Impacta+Inovação

O desafio de transformar inovação em soluções para o dia a dia das pessoas e da sociedade

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A Wylinka desenvolve metodologias para fomentar a inovação no contexto brasileiro, conectando universidade e mercado e implementando políticas de inovação para potencializar os resultados e fortalecer os ecossistemas nacionais e regionais.

Por Ana Paula Silva.
Edição de Marcello Santo.

O termo inovação se tornou uma das palavras do século 21 e com ele várias abordagens, definições e formas de implementá-la. De forma geral, o conceito de inovação significa fazer algo novo, ou algo já existente, mas de uma maneira diferente com resultados melhorados. Muitas vezes relacionada à tecnologia, uma inovação pode estar ligada à criação ou melhoria de um serviço, produto ou processo em diversas esferas, inclusive na área social.

Há uma certa confusão entre os conceitos de invenção e inovação. Uma invenção se torna uma inovação quando, de fato, consegue ser apropriada pelas pessoas e gera valor para as empresas e/ou para a sociedade. Na prática, nem sempre uma ideia inovadora consegue reunir todos os fatores necessários para promover o impacto desejado. E é exatamente para ajudar a transformar inovações em ações práticas e em soluções para o dia a dia das pessoas que nasceu a Wylinka.

Atuando como um “Think & Do Tank”, a Wylinka tem a missão a missão de aumentar o impacto da inovação de base Científica e Tecnológica, atuando para gerar um ecossistema de inovação mais maduro, que impacte de forma efetiva o desenvolvimento social e econômico do Brasil.

A organização não governamental que nasceu em Belo Horizonte (MG) trabalha junto ao ecossistema brasileiro promovendo a inovação e o empreendedorismo científico para tornar inovações acessíveis para a sociedade. Em 2020, por meio de parcerias com o setor público e privado, a Wylinka capacitou 260 pessoas, apoiou 25 instituições de inovação, criou mais de 35 soluções de base tecnológica e mapeou 25 tecnologias.

Conversamos com a Maristela Meireles, diretora de marketing da Wylinka, para compreender melhor os desafios da inovação no país e entender como a organização busca contribuir para superar esses desafios.

Conectando a Universidade e o Mercado

Um dos temas mais debatidos nos últimos anos no meio acadêmico e empresarial é a aplicabilidade do que é produzido nas universidades brasileiras no cotidiano da sociedade e a conexão entre as inovações produzidas no setor acadêmico com as demandas da iniciativa privada. Com o meio acadêmico e cientifico sob ataque de determinados grupos políticos, esse gap tem sido explorado como motivação para redução de investimentos.

De acordo com a diretora de marketing da Wylinka, Maristela Meireles, essa disparidade é natural. “O timing, o formato de trabalho e os interesses da academia e das empresas (entre outros fatores) nem sempre estão alinhados. Por exemplo: um pesquisador que está desenvolvendo no seu mestrado ou doutorado um novo material ecológico passa por todo um tempo de qualificação para desenvolver seu projeto dentro do grupo de pesquisa. Muitas vezes, o que ele desenvolve dentro do seu tempo de bolsa ainda não atende o requisito de uma indústria ou leva um tempo maior que o mercado demanda. Mas existem formas de conciliar objetivos para que todos se beneficiem do impacto de um projeto científico feito em parceria”.

“A partir do momento que os cientistas compreendem como o seu trabalho pode se transformar em inovação dentro de uma empresa ou na parceria com uma startup, isso pode trazer direcionamentos muito estratégicos para o seu projeto e acelerar o ciclo de inovação”

A Wylinka se propõe exatamente a promover essa aproximação entre a pesquisa e produção acadêmica e o setor privado. Para isso, um dos primeiros passos é promover o diálogo, a interação e a atuação em rede. “A partir do momento que os cientistas compreendem como o seu trabalho pode se transformar em inovação dentro de uma empresa ou na parceria com uma startup, isso pode trazer direcionamentos muito estratégicos para o seu projeto e acelerar o ciclo de inovação. As empresas que buscam a solução na academia precisam, junto com os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) das instituições, desenvolver repertório para desenho de parcerias”, explica Maristela.

