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Ilê Aiyê: Uma jornada de orgulho negro e transformação social

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“Que bloco é esse? Eu quero saber. É o mundo negro que viemos mostrar pra você (pra você)”. Trecho da música “Que bloco é esse?”.

Na atmosfera eletrizante da festa pré-carnaval do Ilê Ayê, aguardávamos ansiosos pela revelação da Deusa do Ébano de 2024, um momento de celebração e reconhecimento em meio aos 50 anos de história do primeiro bloco afro do Brasil. Em minha estreia nesse evento marcante, buscava absorver cada instante dessa noite magnífica, imerso na rica diversidade negra de Salvador. A essência ancestral pairava no ar, envolvendo a todos em uma aura de alegria e pertencimento, que transbordava na sede do Ilê Ayê.

Naquela noite, cada batida dos tambores ecoava como um hino de empoderamento e resiliência, lembrando-nos da força e da beleza da cultura afro-brasileira. Era inspirador testemunhar como o Ilê Ayê se mantém como um farol de esperança, proporcionando um espaço de orgulho e afirmação para a comunidade negra. Suas atividades transcenderam as fronteiras do carnaval, abraçando projetos educacionais, sociais e culturais que impactam positivamente a vida de tantos baianos.
Como residente da região da Liberdade, compreendo profundamente o valor e o impacto do Ilê Ayê na luta contra o racismo e na promoção da cultura negra, não apenas em Salvador, mas em todo o Brasil. A trajetória do Ilê Ayê está entrelaçada com a resistência do povo negro, e como indivíduo negro neste mundo, é meu dever reverenciar seu legado negro.

Ilê Aiyê: Um Marco na História da Cultura Afro-Brasileira

O Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil, vai além das festividades carnavalescas. Fundado em 1974 por Antonio Carlos dos Santos Vovô, em um contexto de efervescência do movimento negro, o bloco surgiu como uma resposta à necessidade de valorização da cultura afro-brasileira. Sua proposta inovadora de ser formado exclusivamente por negros desafiou os padrões estabelecidos pela sociedade da época. O nome “Ilê Aiyê” significa “nossa casa” ou “nossa Terra” em iorubá, simbolizando a conexão do bloco com suas raízes ancestrais e a herança cultural africana.

Sede do Ilê Aiyê no bairro da Liberdade em Salvador. (Foto: )

Sediado no terreiro Ilê Axé Jitolu, no bairro da Liberdade em Salvador, Bahia, o bloco se tornou um importante ponto de celebração e fortalecimento da identidade afrodescendente. Ao longo dos anos, o Ilê Aiyê desempenhou um papel fundamental na promoção da representatividade negra e na desconstrução dos estereótipos racistas. Suas manifestações artísticas, suas músicas e seus desfiles de Carnaval são celebrações da riqueza e da diversidade da cultura afro-brasileira. A trajetória do Ilê Aiyê está intrinsecamente ligada à história do movimento negro no Brasil. Em um período marcado pelo surgimento de diversos movimentos que lutavam pela valorização da cultura negra, o bloco se destacou como um símbolo de resistência e afirmação identitária.

Mãe Hilda, figura de extrema importância na história do Ilê, atuou durante boa parte da existência do bloco como conselheira espiritual. Sua orientação e liderança contribuíram significativamente para a consolidação do Ilê Aiyê como um espaço de valorização da cultura afro-brasileira e de resistência ao racismo estrutural. Seu legado é lembrado com admiração e respeito por todos que reconhecem a importância do Ilê Aiyê na luta pela igualdade racial e na promoção da diversidade cultural.
Além de sua relevância histórica, o Ilê Aiyê continua sendo uma referência cultural e social no cenário brasileiro. Suas manifestações artísticas, suas músicas e seus desfiles de Carnaval são celebrações da riqueza e da diversidade da cultura afro-brasileira. Mais do que um bloco de carnaval, o Ilê Aiyê é um verdadeiro patrimônio cultural, cujo legado inspira gerações e reafirma a importância da preservação e valorização das tradições afro-brasileiras.

