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O poder disruptivo do crowdativismo e cultura de doação no Ceará

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No Ceará, a resiliência e o espírito solidário moldam uma realidade marcada pela disparidade entre o desenvolvimento econômico e a desigualdade social. Nesse contexto, organizações como o Causas do Bem emergem como catalisadores de mudanças. Com uma cultura de doação em evolução, a iniciativa tem o potencial para ser um laboratório de transformação social, onde cada ato de generosidade se torna um passo rumo a um futuro mais solidário e inclusivo.

Foto de capa: Roda de conversa na Fundação Projeto Diferente (Foto: Divulgação)

A resiliência e o bom humor fazem parte da identidade do jeito “cearense de ser”. O Estado é destaque com o maior índice de desenvolvimento econômico do Nordeste, no entanto, ainda enfrenta muitos problemas complexos como a desigualdade social, a insegurança alimentar e a falta de investimentos, principalmente no interior. 

Quando o Estado não consegue chegar aos que mais precisam, a solidariedade nas periferias, movimentos sociais e organizações comunitárias mostram que para suprir as necessidades básicas é preciso repartir o que se tem. 

Pablo Robles, administrador de empresas e Mestre em Sociologia, ao perceber o poder transformador da doação, pode enxergar o fenômeno contemporâneo do crowdfunding sob uma perspectiva mais ampla, rica e multifacetada. 

Ele é fundador e CEO do Causas do Bem, uma organização de impacto social que consiste em ser um hub de articulações solidárias para preparar e assessorar entidades sociais com potencial favorável de mobilização a conquistarem uma base crescente de doadores mensais (recorrentes) para seus projetos.

A instituição se apresenta como um Programa de Inovação para a Sustentabilidade, tendo surgido a partir do Ecossistema de Incubação do Instituto Sinergia Social, OSC especializada em assessorar outras causas e potencializar seus resultados.

“A gente vive dentro de uma cultura e política que, muitas vezes, exacerba o individualismo e desvaloriza a prática da doação”

Pablo Robles, CEO do Causas do Bem

“A gente vive dentro de uma cultura e política que, muitas vezes, exacerba o individualismo e desvaloriza a prática da doação. É super importante nós incentivarmos esse costume de doar, não somente com recursos financeiros, mas também doar tempo ou habilidades para causas sociais, filantrópicas e comunitárias”, afirma. 

Afinal, uma doação pode melhorar a qualidade de vida das pessoas beneficiárias, um móvel antigo que perdeu utilidade e só está ocupando espaço em casa ajuda alguém que precisa, o computador velho também pode ser consertado para beneficiar outra pessoa ou diversos livros podem ser doados para a comunidade e inserir crianças e jovens no mundo da leitura. 

A história de Marcelo Camurça, aposentado de 79 anos e que cuida da filha Marcela, de 46 anos, portadora de deficiência física e mental, mostra como o ato de doar é essencial para garantir a sobrevivência dela. “Minha filha necessita de condições especiais para viver, muitas vezes os recursos financeiros não dão conta, mas com diversas doações de familiares e amigos, como cadeira de rodas, colchão d’ água ou até mesmo um tempo de qualidade, ajudamos ela a ter uma vida melhor”.

Outro exemplo de como a cultura de doação também serve como um incentivo para conquistar sonhos é de Letícia Gomes, auxiliar administrativa e voluntária financeira do Causas do Bem. Ela faz parte das estatísticas de violência contra mulher, mas deu a volta por cima e durante a pandemia de Covid-19 começou a vender bolos. No entanto, seu grande sonho é terminar a graduação de Contabilidade. 

Por isso, o Causas também criou e incentivou uma campanha de doação para que a estudante consiga seguir com seus estudos. “Essa doação vai me ajudar muito a conquistar meu sonho. Sou mãe solo, com dois filhos pequenos, sofri violência doméstica, mas não abaixei minha cabeça. Quero agradecer demais ao Causas do Bem, a todo mundo que doou com 5 a 15 reais e eu não vou desistir”, afirma Letícia. 

Pablo Robles e Erivânia Queiroz, na sede do Movimento Emaús Amor e Justiça (Foto: Sara Café)

Um parceiro importante e estratégico do Causas do Bem é o Movimento Emaús Amor e Justiça. Essa instituição recebe tudo que pode ser restaurado, recuperado ou repassado para que outras pessoas possam utilizar, criando um ciclo da cultura de doação: recebem materiais da população; atuam no Pirambu, bairro periférico de Fortaleza e uma área tradicionalmente pobre e populosa e ainda ajudam outras instituições sociais que têm menos recursos.

“Assim proporcionamos aos moradores da comunidade por meio da coleta, da reciclagem e da venda de objetos usados, geração de emprego e renda, garantindo a aquisição de objetos com preços acessíveis às famílias de baixo poder aquisitivo. Nosso lema é servir os que mais necessitam, aliviar a dor imediata e combater as causas da miséria”, relata a presidente do grupo, Erivânia Queiroz Santiago. 