Construindo políticas de inovação

As políticas de inovação – sejam as políticas da instituição de ensino, bem como as políticas regionais e nacionais ou até mesmo as políticas de inovação das empresas – são muito importantes para promover essa conexão de interesses e dão parâmetro para o desenho de uma parceria entre instituições que promovem a pesquisa e a iniciativa privada e geram incentivos que estimulam a transposição de barreiras entre esses dois setores.

“As políticas de inovação compreendem um escopo muito grande de iniciativas. Elas podem ir desde leis federais, até projetos locais de incentivo. O Porto Digital é um exemplo de política de inovação. Nós acreditamos na importância de se desenvolver uma visão de ecossistema. Se o poder público vai liderar a implementação de uma política de inovação, é necessário entender os atores do seu ecossistema, suas necessidades e as relações que são estabelecidas entre eles para que as ações a serem implementadas sejam aderentes a esse contexto e às vocações e potencialidades daquele local, em termos culturais, econômicos, sociais etc”, afirma a diretora de marketing da Wylinka.

A Wylinka tem entre seus programas de formação um que é voltado para agentes públicos, o Mobiliza, que disponibiliza ferramentas e metodologias para o desenho de políticas públicas, visando o desenvolvimento ágil e inovador de soluções mais eficazes para o ecossistema. “Nesse programa apostamos no design como modelo de pensamento para a construção dessas políticas, pois ele prevê essa compreensão dos aspectos humanos e dos sistemas, além de apostar na prototipagem e experimentação como ferramentas que potencializam os resultados estratégicos e a melhor alocação de recursos em projetos”, cita Maristela.

Inovação criadoras de mercado para solucionar desafios sociais

Na visão da Wylinka a inovação e o empreendedorismo também têm um papel central no campo de soluções para os desafios sociais do Brasil. “A inovação é uma quebra de status quo para desenvolver novas formas de solucionar problemas que criamos com jeitos antigos de pensar. É o caso das inovações criadoras de mercado focadas na promoção do acesso e o desenvolvimento local ou regional. Se formos olhar para a inovação de base científica e tecnológica, ela pode ter papel central nessas transformações também, mas sabemos que elas não são o único caminho. Geralmente, elas mudam o jogo quando seus diferenciais tecnológicos ajudam a promover a escala e a viabilidade, como se elas habilitassem novas regras do jogo e gerando impacto significativo”, afirma. 

Um projeto que está sendo realizado numa parceria entre a Wylinka, a Catalize e o Instituto Sabin, o Bootcamp Catalyze, que acontece até fevereiro de 2022, se enquadra justamente nesse viés social. A iniciativa selecionou lideranças focadas em promover desenvolvimento social por meio de Inovações Criadoras de Mercado (ICM) em todo o Brasil. 

Abertura do Bootcamp Catalyse (foto: Wilynka)

As ICM são inovações que transformam produtos caros e complicados em produtos mais simples e acessíveis, permitindo assim que mais pessoas tenham acesso a soluções que podem elevar a sua qualidade de vida. Por trabalharem necessidades urgentes que o mercado ainda não consegue atender, essas inovações promovem a criação de novas cadeias de valor, o que gera um impacto em cascata, movimentando e fortalecendo toda a economia local, gerando ganhos de infraestrutura nas regiões em que está instalada e modificando de forma perene o ecossistema.

“Um ótimo exemplo é a Vivenda, que adotou um novo olhar sobre a questão da habitação: em vez de construir mais casas populares, por que não reformar? Hoje, além de conseguir oferecer as reformas nas casas das periferias – aumentando a qualidade de vida dos moradores, a Vivenda movimenta toda uma cadeia de fornecedores, como arquitetos, profissionais da construção civil e até mesmo financiamento dessas reformas. Hoje, eles são muito mais que um negócio de impacto, mas uma plataforma para que outros empreendedores gerem impacto com objetivos em comum”, afirma Maristela. 

