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Katu Experiências: vivências imersivas que conectam visitantes à cultura indígena Potiguara

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O negócio de Turismo de Base Comunitária oferece vivências imersivas que conectam visitantes à herança indígena na comunidade Potiguara Catu, no Rio Grande do Norte, fortalecendo a autoestima dos moradores e impulsionando a economia local. A empresa participa do Impulsio.ne Turismo Sustentável, programa de inovação social aberta realizado pelo Instituto Bancorbrás em parceria com a Plataforma Impacta Nordeste. Conversamos com Maria Pimentel, fundadora da empresa, que compartilhou os desafios e as conquistas dessa jornada.

Localizada entre os municípios de Canguaretama e Goianinha, no Rio Grande do Norte, a Comunidade Indígena Catu, da etnia Potiguara, é um espaço de resistência dos povos originários do tronco potiguara, que residem às margens do rio Catu. A comunidade se originou, em meados do século XIX, quando três irmãos subiram as margens do Rio Catu, para fugirem do processo de catequização no antigo Aldeamento Gramació (atual município de Vila Flor). O nome da comunidade Catu, está ligado a palavra “Katu” que em tupi significa bom ou agradável.

É nesse contexto que em 2018 surge a Katu Experiências, um negócio de impacto social de Turismo de Base Comunitária (TBC), que oferece vivências projetadas para valorizar a cultura, fortalecer a autoestima dos moradores e fomentar a economia da comunidade Catu. A iniciativa foi fundada por Maria José Pimentel, indígena Potiguara do território Catu, residente da comunidade, que está localizada em uma unidade de conservação, a APA Piquiri-Una.

A vivência no território Potiguara Catu inclui pintura corporal. (Foto: Katu Experiências)

Nas experiências da Katu, os visitantes são recebidos com um café da manhã típico e seguem por passeios guiados, onde percorrem trilhas cercadas por vegetação nativa enquanto escutam histórias sobre as raízes indígenas da região. O som dos instrumentos de madeira e o ritmo contagiante do Zambê, dançado pela comunidade quilombola de Sibaúma, ecoam pela praia.

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Ao longo das trilhas, os turistas aprendem sobre a biodiversidade e a cultura local. Durante o passeio, destacam-se plantas como o pau-brasil e o cuité, usado na produção de cuias. O roteiro inclui ainda um encontro com um pajé da comunidade, que compartilha saberes ancestrais e realiza pinturas corporais, enriquecendo a vivência com um toque espiritual e cultural. Esses momentos transformam simples visitas em experiências imersivas que celebram culturas resilientes e oferecem ao turismo uma nova perspectiva.

“Nosso objetivo é transformar o turismo em um agente de mudança, promovendo o respeito e a troca mútua de saberes. Queremos que cada visitante saia daqui com uma nova perspectiva e um profundo senso de conexão com a cultura Potiguara”, destaca Maria José.

De acordo com a Secretaria Estadual de Turismo do Rio Grande do Norte, iniciativas voltadas ao turismo de base comunitária, como a Katu Experiências, têm gerado impactos positivos em comunidades indígenas, quilombolas e ostreicultoras. Com investimentos de R$ 1,2 milhão, dos quais R$ 564 mil são destinados diretamente ao Turismo de Comunidade, essas ações promovem geração de renda e capacitação.

A empresa está conquistando cada vez mais clientes e, com o crescimento, também surgem novos desafios. Para obter apoio e superar esses desafios, a Katu se inscreveu no Programa Impulsio.ne Turismo Sustentável, realizado pela Plataforma Impacta Nordeste em parceria com o Instituto Bancorbrás, e foi uma das 6 empresas selecionadas. A iniciativa oferece um programa de aceleração com acompanhamento individualizado e recursos financeiros para impulsionar negócios de impacto do Nordeste que desenvolvem soluções voltadas para os desafios do turismo sustentável, ajudando-os a crescer e ampliar seu impacto positivo. Conversamos com Maria sobre os desafios e conquistas dessa jornada.

(Impacta Nordeste) Quais são as principais atividades e experiências oferecidas pela Katu Experiências no território Potiguara Katu?

(Maria José Pimentel) Nosso roteiro cultural inclui uma variedade de atividades que destacam e valorizam as práticas locais. Entre elas, estão um café da manhã tradicional, uma trilha de cerca de 2 quilômetros (ida e volta) com banho de rio, aplicação de argila, pintura corporal, rituais de Toré e momentos de conexão com a natureza.

