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O papel de projetos sociais na revelação de campeões olímpicos

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As Olimpíadas de Tóquio 2020 acabaram e o Brasil obteve o seu melhor desempenho na história. Além da festa e das conquistas, os jogos olímpicos lançaram luz sobre outra questão: o papel dos projetos sociais na revelação e formação de atletas com a falta de investimento público e privado na maioria das modalidades.

As Olimpíadas de Tóquio 2020 (Japão) acabaram e deixaram a mensagem que esses foram os jogos da diversidade e, sobretudo, da inclusão. O Brasil terminou em 12º lugar na classificação, com um total de 21 medalhas, sendo sete de ouro, com isso, esse foi o melhor desempenho do país na história das Olimpíadas. Mas o que vai além da festa, da conquista e das medalhas, os jogos olímpicos lançaram luz sobre outra questão, a falta de investimento no esporte. 

Histórias de superação de atletas para conseguir treinar e chegar a competir em uma Olimpíada mostraram que a rotina de quem vive ou quer viver do esporte não é fácil. Vários foram os exemplos de atletas que chegaram a Tóquio sem patrocínio, sem condições adequadas para treinar ou que tiveram que fazer dupla jornada entre os treinos e um emprego formal. 

O exemplo mais emblemático e que movimentou as redes sociais foi o caso do arremessador de peso, Darlan Romani. Depois que um vídeo dele treinando em um terreno baldio, próximo a sua casa, viralizou nas redes sociais, escancarou a dura realidade que é a vida de muitos atletas brasileiros. Depois da repercussão do vídeo, uma vaquinha online foi aberta e até o fechamento dessa matéria já tinha sido arrecadado mais de duzentos mil reais. Uma ajuda para a preparação dele para os próximos jogos olímpicos que acontecerão em Paris, na França, em 2024. 

Falta de investimento

Com poucas exceções, a maioria das modalidades olímpicas carece de investimento público e privado e não há politicas públicas bem estruturadas para revelar novos atletas. Hoje, os atletas recebem uma ajuda financeira do Governo Federal, denominada de Bolsa Atleta. Alguns esportistas também fazem parte do Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR) das Forças Armadas, que apoia o esporte brasileiro desde 2011. 

No entanto, esses apoios não são suficientes para manter um atleta de alto rendimento. O valor pago pela Bolsa Atleta está sem reajuste desde 2010. A falta de investimento e de politicas públicas no esporte vem de outras gestões do Governo Federal, mas foi acentuada no atual governo com a extinção do Ministério do Esporte, que passou a fazer parte de uma Secretaria dentro do Ministério da Cidadania. 

Segundo dados do projeto Transparência no Esporte, da Universidade de Brasília, que mapeia os gastos estatais esportivos, o ano de 2020 teve o menor investimento dos últimos 10 anos, pouco mais de 1 bilhão de reais. De acordo com o estudo, no período do ciclo olímpico dos Jogos do Rio 2016, o Brasil teve o maior gasto na área, foram mais de 3 bilhões de reais. 

A iniciativa privada também não valoriza o atleta e o esporte de uma forma geral. Mesmo para os atletas de alto rendimento e com chances reais de medalhas, falta apoio. Um exemplo é a medalhista olímpica Rebeca Andrade que foi para Tóquio com apenas um patrocinador. De acordo com Amir Somoggi, da consultoria Sports Value, para o Portal Uol, um dos grandes problemas é a tradição do investimento de dinheiro público no esporte olímpico. “O Brasil tem um histórico muito grande de investimento de dinheiro público no esporte, pelo patrocínio de empresas como Correios, Petrobras e Caixa, por exemplo (…) Não há uma cultura de investimento de dinheiro privado”, afirma.

Se falta incentivo para grandes esportistas, revelar novos atletas é ainda mais desafiador. Ao comparar o Brasil com outros países semelhantes pelo tamanho de sua população e dimensões continentais, o contraste fica evidente. São poucas as políticas públicas bem estruturadas para identificar jovens com potencial. São muitas as histórias de atletas que tiveram que bancar do seu próprio bolso, ou recebem ajuda de projetos sociais para treinar e participar de competições.

