Em Fortaleza, o 3º Fórum Nordeste de Economia Circular foi uma plataforma de debate regional sobre o setor. Como ativista e engenheira, faço o questionamento: o que conecta um fórum no litoral do semiárido brasileiro às disputas globais mais urgentes de meio ambiente e clima? A resposta não está apenas nas crises ambientais que atravessam o país, mas também nos povos que mantêm a economia circular de pé.
Entre 25 e 27 de março, o fórum, liderado pelo Movimento Reinventando Futuros (MRF), reuniu governos, empresas, universidades, organismos internacionais e comunidades com a proposta de cocriar soluções para os desafios sociais, ambientais e econômicos do século XXI a partir do protagonismo nordestino.
Um grande acerto do evento foi guiar o debate sobre economia circular em conexão com temas como cidades mais resilientes e inclusivas, políticas públicas, justiça climática e produção científica.

E é partindo deste ponto que o embate com as políticas globais começa.
O contexto global por trás da economia circular local
Sob diferentes eixos, da reciclagem à economia solidária, o Fórum dialoga com um setor que pode movimentar cerca de US$ 355 bilhões até 2032. No Nordeste, esse potencial gira em torno de R$ 137 bilhões nos próximos anos.
As tendências da sociedade também convergem: o artesanal, o sustentável e o autoral têm atraído as novas gerações com força.
Diante desse contexto, o Nordeste larga na frente por sua histórica capacidade de “fazer muito com o pouco”. Com o uso de matérias-primas da Caatinga e a partir dos saberes dos nossos mestres, o artesanato nordestino já ocupa espaço no mercado global. Com o avanço da reciclagem, a região também se consolidou como a terceira maior produtora de resina reciclada do país.
Um exemplo é o trabalho do Grupo de Interesse Ambiental (GIA). A iniciativa impacta diretamente a vida de mulheres em situação de vulnerabilidade nas periferias, gerando renda e valorizando suas trajetórias.
“Além da pauta ambiental, ao reaproveitar materiais que seriam descartados ou poluiriam o meio ambiente, o projeto atua no social, capacitando e apoiando financeiramente essas mulheres, fortalecendo sua autonomia”, destaca Gabrielli França, uma das expositoras da feira de empreendedores do Fórum.
Ao promover um evento que debate a economia circular para além de ações pontuais, o Nordeste reafirma seu posicionamento sobre a importância de políticas públicas que fortaleçam uma atuação sistêmica não só pela preservação da natureza, mas também pela proteção de quem depende diretamente dessa economia.
Políticas climáticas e transição ecológica no Nordeste
Esse protagonismo não é recente. Durante a COP, houve uma intensa mobilização dos governos estaduais por meio do Consórcio Nordeste, com foco na transformação ecológica, incluindo novas economias e transição energética.
A Cúpula dos Povos, realizada de forma simultânea, reuniu milhares de pessoas e organizações. Sob o lema “A resposta somos nós!”, o evento mobilizou uma grande participação popular na Marcha Global pelo Clima.
Esse “nós” tem endereço e, cada vez mais, tem turbinas e linhas de transmissão como pontos de referência. Quilombos, aldeias, vilas e comunidades que já praticam os conceitos debatidos no Fórum muito antes de eles se tornarem pauta global.
A COP30 também registrou avanços importantes fora das negociações formais. No caso do Nordeste, para além do semiárido, esses debates chegam ao mar, onde se concentra grande parte dos novos projetos energéticos do país.
Dito isso, como avançar na transição para novos modelos energéticos sem um debate aprofundado sobre seus impactos? E mais: como a combinação desse cenário com a poluição plástica pode afetar a economia circular que sustenta esses territórios?
O oceano brasileiro agora tem um plano de ação, e o Nordeste, um papel a cumprir nele
Para o Nordeste, região com mais de cinco mil quilômetros de litoral, a identidade cultural também está profundamente conectada ao mar, especialmente por meio da pesca e do turismo.
O plástico é um dos principais desafios, pois pode permanecer por séculos no ambiente e já apresenta impactos significativos na saúde humana e ambiental. Ainda assim, as negociações globais sobre o tema avançam mais lentamente do que as relacionadas ao clima.
O Tratado Global de Plásticos, por exemplo, teve suas negociações suspensas em 2025. Já a próxima grande reunião da Década dos Oceanos está prevista para 2027, com sede no Brasil.
Criada como uma espécie de Agenda 2030 dos mares, a Década dos Oceanos representa uma oportunidade para o país se posicionar como liderança oceânica global — com reflexos em políticas públicas, educação e governança.
Mas o que significa essa liderança sem o litoral nordestino? Os recifes de coral mais extensos do Atlântico Sul estão aqui. E também estão aqui as comunidades que produzem dados vivos sobre a saúde do oceano.
O desafio agora é posicionar a região como prioridade nesse debate.
Economia circular e justiça climática de mãos dadas pela defesa de quem constrói comunidades resilientes
Apesar dos avanços trazidos pelo Fórum, ainda é necessário enfrentar questões que grandes fóruns internacionais frequentemente evitam: por que aqueles que mais dependem da economia circular são também os mais impactados por suas vulnerabilidades?
O relatório Roots of Resistance, da Global Witness, aponta que pelo menos 2.253 defensores ambientais e de direitos humanos foram assassinados ou desapareceram entre 2012 e 2024, sendo 82% dos casos na América Latina.
Na linha de frente desse risco, o Brasil figura entre os países mais perigosos para ativistas ambientais. Ameaças, intimidações e homicídios atingem os mesmos territórios onde avançam grandes empreendimentos e onde os impactos ambientais se intensificam.
Durante a mesa “Infraestrutura verde, circularidade e adaptação climática”, mediada pela FUNCEME, foi evidenciada a lacuna na produção de dados e soluções voltadas ao semiárido brasileiro.
Por isso, a resiliência climática a partir da economia circular precisa ir além dos centros de decisão. É fundamental que as políticas públicas partam das bordas, fortalecendo a justiça climática e a circularidade das economias que sustentam territórios e comunidades.
Sabrina Cabral, é ativista e criadora do blog @sanydapeste, onde aborda temas como meio ambiente, direitos humanos e educação para a juventude periférica do Nordeste. Graduanda em Engenharia Civil na UFC e bolsista do programa Bolsa Jovem da Prefeitura de Fortaleza e BID, é engajada em temas como sustentabilidade, economia criativa e design. É fundadora da iniciativa Ruma, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento sustentável a partir das juventudes do Nordeste, conquistando bolsas de desenvolvimento de projetos no MIT e se tornado Representante Juvenil em iniciativas da ONU na América Latina e Caribe, como o acampamento Juventudes Ya! do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
Sabrina faz parte da Rede Impacta Nordeste de Jovens Lideranças.