando com muita facilidade, redes de trocas sendo geradas, compartilhamentos solidários, marcas bilionárias sendo mobilizadas e um claro propósito comum na mesa:

Ajudar pessoas, comunidades e organizações em situações de maior vulnerabilidade social, econômica, sanitária, etc.

É pra isso que estamos aqui, não é?! Creio que boa parte de quem, como eu, atua no setor traz isso dentro de si e tem sido isso que nos move dia a dia.

Neste sentido, milhões de reais são mobilizados, regras de compliance são flexibilizadas, etapas simplificadas, enfim, propósito maior e senso de urgência são colocados acima de quaisquer questões menores.

Outro golaço do nosso setor!

Mas…

por que passamos a atuar desta forma apenas em contextos de ‘guerra’?

não deveríamos atuar assim como setor fundacional desde sempre?

E quando a poeira desta crise terrível baixar?
Voltaremos aos nossos quadradinhos institucionais?

Aos nossos editais, sistemas, jurídicos, processos?

Às reuniões inúteis, ás metas imbatíveis, aos formulários chatos,
que tanto nos consomem tempo, energia e nos distanciam deste propósito maior, que, aparentemente, todos compartilhamos?

No contexto da crise atual, há algumas clarezas visíveis a olho nu, que bom!
– pouca dúvida sobre a quem servimos e porque existimos.

Mas nem tudo são flores.

Nosso setor e nossa natureza humana trazem conosco o exibicionismo da ajuda. Afinal, é preciso mostrar ao mercado, ao setor, aos pares, aos Conselhos que estamos fazendo bonito neste momento. Isso também nos fortalece interna e externamente, não é?

Vem junto neste combo nossa incapacidade de dar conta das demandas intermináveis, em priorizarmos o que é essencial, em não sermos capazes de escolher qual problema iremos atacar.

Em outros tempos, isso se chamava foco.

Daí, e-mails não respondidos, comidas de bolas e furos e a demonstração de nossa fragilidade como agentes de transformação.

Sim, também temos nossos limites, embora tentamos deixá-los sob o tapete.

Pra complicar um pouco mais olhares divergentes sobre o ‘modo apagar incêndio’ não são muito bem-vindos.

Soam como mimimi ou jogando contra.

Aliás, nosso setor tem dificuldade crônica em lidar com auto-crítica,
afinal, tudo o que somos e fazemos é lindo maravilhoso, não é?

Afinal, convém lembrar que:
– nem todos os institutos e as fundações têm fundos de reserva/patrimoniais ou políticas orçamentárias que assegurem caixa para prosseguir com suas operações.

Em outras palavras:
– dependemos como nunca de nossas mantenedoras,
que em menor ou maior grau, sofrem no contexto atual
(alguém sai ou sairá ileso a ele?).

– Alguns investidores sociais têm inclusive revelado seu lado ‘captador de recursos’, procurando identificar oportunidades de captar recursos (‘funding‘), a partir da mobilização de doações de diversas ordens que se apresentam.

Faz parte…

Embora já haja uma classificação clássica no setor entre grantmakers grantseekers (investidores e captadores, no tupiniquês).

Já outros, seguem um pouco desorientados sobre quais rumos seguir, sobre quais seriam análises sensatas de contextos e que façam real sentido aos seus propósitos institucionais e aos seus bolsos orçamentários.

Se espremem em callslives e webinares, buscam em artigos e opiniões alguma reflexão sobre a conjuntura atual, algum fio de luz de sensatez.

Mas o que parece mais funcionar são as trocas de contatos e a comunicação unilateral institucional do tipo: ‘nosso instituto está fazendo isso ou aquilo, vejam que lindo’.

Eu sei, leitor(a), estou sendo meio ácido aqui, mas o propósito deste texto é este mesmo.

Mas como construir análises de contexto face a um cenário absolutamente volátil e que não exponha marcas, instituições e bolas divididas?

Que não exponha que nosso setor precisa de respiradores de forma crônica.

afinal, não tem faltado oxigênio novo na filantropia?

Tanto é que os cafezinhos e os corredores dos eventos vinham sendo os melhores momentos de trocas entre pares.

Mas, neste momento de crise, como nos fortalecermos como setor?
Como reforçar relevância de nosso instituto ou fundação, evitando cairmos no estouro da boiada, sem sair lançando iniciativas a toque de caixa, pra mostrar a todos que nossa organização também tem uma ação autoral bacana pra apresentar (com ou sem live)?

Será que é assim que se mostra seu valor, perante mantenedoras e conselhos? Perante a sociedade?

Que triste…

E qual o legado essa onda deixará em nosso DNA institucional? Difícil prever, mas, ao menos, poderia listar aqui um par de itens de uma lista pessoal e aspiracional de sonhos de consumo:

1- Que repensemos nosso modus operandi sendo menos burocráticos e mais ágeis. Atuando mais em rede e de forma cooperativa (pra valer!), apoiando financeiramente organizações da sociedade civil com atuação na ponta (sim, elas também precisam de $ pra bancar salários, aluguel, sem ter que dar um ‘migué’ nas rubricas dos projetos), resistindo às pressões de mantenedoras de seguir a boiada do branding, revisitando modelos de governança à luz da agilidade e do virtual. Enfim, que sejamos mais ágeis, mais acessíveis, mais disponíveis e com mais pé na realidade.

2- Que repensemos nossos projetos próprios, que só atacam sintomas
e superfícies das questões socioambientais complexas que nos permeiam.
Pra isso, teremos que passar a nos assumir como atores políticos (não partidários), a nos assumir como players relevantes no tabuleiro chamado esfera pública, que vai muito além da prefeitura do território onde atuamos.

Terreno bastante pantanoso, não?

Venho participando de uma série de calls e conversas virtuais entre investidores sociais e tenho saído delas com um mix de motivação e desmotivação (por tudo já exposto aqui).

Às vezes, fico me perguntando o que sigo fazendo aqui no setor.

Outras vezes, tenho a clareza de que aqui segue sendo o meu lugar,
mais pelo nosso potencial transformador, menos pelo nosso modus operandi elitista, burocrático e pouco empático, embora nosso discurso tente dizer o contrário.

O que parece tirar meu sono, pra minha felicidade ou desgosto,
parece tirar o sono de tantos outros, sobretudo, aqueles que ainda não migraram de área de atuação, ao menos por enquanto…

Esse artigo foi publicado originalmente na Aupa – Jornalismo em negócios de impacto social e é replicado em parceria pelo Impacta Nordeste.

Publicado por:
Fabio Deboni

Engenheiro Agrônomo e mestre em recursos florestais pela ESALQ/USP. É gerente-executivo do Instituto Sabin e membro do Conselho do GIFE. Tem participado ativamente do engajamento de institutos e fundações no campo das finanças sociais e negócios de impacto. É escritor de diversos artigos e está lançando seu novo livro – Impacto na Encruzilhada – disponível aqui.