O papel dos projetos sociais

Se falta apoio do governo e da iniciativa privada, os projetos sociais vem tentando preencher essa lacuna, dando oportunidade, encontrando e lapidando novos talentos para o esporte brasileiro. Muitos dos atletas que participaram e foram medalhistas nas Olimpíadas de Tóquio iniciaram sua vida esportiva em projetos sociais. Foi o caso do Alisson dos Santos e dos nordestinos Isaquias Queiroz e Hebert Conceição

Para Daiany França, fundadora do Instituto Esporte Mais, o esporte vai além de uma ferramenta de inclusão social. “Devemos lembrar que o esporte é um direito previsto na Constituição Federal, o que, por si só, deveria ser importante para legitimar a sua relevância na nossa sociedade. Pensando dessa forma, o esporte não é só uma forma de inclusão social, como ele é a própria inclusão, uma vez que se trata de um direito”, afirma. O Instituto Esporte Mais (IEMais) é uma organização da sociedade civil cearense, criada por Daiany em 2014, com a missão de levar esporte para crianças e mulheres e promover um mundo mais justo e equânime.

“O Estado, por sua vez, adora posar com os atletas, mas faz pouco efetivamente. As empresas também devem ser atores nesse contexto e precisam seguir avançando nas modalidades de apoio e patrocínio. Por exemplo, os projetos sociais sofrem muito porque raramente têm ‘recursos livres’ para investir em uma ideia nova, desenvolver metodologias de trabalho ou fazer uma obra de melhoria.”

Ainda de acordo com Daiany, o Brasil precisa enxergar o esporte como uma política pública e como uma ferramenta de inclusão social.  O esporte muda a vida das pessoas. É preciso um maior investimento e apoio para que o esporte faça parte do cotidiano das crianças, na escola. “Precisamos jogar luz para questões estruturais e questionar ‘onde está o direito ao esporte no Brasil? ’. O Estado, por sua vez, adora posar com os atletas, mas faz pouco efetivamente. As empresas também devem ser atores nesse contexto e precisam seguir avançando nas modalidades de apoio e patrocínio. Por exemplo, os projetos sociais sofrem muito porque raramente têm ‘recursos livres’ para investir em uma ideia nova, desenvolver metodologias de trabalho ou fazer uma obra de melhoria. Precisamos abrir novos espaços de diálogo, inclusive com a sociedade”, explica.

Projetos sociais que ajudaram a descobrir e moldar os talentos dos medalhistas de ouro em Tokio, Isaquias Queiroz e Hebert Conceição, são da Bahia. Conheça um pouco deles:

Associação Cacaueira de Canoagem 

Nos Jogos de Tóquio, Isaquias Queiroz ganhou a medalha de ouro na prova do C1 1000 metros da canoagem de velocidade. Essa é a 4ª medalha do atleta em Olimpíadas, nos Jogos do Rio 2016, ele faturou duas pratas, no C1 1000m e no C2 1000m, e o bronze no C1 200 m. Além disso, o atleta também coleciona vitórias em campeonatos mundiais. 

Baiano de Ubaitaba, Isaquias iniciou a sua trajetória na canoagem por meio da Associação Cacaueira de Canoagem. O projeto social está em funcionamento há 36 anos e mantém uma escolinha gratuita de canoagem que atualmente atende cerca de 60 crianças. Apenas dois requisitos são necessários para ser aceito: saber nadar e ir bem na escola. 

Projeto Campeões da Vida

O boxeador e campeão olímpico Hebert Conceição nasceu em Salvador e começou seus primeiros passos no esporte através do projeto desenvolvido por Luiz Dórea. O projeto Campeões da Vida existe há 31 anos e por lá já passaram mais de 8 mil crianças. 

A academia funciona no quintal da escola da família de Luiz Dórea, no bairro da Cidade Nova. Vários atletas já passaram pelas mãos do treinador, de lá já saíram 14 boxeadores olímpicos e três medalhas: o bronze de Adriana Araújo, nos Jogos de Londres 2012, o ouro de Robson Conceição, Rio 2016 e agora o ouro de Hebert.

Além do boxe, os jovens de 10 a 18 anos podem praticar jiu-jitsu ou muay thai. Qualquer um pode participar desde que faça um exame médico e comprove que está estudando.

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