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Recife é escolhida para projeto de R$ 300 milhões que busca transformar reciclagem e combater poluição plástica no Brasil

Parceria entre Fundação Ellen MacArthur, Prefeitura do Recife, Ministério do Meio Ambiente, Clean Rivers e grandes empresas pretende desenvolver um modelo de economia circular que poderá orientar políticas públicas nacionais; investimentos devem começar em 2027.

Recife foi escolhida como cidade-piloto de uma iniciativa que pretende transformar os sistemas de coleta seletiva e reciclagem no Brasil por meio de um investimento estimado em R$ 300 milhões ao longo dos próximos anos. A parceria foi anunciada nesta terça-feira (1º) pela Fundação Ellen MacArthur, em conjunto com a Prefeitura do Recife, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Clean Rivers e empresas da Rede de Empresas da Fundação, entre elas Mars Inc., Nestlé, PepsiCo e Unilever.

A proposta é desenvolver um modelo capaz de fortalecer a coleta e a reciclagem de embalagens, reduzir a poluição plástica e gerar aprendizados que possam orientar políticas públicas nacionais e inspirar outras cidades brasileiras.

Nos próximos seis meses, a Fundação Ellen MacArthur e a Prefeitura do Recife irão elaborar um plano detalhado em conjunto com organizações locais. A expectativa é iniciar a implementação das ações em 2027.

O projeto foi anunciado durante o lançamento do relatório Fechando o Ciclo: Transformando os sistemas de resíduos urbanos e protegendo os rios do Brasil, elaborado pela Fundação Ellen MacArthur e pela Clean Rivers com contribuições de mais de 80 organizações, entre representantes do poder público, academia, empresas, cooperativas de catadores, organizações da sociedade civil e financiadores.

Recife como laboratório para uma nova economia circular

Segundo os organizadores, Recife foi escolhida porque reúne características comuns a diversas cidades brasileiras e apresenta potencial para se tornar referência nacional na estruturação de sistemas mais eficientes de coleta seletiva e reciclagem.

Com cerca de 1,6 milhão de habitantes e uma extensa rede de rios, canais e pontes, a capital pernambucana enfrenta desafios relacionados ao descarte inadequado de resíduos, mas também vem registrando avanços importantes. Em 2024, por exemplo, a cidade ampliou em 16,6% a reciclagem de plásticos, índice superior ao dobro da média nacional.

Apesar disso, apenas 1% dos domicílios possui acesso à coleta seletiva formal, evidenciando a necessidade de novos modelos de financiamento e gestão.

Para Luisa Santiago, diretora para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, o Brasil reúne condições favoráveis para acelerar a transição para uma economia circular.

“O Brasil tem os ingredientes para transformar a forma como gerencia a coleta e a reciclagem, incluindo bases políticas sólidas, vontade política e uma rede sofisticada de quase um milhão de catadores, que são o motor do sistema de reciclagem do país. A lacuna de infraestrutura é uma barreira sistêmica central para a construção de uma economia circular para embalagens, ao lado da inovação em materiais e dos sistemas de reutilização. Estamos animados para trabalhar com o Recife e começar um novo modelo de colaboração entre cidades e empresas para fechar essa lacuna, com a esperança de que cidades e formuladores de políticas públicas em todo o Brasil possam aproveitar o que aprendermos aqui.”

Modelo poderá orientar políticas públicas nacionais

A iniciativa conta com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que assinou um acordo formal com a Fundação Ellen MacArthur durante o evento de lançamento.

O objetivo é construir um modelo que possa orientar políticas públicas nacionais voltadas à gestão de resíduos sólidos, ampliando a eficiência da coleta seletiva e fortalecendo a economia circular nas cidades brasileiras até 2040.

Segundo Deborah Backus, CEO da Clean Rivers, o fortalecimento da infraestrutura de resíduos é essencial para reduzir a poluição dos rios e oceanos.

“A cada ano, milhões de toneladas de resíduos chegam aos cursos d’água e aos oceanos do planeta. O fortalecimento dos sistemas de gestão de resíduos reduz esse vazamento, protegendo os ecossistemas de água doce e as comunidades que deles dependem. Recife é o lugar certo para iniciarmos nosso trabalho, por ser uma cidade definida por sua vasta rede de cursos d’água que deságuam no Atlântico Sul. Esta parceria é única enquanto esforço multiparticipante para enfrentar o vazamento e a poluição por resíduos.”

Ela destaca ainda que os recursos filantrópicos deverão ajudar a mobilizar investimentos mais amplos para consolidar o modelo.

Empresas apoiam construção de soluções compartilhadas

Entre as empresas participantes está a Nestlé, integrante da Rede de Empresas da Fundação Ellen MacArthur.

Segundo Jean-Luc Negrier, Head de Sustentabilidade de Embalagens da empresa, o projeto permitirá desenvolver aprendizados que poderão ser replicados em outros territórios.

“Aprimorar a coleta e reciclagem de plásticos é uma das prioridades da Nestlé e nós estamos contentes em trabalhar junto com a Fundação Ellen MacArthur para desenvolver uma base comum e uma visão compartilhada para a transformação desse sistema no Brasil. Ele oferece uma oportunidade valiosa de testar e aprender a partir de um modelo local que poderia informar abordagens para a circularidade de embalagens em outras geografias.”

Benefícios para catadores e geração de empregos

O relatório lançado pela Fundação Ellen MacArthur apresenta um panorama dos desafios da gestão de resíduos no Brasil.

Embora a coleta de resíduos alcance mais de 92% da população, cerca de um quarto dos resíduos sólidos urbanos ainda recebe destinação inadequada. Como consequência, estima-se que 3,5 milhões de toneladas de plástico cheguem anualmente a bueiros, rios e outros ecossistemas.

O estudo aponta que um sistema mais eficiente poderia recuperar aproximadamente R$ 14 bilhões em materiais recicláveis atualmente enviados para aterros sanitários.

Além disso, estima-se a criação de cerca de 9.300 empregos nas cadeias de coleta, triagem e processamento de materiais, além de 64 mil novos postos de trabalho na reciclagem de plásticos até 2030.

Outro ponto destacado é o fortalecimento do trabalho dos cerca de 800 mil catadores que atuam no país. O relatório defende seu reconhecimento formal, remuneração pelos serviços prestados e maior participação na gestão dos sistemas municipais de coleta seletiva.

Recife aposta em desenvolvimento social e sustentabilidade

Para o prefeito do Recife, Victor Marques, a parceria reforça o trabalho já realizado pela cidade na gestão de resíduos sólidos e amplia seus impactos sociais.

“O Recife se destacou nos últimos anos no fortalecimento de políticas voltadas à gestão de resíduos sólidos, seja na coleta, seja na destinação, como também, e especialmente, na promoção de assistência, qualificação e apoio aos trabalhadores e trabalhadoras que atuam dentro dessa cadeia. Esse projeto em conjunto com a Fundação Ellen MacArthur vai nos ajudar a avançar ainda mais nesse caminho, não apenas na busca por uma cidade mais limpa e sustentável, mas ainda além, na dimensão humana e do desenvolvimento social. Essa é uma parceria que promete grandes frutos para a população como um todo, e principalmente para aqueles que mais precisam.”

A expectativa é que os aprendizados obtidos em Recife sirvam de referência para outras cidades brasileiras interessadas em fortalecer a economia circular, ampliar a reciclagem e reduzir a poluição dos rios e oceanos.

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