Combatendo o racismo em escolas e empresas: conheça o Projeto Ubuntu

16 de dezembro de 2019

Por Impacta Nordeste


Na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 9% da população se declarou preta e 47,1% parda. Os dois grupos juntos compõem a população negra do país e somados representam 56,1% da população. Ou seja, mais da metade do país se considera negra ou parda. 

A partir desses dados, pare e pense: quantas pessoas negras costumam frequentar os mesmos espaços que você? No seu trabalho, na sala da faculdade ou nos ambientes de lazer onde costuma ir?

Quando enxergamos esta lacuna, percebemos que debater o racismo em todos os espaços é mais do que necessário, é urgente. A luta das pessoas negras para serem ouvidas, para conquistarem uma oportunidade de trabalho é árdua e repleta de obstáculos.

Se o objetivo dos negócios de impacto social é criar iniciativas para solucionar algum tipo de problema social, porque não colocar como pauta o combate ao preconceito racial? “Nós que somos empreendedores sociais não podemos deixar de falar sobre a questão racial em nossos próprios projetos, já que a nossa missão é ajudar a resolver problemas sociais que atingem pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica Dayse Rodrigues, pedagoga e idealizadora do Projeto Ubuntu, iniciativa criada em 2016, em Recife, que busca combater o racismo nas escolas e empresas.

Em entrevista ao portal Impacta Nordeste, Dayse nos conta um pouco mais sobre o projeto, as motivações para criá-lo e como ele é desenvolvido nas instituições onde atua. Confira!

Impacta Nordeste: O que é o Projeto Ubuntu?

Dayse Rodrigues: O objetivo do Projeto Ubuntu é combater o racismo dentro das escolas e empresas. Nas escolas, trabalhamos a equidade racial por meio de atividades com os professores, funcionários, gestores, coordenadores, alunos e os pais dos alunos. Também oferecemos consultoria para ajudar a escola a inserir o diálogo sobre o combate ao racismo tanto no currículo escolar como na cultura organizacional. Já nas empresas, trabalhamos nossa consultoria junto com o RH para modificar o processo de treinamento, seleção e desigualdade racial e, assim, tornar a empresa mais inclusiva.

IN: Qual foi a sua inspiração para criar o projeto?

DR: Meus filhos. Sou mãe de três crianças negras. Meu filho mais velho, Pierre, começou a sofrer com problemas graves de identidade, e um dia, ao chegar da escola, fez um desenho de si próprio como se sua pele fosse “branca” e começou a se questionar o porquê de não ter nascido de cabelo liso e olhos claros. Eu precisei estudar para entender de que maneira o racismo foi implementado no Brasil de que forma eu poderia combater e exterminar esse mal da sociedade. Hoje, Pierre assume seu cabelo black power e aprende dia a dia a se defender e argumentar quando tentam discriminá-lo na escola.

Formação de Líderes Ubuntu com líderes de projetos sociais do Porto Social.

IN: Quais públicos vocês buscam impactar com essa iniciativa e de que maneira?

DR: Acreditamos que a educação pode mudar o mundo e a maneira como as pessoas veem o mundo. A ideia é de que todas as pessoas sejam de alguma forma impactadas pelo projeto, independente da cor, gênero e classe social, e é por isso que o Ubuntu está tanto nas escolas particulares, onde possui público majoritariamente branco, e em escolas públicas, onde temos a maioria dos estudantes negros. Nesse ambiente, não se pode ter qualquer tolerância a nenhum tipo de discriminação, principalmente o racial, que é crime.

IN: Sabemos que a sociedade impõe diversas barreiras para negros e outras minorias a terem acesso aos melhores empregos e oportunidades. Como vocês trabalham esses desafios na cabeça dos jovens atendidos pelo Projeto Ubuntu?

DR: Nosso principal desafio é fazer com que eles entendam que podem, sim, evoluir muito mais do que a sociedade os impõe, e que eles não tem culpa da sociedade ser da forma que é e que a principal arma para isso é o estudo. Sou representante no Brasil da Academia de Líderes Ubuntu, que tem sede em Portugal. O principal objetivo da instituição é trabalhar a liderança servidora com os jovens. É preciso desenvolver o espírito de liderança na nossa juventude, os fazendo enxergar que podem ir muito mais além, trabalhando sua auto confiança, autoconhecimento, empatia, resiliência e serviço.

