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Tendências para o ecossistema de negócios de impacto no Nordeste em 2026

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Articulação entre atores, fortalecimento de políticas públicas, avanço de soluções climáticas, integração com as Novas Economias e uso estratégico da tecnologia estão entre as principais tendências apontadas pelos especialistas.

Nos últimos anos, o Nordeste vem se consolidando como um dos espaços mais estratégicos para o avanço dos negócios de impacto no país. Além das iniciativas públicas, as articulações construídas pelos próprios empreendedores têm desempenhado papel central nesse processo. 

Para mapear as tendências do ecossistema de negócios de impacto no Nordeste em 2026, o Impacta Nordeste ouviu empreendedores sociais e articuladores do ecossistema de impacto de diferentes estados nordestinos. O levantamento reúne leituras institucionais e experiências práticas sobre os caminhos, avanços e desafios do campo.

Alinhamento entre as políticas estaduais e a estratégia nacional

Desde o relançamento da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto), com a publicação do Decreto nº 11.646, em 2023, o Nordeste tem se destacado pela forte adesão à política pública com diversos estados da região aderindo ao Sistema Nacional de Economia de Impacto (Simpacto). Para Hérrisson Dutra, articulador interfederativo da Enimpacto na região, esse é um movimento que pode ser ainda mais fortalecido em 2026. “Atualmente, a região concentra o maior número de estados vinculados ao Simpacto, como Alagoas, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de Bahia e Paraíba em tratativas avançadas”, afirma.

Herrisson Dutra, articulador interfederativo do MDIC/Enimpacto no Nordeste.

De acordo com Hérrisson, esse avanço também é atribuído ao protagonismo da sociedade civil, que tem atuado nos comitês estaduais, promovido eventos e difundido instrumentos como o CadImpacto e o Portal Impacta Brasil, além de mobilizar parceiros estratégicos. 

Clima, compras públicas e novos mercados

Para Marcello Santo, diretor-fundador do Impacta Nordeste e cofundador do Impact Hub Recife (PE), o ecossistema regional revela um amadurecimento cauteloso, no qual avanços inegáveis convivem com desafios complexos de sustentação. A consolidação do Simpacto como estratégia para fortalecer os ecossistemas estaduais é promissora, mas ele ressalta que manter a continuidade desse trabalho exige esforço constante.

Marcello Santo, diretor-fundador da Plataforma Impacta Nordeste e cofundador do Impact Hub Recife

Quanto aos negócios de impacto, Marcello destaca o protagonismo dos setores de clima e bioeconomia, impulsionados pela busca do mercado por soluções de escala. Esse movimento se intensificou no cenário pós-COP, estimulado pela crescente demanda por iniciativas capazes de responder, de forma concreta, às urgências climáticas.

Para ele, outro campo promissor, ainda pouco explorado, é o de compras públicas. Programas de inovação aberta, como o Co.NE, da Sudene, sinalizam caminhos para conectar demandas municipais a soluções inovadoras desenvolvidas por startups, incluindo as de impacto.

Além disso, Marcello aponta a agricultura sustentável e a expansão do mercado de créditos de carbono como tendências que devem ganhar ainda mais relevância ao longo deste ano.

Inteligência Artificial como ferramenta estratégica

Na opinião de Monique Moraes, consultora de impacto e diretora da Su Causa, Mi Causa, empresa dinamizadora do ecossistema com atuação no Maranhão, a Inteligência Artificial desponta como uma tendência estratégica para os negócios de impacto em 2026, não como modismo, mas pelo seu potencial de acelerar processos e qualificar resultados. Apesar disso, ela observa que ainda são poucos os atores do setor que incorporam a tecnologia no dia a dia, especialmente em áreas críticas como medição de impacto, análise de dados, transparência e redução de custos operacionais.

Monique Moraes, diretora da Su Causa, Mi Causa.

“O grande desafio dessa tendência é garantir que a IA não fique restrita a poucos. Para que ela gere impacto real, será necessário investir em acesso, letramento digital e capacitação das pessoas que estão na ponta, especialmente empreendedores e comunidades que já operam com poucos recursos. A pergunta central passa a ser: como usar a IA sem perder o propósito e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso para quem historicamente ficou fora da tecnologia?”, questiona Monique.

Novas economias

Para Michelle Ribeiro, cofundadora do Impact Hub Fortaleza (CE), a ampliação do olhar sobre o ecossistema de impacto no Nordeste vai além de uma leitura restrita aos negócios de impacto e passa a integrar, de forma mais articulada, as agendas das Novas Economias — como a criativa, solidária, circular, verde e regenerativa. “Essa ampliação não dilui o conceito de impacto; ao contrário, amplia seu alcance e sua capacidade de convergência”, avalia.

