Em artigo de opinião, Saville Alves defende que a educação ambiental é apenas o ponto de partida e argumenta que a transformação acontece quando criamos condições para que comportamentos sustentáveis façam parte da rotina das pessoas.
Durante muito tempo, acreditamos que informar era suficiente. Que bastava explicar os impactos ambientais, apresentar dados alarmantes sobre as mudanças climáticas ou ensinar a separar resíduos para que as pessoas mudassem suas atitudes. Mas a realidade tem mostrado algo diferente: informação, sozinha, não transforma.
Se transformasse, viveríamos em uma sociedade muito mais sustentável.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. As pessoas sabem que o descarte incorreto gera impactos ambientais, sabem que a reciclagem é importante, sabem que o desperdício de recursos naturais precisa ser combatido. Ainda assim, grande parte desse conhecimento não se traduz em ação.
“A questão não é mais o que as pessoas sabem. É o que elas fazem.”
A questão não é mais o que as pessoas sabem. É o que elas fazem e a sustentabilidade é, antes de tudo, um tema de comportamento humano. E comportamentos não mudam apenas porque alguém recebeu uma informação nova. Eles mudam quando existem incentivos, exemplos, facilidades, pertencimento e experiências capazes de transformar uma escolha sustentável em algo natural no dia a dia.
É por isso que acredito que a educação ambiental precisa evoluir. Não devemos abandoná-la, ela continua sendo fundamental. Mas precisamos entender que ela é apenas o ponto de partida. O verdadeiro desafio está em criar condições para que o conhecimento se converta em prática e a reciclagem é um exemplo claro disso.
Muitas campanhas ainda tratam a reciclagem como uma obrigação moral, quase uma cobrança. Mas, na prática, ela só ganha escala quando se torna um comportamento incorporado à rotina das pessoas. Quando descartar corretamente é mais simples do que descartar errado. Quando a infraestrutura existe. Quando há engajamento coletivo. Quando as pessoas percebem que fazem parte de algo maior.
Ninguém muda hábitos porque recebeu um manual. Mudamos quando o ambiente ao nosso redor favorece novas escolhas.
Acredito que o futuro da sustentabilidade está menos na conscientização isolada e mais no desenho de experiências capazes de influenciar comportamentos. Está em construir sistemas que facilitem boas escolhas. Está em compreender que as pessoas não mudam apenas porque sabem o que é certo, mas porque encontram motivos e oportunidades para agir de forma diferente.
E se queremos cidades mais sustentáveis, uma economia circular funcional e uma sociedade mais preparada para os desafios ambientais do nosso tempo, precisamos dedicar menos energia a dizer o que as pessoas deveriam fazer e mais esforço para tornar possível aquilo que desejamos que elas façam.
Porque o lixo pode ser problema ou solução, depende do que você faz com ele.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.