OpiniãoSustentabilidade

A economia circular deixou de ser apenas uma pauta ambiental. É pauta de negócios

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Em artigo de opinião, Saville Alves defende que a economia circular deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como uma estratégia de negócios baseada em eficiência, inovação e geração de valor.

Por muito tempo, a economia circular foi vista como uma tendência ou uma pauta exclusiva da sustentabilidade. Hoje, na prática, ela se tornou uma estratégia de negócios.

Ao longo da minha trajetória trabalhando com economia circular e gestão de resíduos, acompanhei uma mudança importante na forma como as empresas enxergam essa agenda. Se antes a conversa girava em torno de responsabilidade ambiental, agora ela passa por eficiência operacional, inovação, competitividade e geração de valor.

Isso acontece porque o mercado mudou. Consumidores estão mais conscientes, investidores analisam critérios socioambientais, a legislação avança e os recursos naturais se tornam cada vez mais escassos. Nesse cenário, continuar produzindo, consumindo e descartando da mesma forma deixou de fazer sentido, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico.

“A pergunta já não é mais se a economia circular fará parte da estratégia das empresas, mas como cada organização irá incorporá-la ao seu modelo de negócio.”

A economia circular propõe justamente essa mudança de lógica. Em vez de enxergar resíduos como o fim de um processo, ela os transforma em matéria-prima que cria novas oportunidades de negócio e geração de renda. É uma visão que conecta diferentes atores da cadeia e cria valor para todos.

Tenho visto esse movimento crescer de forma consistente no Brasil, reunindo um ecossistema cada vez mais forte de negócios de impacto, cooperativas, startups e empresas que entendem que sustentabilidade não é um departamento, mas parte da estratégia.

Essa transformação também passa por reconhecer a importância das cooperativas de catadores. Elas são protagonistas da economia circular brasileira e responsáveis por grande parte dos materiais que retornam à indústria. Fortalecer essas organizações é fortalecer toda a cadeia produtiva, promovendo inclusão social e maior eficiência para os negócios.

Outro aspecto que considero fundamental é a colaboração. Nenhuma empresa faz economia circular sozinha. É preciso conectar indústria, poder público, cooperativas, organizações sociais e consumidores para construir soluções capazes de gerar impacto em escala.

Essa lógica já pode ser percebida em grandes eventos, na logística reversa de embalagens, no desenvolvimento de novos produtos e na forma como empresas revisam seus processos para reduzir desperdícios e aproveitar melhor os recursos disponíveis.

Acredito que estamos vivendo uma mudança definitiva. A pergunta já não é mais se a economia circular fará parte da estratégia das empresas, mas como cada organização irá incorporá-la ao seu modelo de negócio.

Quem entender esse movimento antes não estará apenas contribuindo para um futuro mais sustentável. Estará construindo empresas mais resilientes, inovadoras e preparadas para os desafios de uma economia que exige cada vez mais responsabilidade e inteligência no uso dos recursos.

O Brasil tem todas as condições de liderar essa transformação. Temos talento, capacidade de inovação e experiências que mostram que desenvolvimento econômico e impacto positivo podem caminhar juntos. A economia circular deixou de ser uma promessa. Ela já é um dos caminhos mais concretos para construir negócios mais competitivos e um futuro mais sustentável.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para  facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.