Michelle Ribeiro, cofundadora do Impact Hub Fortaleza.

Dentro desse tema, Marcello Santo chama atenção para a Estratégia Nacional de Economia Circular, instituída pelo Decreto nº 12.082, de junho de 2024. Para ele, o marco federal pode fortalecer e ampliar o espaço para novos modelos de negócios voltados à regeneração de recursos, indicando uma tendência de consolidação da economia circular como eixo relevante da agenda de desenvolvimento do país.

Fortalecimento coletivo

O fortalecimento coletivo continua sendo uma das principais tendências do ecossistema de impacto no Nordeste. Para Ana Sandes, presidente da Associação Nacional dos Negócios de Impacto Socioambiental (ANNIS), sediada em Alagoas, a consolidação do setor passa pela articulação entre diferentes atores. Na sua avaliação, iniciativas isoladas têm alcance limitado quando o objetivo é promover mudanças estruturais. “Negócio de impacto isolado é resistência silenciosa, e resistência silenciosa não muda sistema”, resume.

Ana Sandes, presidente da Associação Nacional dos Negócios de Impacto Socioambiental (ANNIS)

Essa leitura também se conecta ao avanço das estruturas de apoio na região. Segundo Marcello Santo, a expansão de organizações como o Impact Hub tem sido importante para fortalecer a articulação regional. A chegada de novas operações em cidades como Recife, Fortaleza e João Pessoa contribui para a criação de infraestrutura que favorece a cooperação entre negócios e projetos de impacto, além de estimular parcerias e ações conjuntas, reforçando o caráter coletivo do ecossistema.

Agenda local integrada e transversal 

Mayara Costa, especialista de negócios de impacto social, apresenta um panorama local ao destacar a importância da estruturação de uma agenda integrada e transversal para o ecossistema de impacto em cada território. Na Paraíba, esse avanço já se reflete em estruturas consolidadas de apoio, como o Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI). Segundo ela, “o impacto passou a ser tratado como uma agenda transversal e não mais acessória. O estado já reúne empreendimentos consolidados e em expansão, superando a fase de sensibilização e avançando para um estágio de atuação integrada entre diferentes atores, com foco no desenvolvimento estruturado dessa agenda na Paraíba”.

Mayara Costa, especialista de negócios de impacto social.

Ela conta que esse movimento se materializará nas ações previstas para 2026. O PTHI lançará quatro editais ainda no primeiro semestre, incluindo uma nova chamada para incubação de negócios de impacto. Também estão previstos dois editais de fomento no âmbito do programa Conectando Startups, um voltado à Segurança Alimentar e Nutricional e outro às áreas de Saúde Digital e Bioeconomia, com apoio financeiro de até R$ 250 mil. Além disso, será lançado o Programa de Âncoras, voltado à cooperação com organizações capazes de impulsionar densidade tecnológica, impacto social e desenvolvimento territorial integrado.

O relato de Mayara, a partir de sua atuação no ecossistema da Paraíba e no PTHI, evidencia como a organização de editais, programas de incubação, mecanismos de fomento e ações de articulação têm traduzido agendas nacionais em respostas mais conectadas às demandas concretas do Nordeste, em sintonia com o protagonismo local destacado por Hérrisson Dutra. Ao fortalecer capacidades, articular diferentes atores e criar ambientes favoráveis à inovação, essas iniciativas desempenham um papel central na consolidação do ecossistema de impacto, aproximando organização, planejamento e execução de forma mais consistente.

Assim, as tendências apresentadas pelos especialistas apontam que a convergência entre políticas públicas, iniciativas institucionais, atuação coletiva e inovação é essencial para criar bases sólidas para o amadurecimento do ecossistema de impacto na região, ampliando sua capacidade de responder aos desafios sociais, ambientais e econômicos ao longo de 2026.

Amanda Queiroga, 27 anos, é Engenheira Ambiental, professora, empreendedora sustentável e consultora Lixo Zero pelo Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB). Também atua como consultora em sustentabilidade para PMEs e da palestras sobre esse tema. Acredita que escolhas conscientes podem mudar o mundo, por isso tem como propósito levar a educação ambiental para as pessoas e transformar as empresas de dentro pra fora.

Amanda faz parte da Rede Impacta Nordeste de Jovens Lideranças