Em artigo de opinião, Saville Alves analisa os limites dos mutirões de limpeza e defende uma abordagem sistêmica para a gestão de resíduos, com foco na prevenção, reciclagem e valorização dos catadores.
Todos os anos, em setembro, milhões de pessoas ao redor do mundo saem às ruas, praias, rios, praças e parques para participar do World Cleanup Day, um dos maiores movimentos cívicos globais em prol do meio ambiente. É uma mobilização inspiradora. Ela reúne voluntários, empresas, governos e organizações em torno de um objetivo comum: retirar da natureza resíduos que jamais deveriam ter chegado até lá.
Mas, por trás de cada mutirão, existe uma pergunta que precisa ser feita.
Por que ainda precisamos limpar aquilo que nunca deveria ter sido descartado de forma incorreta?
Os mutirões de limpeza são fundamentais. Eles recuperam espaços públicos, despertam consciência ambiental, aproximam pessoas da causa e produzem dados valiosos sobre o tipo de resíduo que estamos gerando. No entanto, quando analisamos o cenário brasileiro, percebemos que essas ações são apenas a etapa mais visível de um problema muito mais profundo.
O desafio do Brasil não é apenas limpar. É construir um sistema capaz de impedir que os resíduos cheguem aos rios, praias e áreas verdes.
Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), o Brasil gerou aproximadamente 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023, o equivalente a cerca de 382 kg por habitante ao ano. Desse total, apenas 8,3% dos resíduos secos foram encaminhados para reciclagem, sendo que 67,2% desse volume foi recuperado por catadores autônomos, evidenciando o protagonismo desses trabalhadores na cadeia da reciclagem. Ao mesmo tempo, 41,5% dos resíduos ainda tiveram destinação inadequada, sendo encaminhados para lixões, aterros irregulares, valas, terrenos baldios e córregos urbanos, um cenário que expõe os desafios da gestão de resíduos no país.
Esses números revelam algo importante: o problema da reciclagem no Brasil não começa quando o resíduo chega à praia. Ele começa muito antes.
Começa quando uma embalagem é descartada sem separação. Quando não existe coleta seletiva. Quando uma cooperativa não possui infraestrutura adequada. Quando o município não dispõe de logística eficiente. Quando o material reciclável perde valor porque foi misturado ao lixo orgânico.
É justamente por isso que os mutirões têm um papel muito maior do que simplesmente recolher resíduos. Eles funcionam como um diagnóstico a céu aberto do nosso modelo de consumo e descarte.
Durante anos realizando operações ambientais em diferentes regiões do Brasil, aprendemos uma lição importante: nem todo resíduo encontrado em um mutirão consegue ser reciclado.
Essa é uma realidade pouco conhecida pela população.
Quando uma garrafa PET permanece dias ou semanas exposta ao sol, à chuva, ao sal da água do mar, misturada com areia, matéria orgânica ou outros contaminantes, ela perde qualidade. O mesmo acontece com papéis encharcados, embalagens engorduradas, vidros quebrados misturados a outros materiais ou plásticos contaminados.
Embora tecnicamente muitos desses materiais sejam recicláveis, na prática eles deixam de ser recicláveis porque perderam as condições necessárias para retornar ao processo industrial. O custo da recuperação torna-se maior do que o valor daquele material, transformando um potencial recurso em rejeito.
Em outras palavras: quando o reciclável chega à natureza, muitas vezes ele já perdeu a oportunidade de voltar para a economia circular.
O verdadeiro sucesso de um mutirão não está apenas na quantidade de resíduos coletados. Está na capacidade de provocar uma mudança de comportamento.
É essa visão sistêmica que precisamos fortalecer no Brasil.
A reciclagem não acontece por acaso. Ela depende de uma cadeia integrada que envolve educação ambiental, infraestrutura, logística, tecnologia, incentivos econômicos, responsabilidade compartilhada e, sobretudo, o reconhecimento do trabalho dos catadores e catadoras, protagonistas da circularidade no país.
Enquanto enxergarmos a reciclagem apenas como a última etapa do descarte, continuaremos correndo atrás do problema.
Precisamos começar muito antes: no design das embalagens, na separação correta dos resíduos, na coleta seletiva eficiente, na valorização das cooperativas e na criação de sistemas inteligentes que façam o material circular antes de virar lixo.
O World Cleanup Day nos lembra da força da mobilização coletiva. Mas ele também deve servir como um convite para refletirmos sobre aquilo que ainda não estamos fazendo.
Porque o futuro da reciclagem não será medido apenas pelas toneladas que conseguimos retirar das praias. Será medido pelas toneladas que nunca mais precisarão chegar até elas.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.