IN: Segundo uma pesquisa do Instituto Ethos, os negros ocupam apenas 4,9% das cadeiras nos Conselhos de Administração das 500 empresas de maior faturamento do Brasil. Entre os quadros executivos, eles são 4,7%. Na gerência, apenas 6,3% dos trabalhadores são negros. A representatividade de negros e minorias no ambiente de grandes empresas é um desafio urgente. Algumas empresas estão aos poucos tentando mudar essa realidade. Você enxerga uma vontade genuína de mudar essa cultura de exclusão?

DR: Existe uma parcela significativa no país que ainda acredita no mito da democracia racial, ou seja, que na verdade o racismo não existe por aqui e todos nós convivemos em harmonia. A desigualdade salarial, por exemplo, persiste. Um homem ou mulher negra que desempenham a mesma função que um homem/mulher branca, vão receber salários diferentes. O Brasil um país ainda muito atrasado em relação a essa temática. Por aqui, existem algumas empresas que trabalham a diversidade como estratégia empresarial, como a Google, Natura, Sodexo, Santander e Boticário. Mas ainda é um número muito pequeno, principalmente por serem empresas grandes.

Para combater todo tipo de prática discriminatória, é fundamental que a empresa reveja seus valores, sua missão e regimento interno aplicados. Por exemplo, se um funcionário desvia dinheiro da organização, ele será perdoado ou será denunciado e demitido rapidamente? Pode ser que você responda “ah, neste caso é diferente, ele cometeu um crime.” Pois é, racismo também é crime, portanto, deve ser tratado da mesma forma, com demissão por justa causa e encaminhado para as autoridades.

Dayse Rodrigues

IN: Nessa perspectiva, quais são os maiores entraves para criar mais oportunidades dentro das empresas?

DR: As empresas precisam criar maneiras para se tornarem mais inclusivas, e isso pode ser feito na forma como são selecionados seus funcionários, nas oportunidades que são criadas dentro da organização: se existem convênios com faculdades e universidades, cursos de nível técnico e de idiomas para oferecer bolsas de estudos para seus funcionários. Para combater todo tipo de prática discriminatória, é fundamental que a empresa reveja seus valores, sua missão e regimento interno aplicados. Por exemplo, se um funcionário desvia dinheiro da organização, ele será perdoado ou será denunciado e demitido rapidamente? Pode ser que você responda “ah, neste caso é diferente, ele cometeu um crime.” Pois é, racismo também é crime, portanto, deve ser tratado da mesma forma, com demissão por justa causa e encaminhado para as autoridades.

IN: Você poderia compartilhar alguma história inspiradora ao longo da atuação do projeto?

DR: A minha maior inspiração para criar e continuar com o Ubuntu são meus filhos. Mas uma outra situação que me marcou bastante foi a de uma estudante que em seu primeiro contato com o projeto, ela se considerava “parda” e tinha o cabelo alisado. Quinze dias depois quando nos encontramos pela segunda vez, ela pediu a fala e disse que gostaria de mudar sua resposta em relação a sua cor e se autodeclarou negra. A partir daquele dia, deixou de colocar produtos para alisar o cabelo e começou o processo de transição capilar. Hoje ela está com belíssimas tranças! 

Além dessa estudante, existem também algumas situações que surgem do dia a dia durante conversas com outros projetos sociais, como aquelas pessoas que nunca tinham pensado sobre a questão racial e passaram a refletir sobre o tema depois de conhecerem o projeto.

Workshop de expressões racistas no cursinho Fernanda Pessoa, com estudantes do pré vestibular.

IN: Quais foram os seus maiores desafios no processo de empreender socialmente?

DR: Acredito que o maior desafio de empreender seja se tornar uma referência naquilo que você resolveu fazer, para que as pessoas acreditem no seu trabalho e invistam nele. Você precisa se dedicar e ter o seu propósito bem definido. Outro grande desafio é rentabilizar o seu negócio de impacto, tornando-o autossustentável. Não podemos depender de patrocínios e doações, temos que formatar serviços que gerem receita para o projeto.

IN: Qual mensagem você daria para outras pessoas que estão pensando em empreender no campo social?

DR: Que elas precisam se aprofundar no que é de fato desigualdade social no nosso país, pois o que vejo são muitos projetos sociais sem embasamento sobre problemas sociais. É preciso entender bem quem é o público-alvo do seu projeto social e, ao mesmo tempo, entender qual é o seu real propósito, porque você está fazendo isso, o que te move. E, por último, muita paciência, resiliência e foco em tornar o seu negócio sustentável, para que seja possível impactar cada vez mais pessoas e garantir vida longa ao seu empreendimento social.

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