Visistante experimentando plantas alimentícias não convencionais. (Foto: Katu Experiências)

Um dos destaques é o atrativo Jardim da Cura, idealizado pela moradora Maria Baixinha. Lá, os visitantes podem degustar bebidas medicinais e plantas alimentícias não convencionais (PANCs), vivendo uma experiência enriquecedora. Ao mesmo tempo, buscamos garantir que essa vivência valorize as tradições dos moradores e os reconheçam como protagonistas de suas histórias e práticas culturais.

Como vocês avaliam o impacto gerado pelo negócio e como essas práticas valorizam a cultura local e promovem a troca entre visitantes e nativos? 

Um dos maiores impactos da Katu Experiências é o aumento significativo da participação dos moradores nas atividades tradicionais que compõem nossos roteiros, com destaque para o protagonismo das mulheres. Elas representam a maioria no desenvolvimento e na execução das experiências, o que não apenas gera renda, mas também incentiva uma visão empreendedora e promove sua independência financeira.

Outro resultado positivo foi a redução do impacto migratório, com menos moradores deixando a comunidade em busca de oportunidades em outras partes do Brasil. A partir do turismo, os moradores começaram a identificar novos potenciais no território, diversificando suas atividades e desenvolvendo negócios próprios. Isso fortaleceu a economia local e trouxe maior visibilidade ao território, tanto em âmbito nacional quanto internacional.

Nosso roteiro vai além da visitação turística tradicional, ele propõe uma verdadeira troca de experiências e conhecimentos entre visitantes e moradores. Essa integração valoriza as pessoas e respeita seus saberes e práticas culturais, promovendo um ambiente de aprendizado mútuo e reconhecimento.

Quais têm sido os maiores desafios enfrentados pela Katu Experiências para se estabelecer no mercado?

Um dos principais desafios para o desenvolvimento do turismo em nossa comunidade é a infraestrutura local. Atualmente, não contamos com sinalização adequada para orientar os visitantes até a região, e há necessidade de melhorias nas estradas, na iluminação pública e em outros aspectos essenciais para nosso crescimento como destino turístico.

Os roteiros da Katu Experiências incluem uma trilha guiada de cerca de 2 quilômetros (ida e volta) com banho de rio. (Foto: Katu Experiências)

Além disso, enfrentamos dificuldades para acessar o mercado, que é amplamente dominado pelo turismo de sol e praia. Nosso objetivo é mostrar que o Rio Grande do Norte possui muito mais a oferecer, destacando outros potenciais da região. No entanto, entrar nesse mercado diversificado e agregar valor ao que já é promovido no estado tem sido um desafio significativo para nós.

Quais são as perspectivas e planos futuros para a Katu Experiências, tanto no fortalecimento da atuação no território Potiguara Catu quanto na expansão do impacto positivo gerado por meio do turismo de base comunitária? 

Primeiro, queremos fortalecer ainda mais o turismo que vem sendo desenvolvido na comunidade. No futuro, queremos fazer com que outras comunidades também tenham acesso ao turismo de base comunitária e desenvolvam iniciativas em seus territórios.

Como a participação no programa de aceleração Impulsio.ne Turismo Sustentável, realizado pela Plataforma Impacta Nordeste em parceria com o Instituto Bancorbrás, está contribuindo para o desenvolvimento e consolidação da Katu Experiências no mercado de Turismo de Base Comunitária (TBC)?

Nossa participação no programa tem sido fundamental para o desenvolvimento e a consolidação da Katu Experiências no mercado de Turismo de Base Comunitária (TBC). Através das metodologias aplicadas durante o programa, conseguimos aprimorar nossos processos administrativos e comerciais, tornando nossa gestão mais eficiente e estratégica.

O programa nos proporcionou acesso a capacitações e ferramentas que fortaleceram nossa visão de negócio e também tivemos a oportunidade de ampliar nosso networking. Além disso, nos ajudou a estruturar um plano de crescimento sustentável, com foco na valorização da comunidade local e na preservação ambiental.

Sara Café, é graduada em Comunicação Social/Jornalismo, especialista em assessoria de comunicação e formação em fotografia. Atua na área de inovação e impacto social através de trabalhos de jornalismo, redação e produção de conteúdo, mídias sociais, assessoria de imprensa e coberturas fotográficas. Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Laboratório de Inovação do SUS no Ceará (2021) e do Observatório de Educação Permanente em Saúde (2022), projetos da Escola de Saúde Pública do Ceará. Produz entrevistas e matérias jornalísticas especializadas para o hub de negócios TrendsCE. Voluntária e Diretora de Comunicação do Instituto Verdeluz (gestão 2019 a 2022) e membra da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência), da Rede Narrativas e integrante da Rede Linguagem Simples Brasil.

Sara faz parte da Rede Impacta Nordeste.