Saville Alves reflete sobre os impactos da Copa do Mundo na geração de resíduos e mostra como a reciclagem pode transformar grandes eventos em oportunidades para fortalecer a economia circular, gerar renda e promover inclusão social.
A Copa do Mundo é um daqueles momentos capazes de unir milhões de pessoas em torno da mesma emoção. Momento em que torcem juntas e celebram em praças, bares, restaurantes ou até mesmo dentro de casa. Porém, junto com toda essa energia, também cresce um desafio que muitas vezes passa despercebido diante da festa: o aumento significativo na geração de resíduos.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo a divulgação do Ministério do Meio Ambiente, durante a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, estima-se que cerca de 320 toneladas de resíduos foram geradas apenas dentro dos estádios ao longo dos 64 jogos, uma média de cinco toneladas por partida. Fora das arenas, nas Fan Fests e nas áreas turísticas das doze cidades-sede, estudos apontaram para um aumento de aproximadamente 15 mil toneladas no volume de resíduos urbanos produzidos durante o evento. Esses dados mostram que grandes celebrações esportivas também trazem desafios importantes para a gestão sustentável dos resíduos.
Latas de bebidas, garrafas, copos descartáveis, embalagens de alimentos e diversos outros materiais passam a fazer parte da rotina dos dias de jogo. O que pouca gente percebe é que cada um desses itens pode seguir dois caminhos completamente diferentes. O primeiro é virar lixo e ocupar espaço em aterros sanitários. O segundo é retornar à cadeia produtiva por meio da reciclagem, gerando trabalho, renda e benefícios ambientais.
A reciclagem é uma das formas mais eficientes de transformar um momento de consumo em uma oportunidade de fortalecimento da economia circular. No Brasil, ainda reciclamos uma parcela pequena dos resíduos gerados, enquanto milhões de toneladas de materiais com potencial de reaproveitamento acabam tendo destinação inadequada. Ao mesmo tempo, quando praticamos a reciclagem justa e inclusiva, a atividade movimenta renda para milhares de trabalhadores, especialmente catadores e cooperativas, que desempenham um papel fundamental para que os materiais retornem ao ciclo produtivo.
“A Copa do Mundo pode ser muito mais do que um evento esportivo. Ela pode se transformar em um marco positivo dentro de uma grande mobilização cidadã.”
Se pensarmos em uma Copa consciente, cada pessoa pode contribuir para mudar esse cenário com atitudes simples. A primeira delas, claro, continua sendo o Bê-á-bá da reciclagem: separar corretamente os resíduos que podem voltar à cadeia produtiva dos resíduos orgânicos. Mas é possível ir além.
Quem vai assistir aos jogos em bares, praças ou eventos públicos pode fazer escolhas que geram impacto direto. Sempre que possível, optar por bebidas em lata. O alumínio é um dos materiais mais valorizados pelos catadores e possui uma cadeia de reciclagem altamente estruturada no Brasil, aumentando significativamente as chances de retorno desse material à indústria. Mas para quem prefere bebidas em vidro, vale lembrar que o material pode ser reciclado infinitamente, porém nem sempre recebe a destinação adequada. Perguntar ao bar ou restaurante como essas embalagens são descartadas ou mesmo indicarem, caso conheça, cooperativas ou locais corretos para o descarte do material, também é uma forma de incentivar a reciclagem.
Outra atitude simples é priorizar embalagens retornáveis, como as tradicionais embalagens de 600 ml, em vez das versões descartáveis, como as long necks. Levar o próprio copo é outra atitude que ajuda a reduzir resíduos durante os encontros para assistir aos jogos. E para quem prefere bebidas destiladas ou drinks, uma boa alternativa é carregar um canudo reutilizável, substituindo os modelos descartáveis. São pequenas escolhas que, somadas, fazem diferença no resultado final e ajudam a tornar a Copa mais sustentável.
Também é fundamental reconhecer e valorizar o trabalho dos catadores e das cooperativas, que fazem a economia circular acontecer na prática e desempenham um papel essencial para que os materiais retornem à cadeia produtiva. Quando separamos corretamente nossos resíduos e garantimos que eles cheguem aos canais adequados de reciclagem, estamos contribuindo para uma cadeia que gera trabalho, renda e inclusão social para milhares de famílias brasileiras.
Os resultados mostram o potencial dessa transformação. Recentemente, a SOLOS alcançou o marco de R$10 milhões em renda gerada para catadores e cooperativas em diferentes regiões do país. Da mesma forma, o Carnaval de Salvador de 2026 entrou para o Guinness World Records ao registrar a maior ação de reciclagem de latinhas de alumínio do mundo em uma festa popular, com mais de 46 toneladas coletadas.
Esses exemplos demonstram que a reciclagem vai muito além da destinação correta dos resíduos. Ela movimenta a economia, gera oportunidades e fortalece comunidades inteiras. E quando falamos do Nordeste, essa reflexão ganha ainda mais sentido. Em 2026, a Copa do Mundo e o São João dividem as atenções dos brasileiros, especialmente dos nordestinos. Duas grandes festas, marcadas por encontros, celebrações e consumo, que também podem se transformar em oportunidades para fortalecer a reciclagem e a economia circular. Que a cor verde, tão presente na nossa bandeira, também esteja presente nas nossas escolhas.
A verdade é que a Copa do Mundo pode ser muito mais do que um evento esportivo. Ela pode se transformar em um marco positivo dentro de uma grande mobilização cidadã. Assim como cada jogador tem sua função dentro de campo, cada pessoa também tem um papel importante na construção de cidades mais limpas, sustentáveis e inclusivas.
Quando uma lata é reciclada, ela deixa de ser apenas um resíduo e passa a representar economia de recursos naturais, redução das emissões de carbono e geração de renda para milhares de famílias. É a economia circular funcionando na prática.
Neste Mundial, vale lembrar que torcer pela seleção é de extrema importância, mas simultâneamente torcer por um planeta mais sustentável, é uma vitória que todas as torcidas podem conquistar juntas.

Saville Alves é Presidente da ABELORE (Associação Brasileira de Logística Reversa), Sócia e Líder de Negócios da SOLOS, startup de impacto socioambiental que atua para facilitar descarte correto das embalagens pós-consumo e tem operações de reciclagem nos maiores carnavais de rua do Brasil em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Formada pela UFBA em comunicação social, e com experiência no terceiro setor e em multinacionais, a pluralidade de percepções de Saville a levou a ser eleita, em 2022, pela Forbes uma das 20 mulheres mais inovadoras das Ag Techs. Em 2024, passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann.