Cultura solidária, crowdativismo e inovação social

Segundo o relatório anual World Giving Index 2022, representada no país pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), o Brasil está entre os 20 países mais solidários do mundo e de acordo com a pesquisa Percepção e Prática da Doação no Brasil, lançada em junho deste ano e conduzida pelo Datafolha, cerca de 31% dos brasileiros fizeram, pelo menos, uma doação em dinheiro ao longo de 2022. 

Mas a realidade mostra que o povo brasileiro é solidário em situações pontuais e emergenciais. A falta de sustentabilidade crônica da sociedade civil ainda é um ponto preocupante. “Doar como compromisso cidadão e uma prática consciente, como se fosse um dízimo do bem, isso é raro. A pessoa não costuma colocar esse compromisso dentro do seu coração como se fosse um propósito de vida e não faz parte do seu orçamento doméstico”, de acordo com o mestre em Sociologia. 

É muito fácil e cômodo alegar que as pessoas não doam porque não tem nada para compartilhar, não acreditam na seriedade das OSCs ou porque creem que não temos, enquanto indivíduos que já pagam impostos, nenhum tipo de responsabilidade social. No entanto, parte da sociedade não tem o hábito de doar porque também não foi educada para isso e a cultura de doação não é incentivada no cotidiano das pessoas, empresas e escolas.

“Infelizmente o ato de doar não é um tema que aparece nas conversas informais, na mesa do café e não é prática recorrente.”

“Infelizmente o ato de doar não é um tema que aparece nas conversas informais, na mesa do café e não é prática recorrente. Por isso, nós que estamos dentro das causas e projetos precisamos assumir um maior protagonismo e não ter medo de levar esse debate para diferentes ambientes e com novas e diversas estratégias”, alerta Pablo Robles. 

A exemplo do seu Marcelo que cuida da filha portadora de deficiência, a auxiliar administrativa Letícia que tem o sonho de terminar seus estudos e o Movimento Emaús com o bazar da partilha; muitas pessoas, projetos incríveis e de grande relevância para as comunidades não conseguem se sustentar, crescer ou deixam de funcionar por falta de recursos básicos.

Na falta de estímulos fortes, ativistas e maduros para fazer o bem e se sentir parte da transformação gerada, existem pessoas que só se dispõem a doar (pontualmente – passivamente – timidamente) porque alguém próximo ou influente convidou (e reforçou).

O divisor de águas dessa nova concepção, Pablo desenvolveu e validou em sua dissertação de Mestrado a abordagem do crowdativismo. “Representa uma releitura crítica do crowdfunding. Ao pé da letra, seria ativismo de multidão, mobilização genuinamente democrática e participativa em que cada pessoa, não apenas um número (um contato) perdido numa massa amorfa. Pelo contrário, cada pessoa é um doador potencial de cidadania e empatia.”

O crowdativismo consiste em uma abordagem que valoriza e promove a conscientização solidária, o engajamento cívico e a mobilização coletiva de pessoas, recursos, estratégias, campanhas e parcerias em prol de uma sociedade mais participativa, acolhedora, organizada e sustentável. É uma filosofia democrática e inovadora de captação coletiva de recursos, potencializada pelos avanços comunicativos e disruptivos da cibercultura, que contribui para humanizar, qualificar e multiplicar a prática social de doação e o ecossistema de relacionamentos.

Temáticas mobilizadoras do Causas do Bem

Um grande desafio da instituição, como hub de conexão solidária e mobilização em redes, é semear e democratizar a cultura do crowdativismo. Esse é o ideário que dá corpo e alma à metodologia social exclusiva do Causas do Bem, chamada de Espiral de Sustentabilidade e integrada organicamente por quatro ciclos: (I) Fortalecendo as Bases, (II) Autonomia Sustentável, (III) Escalando Impactos e (IV) Ecossistema Crowdativista.

Esses ciclos constituem uma tecnologia social, institucional e pedagógica de doação, assessoria e sustentabilidade. “Como não existe ainda uma cultura cívica e recorrente de doação financeira, outro desafio premente que o Causas têm pela frente é desenhar, implementar, sistematizar e disseminar metodologias específicas que trabalhem, qualifiquem e fortaleçam a cultura de doação com segmentos estratégicos como educadores, terapeutas e contadores”, de acordo com Pablo. 

Um elemento chave e muitas vezes crítico da gestão de tais organizações é a publicização de suas ações e projetos, de modo que as OSCs comuniquem de forma clara e sistemática o que fazem com as doações recebidas. Esta premissa da transparência faz parte dos diferenciais metodológicos, junto com outros quatro pilares.

Assim, o Causa do Bem auxilia outras instituições sociais no Empoderamento Institucional, Estímulo à Transparência Social, Clube de Incentivos Comerciais, Engajamento de Embaixadores e Intercâmbios Multiplicadores. 

Com vistas a contemplar a abrangência de temáticas e problemas sociais passíveis de enfrentamento e solidariedade, a plataforma Causas do Bem distribui atualmente seus parceiros e campanhas sociais em dez grandes causas, categorias ou eixos temáticos: Capacitação e Trabalho; Cidades e Mobilidade; Cultura e Educação; Esporte e Lazer; Gênero e Diversidade; Infância e Juventude; Meio Ambiente; Paz e Espiritualidade; Saúde e Assistência. 

