Impacta Nordeste

O lixo mora onde você passa férias

O aumento do consumo no verão sobrecarrega destinos turísticos sem infraestrutura; a empreendedora Saville Alves propõe usar a força da economia criativa para transformar a reciclagem em um hábito tipicamente brasileiro.

O verão altera a dinâmica dos espaços: mais gente circulando, mais eventos, e, portanto, mais consumo. Aproveitamos o calor para nos esparramar pelas águas e areias, aproveitar o sossego, curtir com amigos e família e criar memórias divertidas e inesquecíveis. 

Nas grandes cidades litorâneas, as praias passam a ser o ponto de encontro favorito e os pequenos vilarejos se tornam o destino de milhões de brasileiros. O Ministério do Turismo divulgou que 59 milhões de brasileiros pretendem viajar a lazer durante as férias de verão e têm como destino mais procurado as praias nacionais. 

Esse deslocamento, lógico, vem acompanhado de consumo, festejos e um aumento considerável do número de pessoas habitando, mesmo que temporariamente, locais que não foram estruturados para essa sobrecarga.

E com tanta gente por lá, o mar não fica para peixe: o lixo gerado muitas vezes encontra como destino a natureza. Quase 30% dos municípios brasileiros ainda descartam seus resíduos em lixões, sem tratamento adequado. Isso se agrava pela ausência de coleta regular em 40% das cidades, em especial as pequenas. 

Esse contexto evidencia um prognóstico arrepiante: o lixo mora onde você passa férias.

Mas, calma, ainda há um futuro possível. E o caminho perpassa por combinar colaboração entre poder público, lideranças comunitárias e o setor privado para termos soluções adaptadas às necessidades locais e que potencializem a cultura e o povo de cada um desses territórios.

Implementar coleta porta a porta, infraestrutura de ecopontos e pontos de entrega voluntária, aumentar o quantitativo de pessoas dedicadas à limpeza, valorizar o trabalho dos catadores e expandir as redes de comercialização dos recicláveis são etapas fundamentais.

Mas a minha proposta hoje é falarmos sobre um aspecto diferente: se o verão é época de ativarmos o máximo da nossa imaginação, se o Brasil é a terra onde há mais influenciadores do que médicos e se o meme é a nossa invenção de cada dia, temos que aproveitar a força da nossa economia criativa para potencializar a nossa economia circular.

Posicionar a sustentabilidade com verdade, mas de forma divertida pode ser uma saída para levarmos a sério, sem perder a graça, tipicamente brasileira. É preciso usar o encantamento para espalhar para os brasileiros a importância de termos novos hábitos que façam da reciclagem uma ferramenta de preservação de áreas e de mobilidade social para populações mais vulneráveis

Imaginar a reciclagem chegando a mais brasileiros requer também sonhar grande. E se a reciclagem se tornasse tema de enredo de escola de samba? Ou uma propaganda icônica em horário nobre? Ou até mesmo uma ativação gigante em um local instagramável? Quem sabe com mais pitadas de criatividade a gente não consiga fazer a reciclagem acontecer de forma cada vez mais justa, relevante e inclusiva em todo o Brasil.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para  facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.

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