Sobre as agências de desenvolvimento econômico local

6 de outubro de 2020

Por Gláucio Gomes
Foto: Elionardo Oliveira/Adel


A matéria-prima do desenvolvimento de um território é sua gente. Esse é um conceito talvez básico, mas muitas vezes ignorado em estratégias de desenvolvimento econômico.

Mas, para entender bem o desenvolvimento econômico de um lugar, é preciso conhecer sua gente: sua cultura, seus modos de vida, suas motivações, suas potencialidades e limitações. É preciso aceitar que é um processo multidisciplinar e que seus impactos sociais, ambientais e econômicos são indissociáveis.

Para quem não conhece a Adel (www.adel.org.br), é uma organização sem fins lucrativos que tem como missão promover o desenvolvimento de territórios rurais através do empreendedorismo e do protagonismo de jovens e agricultores. Foi fundada em 2007, por jovens de comunidades no semiárido cearense que tiveram a oportunidade de estudar em universidades e que fizeram a opção por retornar para suas comunidades durante e depois da graduação para investir seus conhecimentos e talentos em prol do desenvolvimento local. Hoje, treze anos depois, a Adel já beneficiou diretamente a mais de 20 mil pessoas em centenas de comunidades em seis estados do Nordeste brasileiro com programas e serviços de capacitação, assessoria, oferta de crédito, realização de estudos e consultoria para o desenvolvimento de territórios rurais, especialmente para jovens empreendedores e agricultores em situação de vulnerabilidade socioeconômica no semiárido.

O nome da organização é consistente com seu propósito: ser uma agência de desenvolvimento local. E a Adel definiu um conceito bem claro para desenvolvimento local, para nortear a sua prática: a ampliação das capacidades dos atores locais e, a partir daí, do território como um todo. Seja através da aquisição de conhecimentos, da ampliação e da melhoria da infraestrutura, da estruturação de suas cadeias de valor, do fortalecimento da governança local ou da implementação de estratégias de comunicação do território.

De fato, a Adel foi constituída com base nas referências sobre agências de desenvolvimento econômico local (LEDA, sigla em inglês) – um modelo organizacional já consolidado mundo a fora.

E a pergunta que mais recebo sobre a Adel é justamente: o que é uma agência de desenvolvimento econômico local?

Trata-se de um modelo organizacional voltado para promoção do desenvolvimento econômico de um território, especialmente dedicado à ampliação de capacidades de seus atores – indivíduos, governos locais, organizações da sociedade civil e empresas. De acordo com a ILS LEDA, entidade internacional reconhecida pela OECD (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) por seu papel de suporte ao ecossistema global de agências de desenvolvimento econômico locais, estas são estruturas sem fins lucrativos, criadas por atores públicos e privados do território, que oferecem serviços diversos às pessoas e organizações locais, tais como promoção territorial, apoio em marketing e atração e captação de investimentos, dinamização econômica, acesso a crédito, assistência técnica e capacitação, com os objetivos de apoiar o ganho de competitividade econômica, a estruturação de seu tecido social e econômico, o fortalecimento e a qualificação de sua governança e o desenvolvimento inclusivo e sustentável.

A OECD registra que há cerca de 15 mil agências de desenvolvimento econômico local em todo o mundo – estatais, vinculadas a governos locais, e não-estatais, criadas e controladas pela sociedade civil.

É importante aqui esclarecer que tipo de desenvolvimento econômico é esse a que as LEDAs se referem. Porque o termo “econômico” tem bastante peso – passa a impressão que o foco do desenvolvimento é voltado para uma noção rasa e antiquada de produtividade bruta de um território, onde essas agências ocupam um papel simplório de captadores de investimentos externos. Mas esse não é o caso. As LEDAs trabalham com uma perspectiva multidimensional da economia, com sua transversalidade com a garantia dos direitos humanos e fundamentais, com a qualidade da governança e com o próprio conceito de desenvolvimento humano e sustentável. São condições para o fortalecimento e a dinamização das cadeias de valor de uma região de modo que as pessoas que ali vivem se beneficiem, tenham melhorias em suas condições de vida e de trabalho. Não há desenvolvimento econômico efetivo onde há não há desenvolvimento humano.

