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“Sem as organizações da sociedade civil, nós teríamos vivido um colapso total”, diz filantropa cearense Bia Fiúza

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Co-fundadora do Instituto Beatriz e Laura Fiúza foi convidada para integrar o conselho do GIFE e vem atuando para sensibilizar o empresariado local para fortalecer o Investimento Social Privado na região.

Uma cearense empreendedora apaixonada por educação, por negócios de impacto socioambiental e por desenvolvimento sustentável, assim se define Bia Fiúza, uma mulher que acredita que somos corresponsáveis pelo mundo onde vivemos.

Bia é cofundadora do Instituto Beatriz e Lauro Fiuza (IBLF), organização que promove melhorias na qualidade de vida de milhares de famílias em zonas de risco de Fortaleza/CE por meio da arte e do esporte. Atualmente, atua como conselheira do IBLF e como gerente executiva da Somos Um.

Antes de se dedicar à filantropia, Bia trabalhou dez anos como fotógrafa e produtora cultural, no Brasil e no exterior. Formada em Comunicação Social pela Universidade de Fortaleza (Unifor), em Fotografia pela Université Paris 8, também é mestre em Antropologia Visual e da Mídia pela Freie Universität (Berlim).

“A fotografia foi minha porta de entrada para o mercado de trabalho e para o mundo. Quando estava fazendo meu mestrado, focado em antropologia visual, me deparei com a possibilidade de pesquisar e trabalhar para uma organização sem fins lucrativos, no interior do Ceará, que atuava com desenvolvimento territorial por meio da educação, da cultura e da arte. Ali eu vi o quanto meu trabalho poderia impactar as pessoas, unindo tudo o que tinha aprendido até aquele momento com gestão”.

O Instituto Beatriz e Lauro Fiuza atua com educação de crianças e adolescentes por meio da música e do karatê. (Foto: Arquivo IBLF)

Pouco tempo depois, Bia e sua família começaram a organizar as ações filantrópicas que já faziam e criaram o Instituto Beatriz e Lauro Fiuza, do qual foi dirigente por sete anos. “O IBLF foi meu ingresso na filantropia, de forma mais sistematizada, minha grande escola. Após profissionalizar a gestão fui para o conselho, de onde hoje sigo contribuindo para o crescimento da organização”, afirma.

O Instituto Beatriz e Lauro Fiuza atua com educação de crianças e adolescentes por meio da música e do karatê. Os programas são desenvolvidos em territórios com altos índices de vulnerabilidade, onde as opções são reduzidas para este público. Toda a ação é focada em ampliar perspectivas de futuro para os alunos e para a melhoria da qualidade de vida das suas famílias, por meio do fortalecimento de vínculos e da valorização da potência de cada indivíduo. Atualmente, o IBLF possui três núcleos de trabalho, atendendo quase 700 alunos diretamente, assim como suas famílias, por meio dos projetos de acompanhamento social.

Com uma atuação cada vez mais ativa no ecossistema de impacto social da região, Bia foi convidada recentemente para integrar o conselho do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), ajudando a levar uma perspectiva da região Nordeste para a organização. Nesta entrevista exclusiva para o Impacta Nordeste, conversamos sobre a sua dedicação à filantropia, sobre o terceiro setor, o investimento social privado e os negócios de impacto no Nordeste, e como as empresas da região podem colaborar de forma estratégica para o desenvolvimento social.

Após deixar o dia-a-dia da gestão do IBLF, ao que você tem se dedicado prioritariamente?

Eu sigo me dedicando à causa da educação, atuando no conselho do IBLF e doando para outras organizações que desenvolvem ações nesse sentido. Eu acredito que uma sociedade só se transforma, só avança, quando entende que precisamos cuidar do ser humano como um todo, e que tudo passa pela forma como trabalhamos a educação. Mente, corpo e espírito. O desenvolvimento cognitivo é importante, mas se trabalhado isoladamente, desconsiderando as outras partes que nos formam, pode deixar uma pessoa doente.

O Instituto Beatriz e Lauro Fiuza atua com educação de crianças e adolescentes por meio da música e do karatê. (Foto: Arquivo IBLF)

O excesso de valorização do conhecimento e da competitividade nos adoece como sociedade. Quando entendemos que a mente também precisa de cuidado, que o físico também expressa inteligência por meio do movimento, que nossos sentimentos, criatividade e relações interpessoais também devem ser cuidados para que tenhamos saúde e uma vida plena, e que tudo isso pode ser expresso em um modelo de educação da sociedade, aí sim estamos falando de desenvolvimento pleno.

O Instituto Beatriz e Lauro Fiuza está prestes a completar dez anos. O que essa trajetória lhe ensinou? 

Nestes quase dez anos nós aprendemos a ouvir mais e melhor. A entender que os problemas são complexos e que as soluções devem ser holísticas. Que crianças com fome não aprendem bem, e que mães são potências quando vistas e valorizadas. E que o desenvolvimento das habilidades socioemocionais devem ocupar uma parte central na formação das pessoas.

