Evento reuniu mais de 1.700 participantes para debater temas como investimento social privado, inteligência artificial e fortalecimento institucional, em uma edição marcada pela diversidade de vozes e pela centralidade do território nordestino. O fundador e editor do Impacta Nordeste, Marcello Santo, acompanhou a programação e traz suas percepções nesta cobertura.
Entre os dias 14 e 17 de abril, Recife recebeu o Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE) 2026. Ao longo da programação, acompanhei parte das atividades como fundador e editor do Impacta Nordeste e pude observar, entre salas simultâneas, corredores movimentados e encontros informais, diferentes perspectivas sobre os desafios e caminhos do terceiro setor no Brasil.
Com mais de 1.700 participantes, o evento reuniu organizações da sociedade civil, investidores sociais, especialistas e gestores públicos em uma agenda extensa, distribuída em múltiplas trilhas temáticas. A diversidade de temas e abordagens refletiu a complexidade do campo, com discussões que transitaram entre aspectos técnicos, estratégicos e estruturais.
A realização do evento no Nordeste também dialoga com um movimento mais amplo de crescimento da atuação do investimento social privado na região. Segundo o Censo GIFE 2024–2025, 57% das 138 organizações respondentes atuam no Nordeste, percentual que fica atrás apenas da região Sudeste. No ciclo anterior (2022–2023), esse índice era de 39%, evidenciando um avanço significativo na presença dessas organizações na região.
Quem decide o sucesso de um projeto social?
Entre as atividades acompanhadas, o painel “Investimento Social Privado: quem decide o sucesso de um projeto social: doadores ou beneficiários?” trouxe reflexões importantes, criando pontes entre os pontos de vistas dos investidores e das organizações.

O debate contou com contribuições de Gabriel Cardoso, gerente-executivo do Instituto Sabin, Stellinha Moraes, consultora do terceiro setor e especialista em direitos humanos, responsabilidade social e políticas públicas para família, e mediação de Vanessa Prata, cofundadora da ponteAponte, que trouxeram diferentes perspectivas sobre a relação entre financiadores e organizações executoras.
Gabriel Cardoso destacou a importância de equilibrar propostas bem estruturadas, com orçamentos consistentes, e a necessidade de garantir flexibilidade para que as organizações tenham autonomia na aplicação dos recursos. Já Stellinha Moraes chamou atenção para a importância de os investidores compreenderem as especificidades dos territórios e das diferentes realidades, reconhecendo o papel das organizações locais como detentoras de um conhecimento estratégico.
A discussão abordou, de forma transversal, a necessidade de relações mais equilibradas entre financiamento e execução, com maior valorização da escuta e da construção conjunta.
IA, eficiência e reputação: os dilemas da transformação digital
Outro momento acompanhado tratou do uso da inteligência artificial na captação de recursos, tema que vem ganhando espaço nas discussões sobre gestão no terceiro setor.
No painel “Transformação Digital: Como a IA Pode Potencializar a Captação de Recursos”, a discussão contou com a participação de Daiany França, diretora-executiva da Mais Impacto, líder da frente de esporte do Instituto MOL, consultora e pesquisadora no Terceiro Setor, que trouxe reflexões sobre o uso estratégico dessas ferramentas.
A tecnologia foi apresentada como uma possibilidade de ampliar eficiência, especialmente em organizações com equipes reduzidas. Ao mesmo tempo, foi destacado que o uso da IA precisa ser criterioso. Segundo a especialista, as organizações da sociedade civil vêm enfrentando um cenário de maior escrutínio público e desafios de credibilidade, o que exige atenção redobrada na forma como novas tecnologias são utilizadas.
A discussão indicou que a adoção da inteligência artificial deve estar alinhada a princípios de responsabilidade, transparência e coerência institucional.
Soluções do território: o papel das iniciativas locais
A programação também incluiu espaços dedicados à apresentação de iniciativas e soluções. Durante a visita aos estandes, uma das experiências foi conhecer a plataforma Bora Impactar, plataforma da Prefeitura do Recife, criada por voluntários, que facilita a conexão entre empresas e ONGs, com projetos transparentes, mensuráveis e alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Segundo Bianca, da Emprel, a ferramenta, que já conta com mais de 100 ONGs cadastradas e ajudou a destinar mais de 228 mil reais até abril de 2025, reúne conteúdos, oportunidades e conexões para organizações e empreendedores, com foco no fortalecimento das iniciativas locais. A presença de plataformas como essa no evento indica o papel que governos municipais podem assumir na estruturação de ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento das organizações, da filantropia e do impacto social.
Vozes e percepções de quem esteve no FIFE
As conversas com participantes ao longo do evento trouxeram percepções que dialogam com os temas discutidos na programação, especialmente em relação ao fortalecimento institucional, à circulação de conhecimento e ao papel do território.
Lucas Seara, da OSC Legal, iniciativa que atua com a democratização do acesso à informação jurídica para organizações da sociedade civil, destacou os desafios enfrentados por instituições de menor porte.
“O que a gente busca é democratizar o acesso à informação jurídica para fortalecer as organizações, especialmente as pequenas, que muitas vezes não têm a quem recorrer. Trabalhamos traduzindo o universo jurídico em linguagem simples e acessível, por meio de conteúdos, materiais e ferramentas disponibilizados gratuitamente”.
Na perspectiva de Duci França, fundadora do Instituto Cores do Mará, organização maranhense que oportuniza e potencializa o desenvolvimento humano de crianças e adolescentes maranhenses por meio de uma educação protagonista, o evento também se destaca como espaço de articulação e visibilidade.
“O FIFE proporciona um espaço fundamental para discutir pautas relevantes para o fortalecimento do terceiro setor e da filantropia no país. Também é uma oportunidade de reencontrar e conhecer pessoas que compartilham sonhos e desafios semelhantes. Participar do Fórum representando uma organização maranhense é ocupar espaços importantes de protagonismo e diálogo. Mais do que evidenciar desafios, é um momento de reconhecer nossas fortalezas e potencialidades. A realização do evento no Nordeste reforça a importância de descentralizar recursos e decisões, ampliando vozes e perspectivas.”
Já Jovemar Junior, fundador da Reapp Mobi, uma social tech que amplia os canais de comunicação e conexões entre investimento social e territórios, destacou o espaço para discussões mais abertas sobre o próprio setor:
“O FIFE 2026 trouxe um dinamismo que o terceiro setor já vinha pedindo. Foi um momento de reflexão coletiva, com o setor se olhando no espelho para entender suas vulnerabilidades e também suas potências. Os temas debatidos, muitas vezes considerados espinhosos, foram tratados de forma mais aberta, criando espaço para pensar soluções para desafios internos do próprio setor. Também foi significativo ver o evento acontecendo em Recife. Como alguém de São Luís, foi uma oportunidade de conhecer iniciativas do Nordeste que atuam em nível nacional sem perder a conexão com seus territórios.”
Um setor em movimento
Ao longo dos quatro dias, o FIFE 2026 reuniu diferentes visões sobre os caminhos do terceiro setor, combinando discussões técnicas, reflexões estratégicas e experiências práticas.
A realização do evento em Recife contribuiu para ampliar a presença de organizações e iniciativas do Nordeste no debate. Em um cenário de mudanças constantes, o encontro reforça a importância de espaços que promovam troca, articulação e reflexão sobre o papel das organizações na resposta aos desafios sociais contemporâneos.