Em resumo, as agências de desenvolvimento econômico local podem ser entendidas como organizações que oferecem serviços diversos, de produção de conhecimento, de formação de recursos humanos, de fomento, de suporte e de articulação dos atores locais (empreendedores e lideranças), de coordenação de estratégias para o desenvolvimento do território, seja a partir de iniciativa estatal ou da iniciativa privada. Como organizações que exercem uma função de inteligência territorial.

Territórios precisam de estratégias coordenadas e de longo prazo para conferir eficiência ao seu desenvolvimento – estratégias que orientem programas e projetos. Agências de desenvolvimento local têm legitimidade e competência para conduzir e coordenar, assumir a posição de hub nesse sentido. Começando pelo mapeamento de stakeholders internos e externos do território, passando pelo monitoramento de cenário, com identificação e análise situacional constante de oportunidades e ameaças, e culminando com fatores potencializadores do desenvolvimento econômico, como promoção da inovação e da cooperação em nível local e o fomento a Arranjos Produtivos Locais (APLs). Inovação e cooperação, por sinal, são condições para o desenvolvimento econômico local nos dias de hoje. O fato que é territórios que contam com LEDAs são mais resilientes.

Todas essas são funções que podem ser exercidas pelos governos locais, é verdade. Mas que demandam participação, engajamento e suporte de atores da sociedade civil em todo e qualquer contexto. No cenário ideal, alianças entre governos, empreendedores e comunidades formam a receita para maior efetividade de uma agência de desenvolvimento local. Mas a iniciativa privada tem poder próprio, em si mesma, para se articular para promoção do desenvolvimento de um modo que beneficie a todos no território, mesmo que seja realizando apenas parte dessas atividades, assumindo o que é possível como atribuições e responsabilidades.

No contexto brasileiro, as agências de desenvolvimento local têm especial importância em territórios em situação de vulnerabilidade, caracterizados por desafios endêmicos ao desenvolvimento: precariedade de infraestrutura, da rede de equipamentos e de serviços públicos, baixa competitividade econômica, fragilidade das organizações e dos negócios locais e de suas cadeias de valor e baixos níveis médio de educação, produtividade e renda. Essas características estão presentes em territórios rurais e também urbanos, nas periferias de grandes cidades do país. Portanto, as LEDAs atuam, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, a partir de oportunidade, mas especialmente a partir de necessidades locais.

Vale comentar que as agências de desenvolvimento local não-estatais podem ser organizações sem fins lucrativos, financiadas a partir de doações e investimentos de atores dos próprios territórios para implementação de seus projetos diversos. Mas também podem contar com modelos de negócios, inclusive enquanto negócio de impacto, ao se posicionarem como organizações que oferecem serviços de alto valor agregado para os atores do território, que têm efetivo valor de mercado – de consultoria, assessoria, pesquisa e desenvolvimento.

A essa altura, já fica claro o quanto é estratégico o papel das agências de desenvolvimento econômico local como organizações que contribuem para transformações sociais e econômicas positivas. Mais do que isso, que podem fazer isso orientadas por um modelo de atuação pautado por um conceito mais humano e realista de desenvolvimento, que se comunica com as necessidades e as expectativas das pessoas que vivem nas comunidades e nos territórios. Que entende o desenvolvimento, sem adjetivos, como um processo de ampliação das liberdades das pessoas.

Publicado por:
Gláucio Gomes

Atuando hoje como diretor de Desenvolvimento na Adel, Gláucio é Especialista em Gestão do Desenvolvimento Local e co-fundador e Sócio-Diretor da Rummos Assessoria Pesquisa e Avaliação. Tem 18 anos de experiência em planejamento estratégico, gestão, mobilização de recursos, monitoramento e avaliação de programas de desenvolvimento humano, fortalecimento institucional e de iniciativas de investimento social e sustentabilidade corporativa em níveis nacional e internacional.