Como você vê a atuação do terceiro setor no Nordeste?

O terceiro setor tem um papel crucial no nosso país. Esta pandemia deixou isso muito claro. Sem as organizações da sociedade civil, nós teríamos vivido um colapso total, que deixaria marcas ainda mais profundas do que as que vemos hoje. A fome, o desespero e a violência teriam tomado conta dos quatro cantos deste país. Foi a capacidade de articulação, a agilidade e a capilaridade das organizações da sociedade civil que permitiram que a ajuda chegasse às pessoas mais desamparadas. E mesmo em uma situação sem pandemia, vale lembrar que nosso país apresenta graves problemas ligados à pobreza, às desigualdades sociais, ao racismo estrutural e ao machismo. Problemas que conseguimos mitigar somente com um trabalho contínuo de mudança cultural, pautado na resistência e na esperança. É o terceiro setor, articulado com o poder público e com a iniciativa privada, que pode identificar com mais eficiência os problemas e também as soluções, de dentro pra fora.

Na sua visão, qual é o papel do investimento social privado na região?

Temos problemas socioambientais complexos no Brasil. Alguns podem encontrar soluções por meio da iniciativa privada, que vem entendendo sua responsabilidade nisso tudo, mas há outros que somente as organizações de interesse público podem resolver. Isto porque elas nascem com o exclusivo propósito de solucionar problemas, sem nenhuma necessidade de atender à lógica do mercado. E é aí que a filantropia se faz tão necessária. Ao investir em causas, as fundações, institutos e empresas podem influenciar nossa sociedade de forma sistêmica. O GIFE tem tido um papel muito importante nas últimas décadas ao apresentar caminhos e promover trocas importantes para o fortalecimento da filantropia, inclusive agindo pela sua descentralização para além do eixo Rio – São Paulo. O Investimento Social Privado, pouco a pouco, passa a fazer parte do vocabulário das empresas e institutos do Nordeste, que estão deixando para trás a noção retrógrada que doar é fazer caridade, e estão começando a entender que as doações podem ter uma influência real na forma como uma sociedade se organiza. Da mesma forma, acredito que as pessoas comuns, independente das empresas onde trabalham ou que não tenham fortunas para gerir, estão entendendo que podem ter um papel importante como doadores e apoiadores de causas que lhes sejam importantes.

Como as empresas da região poderiam atuar de forma mais incisiva nessa questão?

Nos últimos anos temos visto surgir uma preocupação maior com o tema ESG (Environmental, social and corporate governance ou dados ambientais, sociais e de governança corporativa) nas empresas e no mercado financeiro, em todo o mundo. Aqui estamos falando de uma conscientização para as questões ambientais, sociais e de governança que influem na atuação de qualquer organização, principalmente na sua relação com os seus stakeholders. Não estamos falando de uma certificação, nem de uma solução mágica e simples que traz respostas prontas. ESG trata de uma forma holística de pensar as organizações, considerando seus diversos aspectos, seus impactos positivos e negativos.

Qual o papel dos negócios de impacto social no ecossistema? É possível aproximar esse tipo de negócio das empresas tradicionais?

Quando falamos de impacto, dois temas surgem de imediato: investimento social privado e negócios de impacto socioambiental. O primeiro nos fala das estratégias que uma empresa ou organização filantrópica pode ter para investir em causas relevantes, alinhada com seus valores, de modo a realmente influenciar problemas por meio de uma aplicação eficiente de recursos. O segundo diz respeito a pensar o negócio de forma que toda a operação busque solucionar um problema socioambiental. Ou seja, um negócio com fins lucrativos em que o modelo de negócio seja construído com o intuito de solucionar algo, envolvendo assim o core business da empresa. Ambos são importantes e podem inclusive atuar conjuntamente na busca de soluções.

Quais são seus planos futuros?

Após atuar vários anos exclusivamente na filantropia e terceiro setor, estou agora dando os primeiros passos no universo dos negócios e investimentos de impacto. Acredito muito no poder da iniciativa privada, principalmente dentro de uma lógica de maior consciência e responsabilidade. Acredito que o capitalismo pode ser ressignificado, e que as empresas podem ter um papel crucial na cura da nossa sociedade. Estou entrando para o time da Somos Um, organização que foca no fomento do ecossistema dos negócios de impacto positivo no Ceará, e pretendo contribuir para ampliar o acesso da população a uma educação empreendedora, e para ampliar a capacidade das empresas de repensarem seus processos para crescerem em tamanho, faturamento e impacto socioambiental positivo. Acredito que não podemos mais voltar atrás, como bem disse Muhammad Yunus (Ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006, “pai do microcrédito” e do empreendedorismo social), que não há nenhum momento melhor que agora para promovermos essas mudanças tão necessárias.

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