Potencial do Nordeste

O Bootcamp Catalyze, que acontece até fevereiro de 2022, está capacitando gratuitamente líderes de 15 cidades do Brasil, muitos deles de Salvador (BA). “Ficamos muito felizes em contemplar empreendedores e lideranças de Salvador com o Bootcamp Catalyze. Falando em potencialidades não podemos deixar de citar o Porto Digital e como o parque tecnológico, localizado em Recife (PE), desenvolveu e está desenvolvendo inovações tecnológicas e formando profissionais para ajudar a suprir um apagão de talentos no Brasil e que ficou ainda mais evidente na pandemia, com a ida de muitos profissionais de tecnologia para empresas estrangeiras devido ao regime de home office”, lembra Maristela.

Para a Wylinka o Nordeste tem um enorme potencial de pesquisa e inovação, com universidades e Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) que se destacam pela qualidade como os programas que atendem cientistas da região: SBQ Acelera, da Sociedade Brasileira de Química, e o Catalisa, do Sebrae. “No começo da nossa trajetória, atendemos a Rede de Núcleos de Inovação Tecnológica do Ceará (RedeNIT-CE) e auxiliamos diversos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) com a avaliação do seu portfólio tecnológico, portfólios esses com inovações muito promissoras”, explica a diretora de marketing. 

Abertura do SBQ Acelera (foto: Wylinka)

Segundo Maristela, a área da economia criativa do Nordeste também é um destaque. A Wylinka fez no ano passado um programa junto ao Sebrae Alagoas, o Bloom Innovation Spaces (BIS) que contemplou uma série de palestras e capacitações para os empreendedores locais. “Foi uma ótima oportunidade de troca e momento para valorizar a inovação que vem também do resgate dos saberes locais, das soluções promovidas por artistas, por grupos quilombolas, entre outras lideranças do ecossistema”. 

Atuação em rede

A atuação em rede é uma premissa da metodologia aplicada pela Wylinka e está presente na visão do desenvolvimento do ecossistema e de colocar os atores para interagir entre si, colaborar e gerar resultados em conjunto. 

“O trabalho em rede é um dos pilares das ações que realizamos. Somos reconhecidos pelos nossos parceiros como um grande conector, uma instituição que ajuda a construir pontes. Isso é sinal que que esta metodologia está dando certo”, explica Maristela. 

Nos eventos e capacitações promovidos pela Wylinka sempre há espaço de fala para esses atores, nos quais são contemplados momentos de troca, de mentoria e de diálogo entre os participantes e esses apoiadores. Este olhar permeia desde os projetos de ideação como o StartupTech, até os projetos de desenvolvimento como BloomBTech. “São essas colisões criativas que são necessárias para gerar as faíscas e, futuramente, colocar os projetos rodando na rua, de forma que esses atores não dependam mais de nós para crescer”.

Inovação a serviço dos desafios do país

Para o futuro os planos da Wylinka são consolidar ainda mais a visão de trabalho em rede, de forma a promover a inovação de base científica e tecnológica como um motor efetivo de crescimento do país e de geração de impacto socioambiental. 

“Como podemos trabalhar juntos para colocar essa inovação à serviço dos principais desafios do Brasil? E ainda fazer isso entendendo que o Brasil possui vários Brasis”

“Como podemos trabalhar juntos para colocar essa inovação à serviço dos principais desafios do Brasil? E ainda fazer isso entendendo que o Brasil possui vários Brasis, que as regiões têm suas potencialidades e particularidades e que há muito ainda a ser conectado fora do eixo sul-sudeste”, prospecta Maristela. 

A instituição também pretende avançar para que mais atores da inovação e do investimento consigam encontrar formatos de diálogo e viabilização do trabalho em colaboração com a ciência e a academia brasileira.