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FonteViva: jovens do Piauí criam sistema que reaproveita água para reduzir o calor 

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Andressa Maria e Wenner Batista criaram um sistema que reutiliza água de máquinas de lavar para resfriar residências e reduzir em até 8ºC a temperatura dos ambientes. 

Há uma época do ano, no Piauí, que funciona como um marcador climático para a chegada do calor extremo. Entre setembro e dezembro, quando as chuvas somem e o termômetro beira os 40°C quase todos os dias, os piauienses chamam esse período de B-r-ó bró, nome que nasce da junção das últimas sílabas de setembro, outubro, novembro e dezembro. Nesses meses, é comum ver quintais e varandas molhados no fim da tarde, água jogada no chão de casa ou até na calçada, na tentativa de baixar a temperatura lá dentro. É um hábito antigo, quase uma tarefa doméstica, que carrega dentro de si um saber popular: jogar água para esfriar a casa e amenizar o calor.

Foi observando esses mesmos elementos, a água, o calor, e o saber popular, que Andressa Maria e Wenner Batista, ambos de Teresina (PI), começaram a dar forma a uma ideia que, tempos depois, se tornaria o FonteViva – Renascendo com a Água. 

“Aqui no Piauí é muito comum que as pessoas coloquem uma mangueira no terraço na tentativa de mitigar o calor e ali vai uma água potável, um recurso hídrico essencial para a nossa sobrevivência”, conta Andressa, em entrevista ao podcast Portal Piauí Hoje. A observação levou os dois a questionarem se seria possível substituir a água potável por um recurso que já seria descartado. “Então a gente pensou: por que não reutilizar uma água que está sendo descartada para resfriar ambientes internos? E, a partir daí, veio o primeiro esboço do nosso projeto”, relata. 

A pergunta deu origem ao FonteViva: um sistema que capta a água descartada por máquinas e pias de lavar roupa, filtra esse efluente e o direciona para o telhado das casas, reduzindo a temperatura interna dos ambientes em até 8º C. 

A ideia amadureceu dentro do Programa Pioneiros, iniciativa de educação socioambiental do grupo Aegea. Foi ali, em 2023, que o projeto conquistou o primeiro lugar na etapa local da 5ª edição do programa e, na sequência, chegou entre os três melhores do país na etapa nacional, dando início a uma trajetória que levaria a dupla a apresentar o projeto em palcos como a Genius Olympiad, nos Estados Unidos, e a integrar o Conselho Mundial da Juventude do ICLEI, uma das principais redes globais de desenvolvimento sustentável. 

Andressa Maria e Wenner Batista apresentam o funcionamento do FonteViva, sistema que reutiliza água para reduzir o calor em residências. Texto: Cristiano Cipriano Pombo. Imagens: Mathilde Missioneiro/TV Folha. 

O resfriamento na prática

Na prática, o funcionamento é simples de entender, mas exige um raciocínio de engenharia caseira. A água que sairia direto pelo ralo, depois de lavar roupa, passa a ser recolhida em um reservatório, um balde comum. Dali, segue por um processo de filtragem, para retirar impurezas, antes de ser bombeada até o telhado da casa, onde molha a superfície e provoca a queda de temperatura no ambiente interno. Um sistema de sensores permite ainda acompanhar, pelo celular, dados como temperatura, umidade e o fluxo da água percorrendo a instalação. 

Hoje, o custo estimado de instalação gira em torno de R$300,00, um dos fatores que torna o sistema uma alternativa de baixo custo pensado para funcionar como alternativa a soluções de resfriamento mais caras e tradicionais, como o ar-condicionado. 

É o tipo de solução que só se enxerga quando se conhece de perto o problema que ela resolve. Andressa e Wenner não observaram o calor do Piauí como um dado abstrato, distante, algo lido em relatório ou estudado de fora, eles viveram essa realidade, como qualquer pessoa que cresce em Teresina vive o B-r-ó bró todos os anos. Essa proximidade, de estar dentro do problema e não apenas diante dele, é também o que dá ao Fonteviva sua marca mais particular: a de um projeto pensado por quem se reconhece, antes de tudo, como parte de quem o calor afeta.

Mais do que reaproveitar um recurso que seria descartado, o projeto também foi pensado para enfrentar uma questão de acesso: como reduzir o calor dentro de casa quando soluções convencionais de resfriamento estão fora do alcance de muitas famílias. “Criamos pensando nas dificuldades das famílias que vivem em casas pequenas, sem ventilação e sem condições de ter ar-condicionado. Ver essa ideia ganhar o mundo é um orgulho imenso”, afirmou em entrevista ao G1 Piauí.

(Foto: Reprodução/Aegea)

Do Piauí para o mundo

Em pouco tempo, o projeto ganhou um alcance que ultrapassou as fronteiras do Piauí. Depois do Programa Pioneiros, Andressa e Wenner levaram o FonteViva à FEBRACE, maior feira de ciências e engenharia do país, e, em 2025, apresentaram a iniciativa na Genius Olympiad, nos Estados Unidos, ao lado de jovens de diferentes países. A dupla também passou a integrar o Conselho Mundial da Juventude do ICLEI, uma das principais redes globais de desenvolvimento sustentável, e foi reconhecida na categoria Jovens Transformadores pelo Clima do Prêmio Empreendedor Social, promovido pela Folha de S.Paulo em parceria com a Ashoka.

Para Andressa, essa trajetória também evidencia a importância das oportunidades para jovens que desenvolvem suas ideias a partir de contextos nem sempre associados à inovação. “Viemos de escola pública, de uma realidade muito simples, e conseguimos levar uma ideia do nosso bairro para eventos internacionais. Isso mostra que os sonhos da gente têm valor”, disse ao G1 Piauí.

Pensar global e agir local

O Fonteviva talvez seja, antes de tudo, um exemplo de que pensar globalmente também pode começar por olhar com atenção para o que está perto. O problema que Andressa e Wenner decidiram enfrentar não nasceu em um laboratório, mas no cotidiano de uma comunidade que convive todos os anos com o calor intenso e com os limites de acesso a alternativas de resfriamento. A partir dali, uma prática comum virou pergunta, a pergunta virou pesquisa e a pesquisa ganhou espaço para ser apresentada fora do Piauí. É a lógica de pensar global e agir local: reconhecer desafios que atravessam o mundo, mas começar a construir respostas a partir do território que se conhece e se vive. 

Hidelgann Araújo é um estrategista de comunicação e mobilizador do terceiro setor, premiado pelo Anthem Awards e com o selo de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. Sua paixão pela criatividade e articulação de comunidades e histórias se traduz em uma trajetória que reflete a comunicação como uma ferramenta para gerar impacto social. Já colaborou com Canal Futura, Co.liga, Greenpeace, Politize!, SOMA+ e UNICEF, fortalecendo a sinergia do coletivo e valorizando a pluralidade como base para a inovação.

Hidelgann faz parte da Rede Impacta Nordeste.