O Carnaval de Salvador entrou para o Guinness com um recorde histórico de reciclagem, mas o número é apenas a ponta do iceberg; Saville Alves analisa como a capital baiana desenhou a maior operação de logística reversa do planeta unindo gestão pública, iniciativa privada e impacto social.
O Carnaval de Salvador acaba de conquistar um marco inédito: entrou para o Guinness World Record como o evento que mais recicla alumínio no planeta, com 46 toneladas sendo destinadas em apenas 4 dias. E eu faço parte deste momento.
Quando eu iniciei minha atuação no setor de reciclagem, as minhas ambições eram pequenas (contém ironia): eu queria resolver o problema do lixo, com uma solução simples e acessível.
Mas ainda assim, nem em meus melhores sonhos, eu poderia imaginar as sucessivas conquistas e encontros que essa minha jornada me proporcionaria.
“Entrar para “o livro dos recordes” é a síntese para a força que a minha cidade tem”
Entrar para “o livro dos recordes” é a síntese para a força que a minha cidade tem e a comprovação de que nós somos capazes de realizar coisas grandiosas.
Digo nós, porque somos muitos.
O recorde é fruto de um longo processo que foi iniciado há quase 20 anos pelas cooperativas e que desde 2020 vem se consolidando como uma política pública, envolvendo Prefeitura, Governo do Estado, Ministério Público do Trabalho, Ministério Público do Estado, Defensoria Pública, a Ambev como patrocinadora do carnaval e outras tantas empresas que viabilizam da ligação da água à energia.
Quando o assunto é o setor de reciclagem, ainda há espaços para que uma empreendedora como eu, e todo o meu time, possamos juntos levar o apoio técnico e dar o suporte para a estruturação do trabalho das cooperativas e catadores; e as indústrias recicladoras possam adaptar seus processos para receber a verdadeira avalanche de materiais que é este período.
O recorde de reciclagem significa que o carnaval de Salvador é o maior do mundo e que também é aquele que dispõe da melhor e maior infraestrutura de logística reversa.
Na nossa atuação, são 8 centrais de reciclagem localizadas em pontos estratégicos dentro dos circuitos, onde há distribuição de EPIs para catadores e a compra por um preço justo do material coletado. Além disso, temos investido também no aumento da coleta de plásticos, com um sistema de bonificação, que ampliou de 2% para 40% de plásticos coletados.
“E o resultado que verdadeiramente importa é um acumulado de 6 milhões de reais em renda geradas para catadores e um histórico de mais de 10 mil catadores atendidos”
E o resultado que verdadeiramente importa é um acumulado de 6 milhões de reais em renda geradas para catadores e um histórico de mais de 10 mil catadores atendidos, como Dona Geisa, Jesse ou Otávio. Pessoas que passaram a ser reconhecidas a partir de sua identidade, tom de voz e jeito de ser. Ao longo de 137 horas ininterruptas de celebrações a cada bonificação batida; corre para ajuste de infra; ou bag cheia.
São momentos que se eternizam em memórias que nenhum Guinness conseguirá expressar. Mas a gente sonha grande e já temos planos para os próximos recordes!

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.