No terreiro de Mãe Hilda, não apenas rituais religiosos são celebrados, mas também são pensadas estratégias para resgatar a história ancestral e os valores da comunidade negra. Um desses eventos emblemáticos é a Noite da Beleza Negra, uma resposta direta à exclusão da mulher negra nos concursos tradicionais de beleza. O Ilê Aiyê, ao criar essa celebração, não buscava apenas reproduzir o modelo dos concursos convencionais, mas sim subvertê-lo, transformando-o em um ato de empoderamento e celebração da negritude.

Na escolha da Deusa do Ébano, que é o ponto alto da Noite da Beleza Negra, não se buscam estereótipos de beleza impostos pela sociedade, mas sim uma conexão autêntica com a identidade étnica e cultural. A força da “deusa” em envolver o público e os jurados com sua autenticidade e performance é o que realmente importa. Além disso, a consciência do pertencimento étnico-racial e seu impacto político são critérios fundamentais para a candidatura.

Deusa do Ébano: Uma Celebração da Beleza e da Identidade Negra

A festa em si é um espetáculo visual, com cortejos coreografados, trajes tradicionais e adereços deslumbrantes, além da participação do Grupo de Dança do Ilê Aiyê. Desde sua concepção em 1979, a Noite da Beleza Negra tem sido o evento mais importante para o Ilê Aiyê antes do Carnaval, destacando-se como um momento de celebração da beleza e da identidade negra, além de um ato de resistência contra os padrões eurocêntricos de beleza.

Larissa Valéria, eleita deusa do ébano 2024. (Foto:)

Em 1995, quando completou duas décadas de existência, o Ilê Aiyê iniciou um projeto educativo voltado para a valorização da cultura negra. O Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê lançou a série Caderno de Educação, uma iniciativa liderada pelo poeta e diretor do bloco Jônatas Conceição e pela pesquisadora Maria de Lourdes Siqueira. Desde então, foram produzidas e publicadas 24 edições desses cadernos, que se tornaram uma fonte valiosa de conhecimento sobre a cultura afro-brasileira e são utilizados nas escolas até os dias de hoje.

Irmãos da Batida: O Impacto Social do Ilê Aiyê

Mas o impacto social do Projeto de Extensão Pedagógica vai além do Caderno de Educação. Através desse projeto, o bloco também ampliou as ações da Band’Erê, uma iniciativa criada em 1992 para oferecer atividades extracurriculares para jovens e crianças. Além de aprender sobre a cultura negra, os participantes do projeto recebem aulas de percussão, literatura, dança, canto, coral e outros assuntos que contribuem para sua formação pessoal, social, cultural e profissional.

Desde sua concepção, o Ilê Ayê tem sido mais do que apenas um bloco de Carnaval. Sua missão é promover a preservação, valorização e expansão da cultura afro-brasileira, permitindo que a comunidade negra conheça sua história, seus ancestrais e se conecte mais profundamente consigo mesma. Além disso, o bloco investiu na criação de uma escola comunitária de Ensino Fundamental, uma escola de percussão e uma escola profissionalizante, oferecendo oportunidades de educação e capacitação para milhares de crianças, jovens e adultos de Salvador.

O Ilê Aiyê é muito mais do que apenas um bloco de Carnaval. É um movimento cultural e educacional que tem transformado vidas, empoderado comunidades e redefinido os padrões de beleza e identidade racial no Brasil. Sua influência vai além das ruas de Salvador, alcançando corações e mentes em todo o país, e seu legado continua a inspirar e capacitar as gerações futuras.

Jônatas Akillah Pereira, 29 anos, é formado em Publicidade e Propaganda na Universidade Salvador (UNIFACS) desde 2015 e graduando em Bacharelado Interdisciplinar em Artes com enfase em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem experiências profissionais como social media, marketing político e na área de cinema como editor e produtor. É um apaixonado pela tecnologia, escrita e cinema. Um eterno aprendiz sempre disposto a absorver o que o mundo e as pessoas em sua volta estão dispostos a ensinar. Busca direcionar o seu conhecimento para a luta antirracista.

Jonatas faz parte da Rede Impacta Nordeste.

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