O paradigma Crowdativista nas OSCs

Com o sentimento de que “o financiamento coletivo é sobre confiança”, 20 instituições sociais já firmaram parceria com o Causas do Bem até o início de 2023. No entanto, a manutenção de doadores financeiros individuais recorrentes constitui um desafio crítico para quase todas as OSCs acompanhadas. 

Os principais canais e estratégias de mobilização que já proporcionaram doações financeiras para o Causas do Bem, destacam-se cinco meios diferenciados de sensibilização: abordagens corpo a corpo; lives e webinars; cursos beneficentes; fundo de incentivo a doações; e aniversários beneficentes.

Curso Estratégias e tendências de captação de recursos para OSC (Foto: Sara Café)

Alguns eventos deste ano foram: o Curso Estratégias e tendências de captação de recursos para OSC onde a equipe técnica e docente do Hub reuniu nomes com destacada vivência e domínio para ministrar esse curso in company, que ocorreu entre os dias 11 a 13 de setembro na Associação Grupo de Apoio às Comunidades Carente (AGACC) e associações dos municípios cearense de Granja e Várzea Alegre, além de lideranças dos núcleos comunitários dos bairros Antônio Bezerra, Jardim União e João Paulo II.

“A ideia dessa formação promovida pela AGACC e Causas do Bem com as pessoas representantes das comunidades foi fomentar o pensamento, as ideias e ações que essas representações podem fazer nas suas comunidades”, afirma Magda Caldas, coordenadora de comunicação e mobilização de recursos. 

Lançamento da campanha Brownie do Bem nas barbearias. (Foto: Divulgação)

A Campanha Brownie do Bem e Barbearia do Bem consiste na venda de brownie por empreendedores de gastronomia, onde 20% do valor vendido é destinado ao Causas do Bem. Assim, comprando o Brownie do Bem, o cliente repassa um percentual para ajudar instituições mensalmente. Já as Barbearias do Bem se tornam ponto de venda solidária de brownies do bem, valorizando o trabalho das barbearias que tenham a empatia social em seus negócios e serviços. 

Tamyres de Lima Gomes, empreendedora da Bom di Tamy, acolheu com prontidão a retomada da campanha Brownie do Bem nas barbearias. “É um prazer participar dessa campanha, estou há mais de 4 anos nesse mercado gastronômico e pela primeira vez participando desse projeto de responsabilidade social.” 

Lançamento da II Rifa Semeando o Bem (Foto: Divulgação)

E a II Rifa Semeando o Bem conta mais de 30 iniciativas, empreendedores e organizações de Fortaleza doaram algum produto ou serviço para a rifa. Serão 10 sorteios com brindes diversos de cinco categorias como perfumes e cosméticos, serviço e bem-estar, artesanato e acessórios, alimentação e sobremesas, cultura e conhecimento. 

“O lançamento oficial da II Rifa ocorreu no dia 02 de dezembro celebrando o trabalho, acolhimento e visibilidade de grandes causas sociais da cidade, como também o compromisso social, ambiental e cultural de empreendedoras/es e criadoras/es que acreditam no poder transformador da doação”, completa Pablo Robles. 

Fortaleça a cultura de doação 

Mesmo no Brasil, onde ainda não há uma cultura de doação consolidada, houve um crescimento significativo de doações, segundo a pesquisa World Giving Index 2022: pelo quarto ano consecutivo, o país subiu no ranking passando de 54° para a 18° colocação dos mais generosos.

Ainda há um longo caminho a percorrer para desenvolver uma cultura de doação mais forte e solidária no Brasil. É preciso enfrentar desafios como a falta de confiança nas instituições, baixa capacidade de mobilização da população para contribuir com causas sociais e a promoção de políticas públicas e campanhas de conscientização que incentivem a cultura de doação no país.

O futuro da sociedade civil organizada passa, cada vez mais, por sua capacidade de reinventar suas estratégias de (auto)sustentação, de fortalecer proativamente sua comunicação e de criar conexões solidárias mais consistentes e plurais com seus públicos e interlocutores. 

Sara Café, é graduada em Comunicação Social/Jornalismo, especialista em assessoria de comunicação e formação em fotografia. Atua na área de inovação e impacto social através de trabalhos de jornalismo, redação e produção de conteúdo, mídias sociais, assessoria de imprensa e coberturas fotográficas. Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Laboratório de Inovação do SUS no Ceará (2021) e do Observatório de Educação Permanente em Saúde (2022), projetos da Escola de Saúde Pública do Ceará. Produz entrevistas e matérias jornalísticas especializadas para o hub de negócios TrendsCE. Voluntária e Diretora de Comunicação do Instituto Verdeluz (gestão 2019 a 2022) e membra da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência), da Rede Narrativas e integrante da Rede Linguagem Simples Brasil.

Sara faz parte da Rede Impacta Nordeste.

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