EcoCiclo: conheça a empresa baiana criadora do 1° absorvente biodegradável do Brasil

19 de março de 2020

Por Impacta Nordeste
Com informações do G1 Bahia


Criar um absorvente que custasse mais barato que o modelo comum, com processo de decomposição rápido e com benefícios para a saúde das mulheres: esse era o objetivo da publicitária Hellen Nzinga e mais três amigas ao criar a EcoCiclo, empresa pioneira no desenvolvimento de absorventes íntimos biodegradáveis no Brasil.

Hellen e Adriele Menezes (Engenheira Química) são naturais da Bahia. Patricia Zanella (Marketing) e Karla Godoy (Gestão financeira) são de São Paulo e Recife, respectivamente. As quatro mulheres se conheceram também em São Paulo durante participação no PróLíder, programa gratuito para formação de lideranças jovens com foco no desenvolvimento de negócios de transformação social no Brasil. 

Na segunda etapa do programa, surgiu a ideia de produzir um absorvente íntimo biodegradável. Segundo Hellen, a missão era criar um produto que impactasse cerca de um milhão de vidas. Em entrevista para o Portal G1, Hellen conta que o insight surgiu após uma simples ida ao mercado na época em que participava do programa.

“Eu estava na casa de minha mãe, na Fazenda Coutos (Salvador), e fui no mercado para comprar algo para ela. Chegando lá, encontrei uma mulher contando moeda para comprar um absorvente. Comprei o absorvente para ela, mas fiquei pensando… quem vai comprar o absorvente para ela mês que vem? Se ela tinha acesso às mesmas informações que eu tenho, sobre outros métodos, sobre o mal que aquele absorvente poderia fazer para ela e para o planeta. E, conversando com as meninas que também fazem parte do projeto, nasceu a EcoCiclo.”, explica Hellen.

O absorvente produzido pela empresa é biodegradável, vegano e hipoalergênico. A ideia das empreendedores é ter um projeto social que ofereça emprego para as mulheres na produção do produto.

O absorvente biodegradável da EcoCiclo é o primeiro do tipo no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo Hellen, “Um absorvente normal é feito de plástico, derivado do petróleo, ou seja, ele demora de 100 a 500 anos para se decompor e é tóxico, porque é um plástico, então pode causar doenças, infecções e alergias”.

“Uma pessoa que menstrua usa de 10 a 15 mil absorventes durante a vida, ou seja, são 10 a 15 mil absorventes que levam até 500 anos para se decompor. O primeiro absorvente foi criado em 1940, então o primeiro absorvente criado existe no mundo até hoje”.

Os desafios de empreender

As co-fundadoras do EcoCiclo lançaram uma campanha online de financiamento coletivo para a compra de matéria prima necessária para fabricação do absorvente, além de uma máquina específica para sua produção. O objetivo era arrecadar R$ 20 mil reais, no entanto, conseguiram R$ 8 mil. O dinheiro arrecadado teve que ser devolvido aos doadores.

A falta de apoio financeiro e de confiança de pessoas em acreditar em um projeto guiado por quatro jovens mulheres é explicado por um velho conhecido em nossa sociedade, mas que também se reflete no campo do empreendedorismo: o preconceito. 

“Empreender tem sido um desafio e tanto pela parte dos negócios com pela parte da indústria, afinal são áreas que em grande maioria são comandadas por homens. Quando chegam quatro jovens falando de negócios de igual para igual falando de mecânica, de química e indústria, às vezes assusta.”, lamenta.

Hellen e Adriele chegaram a sofrer alguns episódios de machismo durante sua procura de um profissional para construir a máquina para fabricar absorventes. Durante visita em uma tornearia mecânica, Hellen relata que os torneiros nem chegavam a se levantar de suas cadeiras para fazer o atendimento, pois, segundo Hellen, não faria sentido ter duas mulheres querendo contratar algum serviço do tipo. E quando explicavam a finalidade da máquina, os homens rapidamente negavam-se a realizar o pedido.

As empreendedoras realizaram diversas apresentações e pitches, inclusive na Universidade de Michigan, nos EUA (Foto: Arquivo Pessoal)

Outros constrangimentos aconteciam até mesmo durante sessões de monitoria com empreendedores enquanto se discutia o tipo de negócio proposto por Hellen e suas parceiras de negócio. “Já houve rodadas de mentorias com outros empreendedores onde eles simplesmente não conseguiam falar a palavra ‘menstruação’, e ficavam gaguejando e procuravam algum apelido ou outro termo para não ter que falar a palavra.”

O futuro da EcoCiclo

Apesar das dificuldades, o grupo conseguiu encontrar um espaço acolhedor onde poderiam ser livres para apresentar seu modelo de negócio com propósito social: a Vale do Dendê. 

A Vale do Dendê é uma holding social com sede na Bahia que atua no desenvolvimento do ecossistema de inovação e criatividade em Salvador, tendo como foco a diversidade. O trabalho exercido pela Vale do Dendê é tido como um dos mais importantes e respeitados para o crescimento dos negócios criativos e de impacto social na região Nordeste. Recentemente, conversamos com o um dos co-fundadores sobre a Vale do Dendê e as perspectivas para o ecossistema de negócios de imapacto social no Nordeste.

A EcoCiclo foi umas das 90 empresas participantes do programa de aceleração da Vale do Dendê, que busca ajudar novas empresas e startups que atuam na esfera da economia criativa e que estão inseridos no contexto de diversidade. 

Os próximos passos da EcoCiclo é conseguir arrecadar R$ 10 mil reais em uma nova campanha de financiamento, que será lançada no próximo dia 26 de março. Ao final da campanha, a Vale do Dendê irá dobrar o valor, e que posteriormente, serão investidos na fabricação do produto. O intuito é que os absorventes da EcoCiclo sejam produzidos por mulheres residentes do bairro Fazenda Coutos, em Salvador.

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