Opinião

A vida como ela está

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Nordestino como eu, Nelson Rodrigues eternizou sua visão, sem adornos e churumelas, sobre as relações sociais, através do retrato corriqueiro do cotidiano das pessoas na sua coluna “A vida como ela é”. Suas crônicas são sucesso até hoje e foram até eternizadas em uma série de televisão. Contra parafraseando este gênio, eu, mulher empreendedora, vejo a vida como ela está. Sem fatalismos ou rigidez, acredito na transformação e no processo de transição social que possibilita que sejamos novos e que as circunstâncias ganhem outros (e espero que melhores) significados com o passar do tempo.

A noção de certo e errado, que há milhares de anos a filosofia questiona, se revela nas sutilezas e nas abissalidades, através do léxico, da cultura, do conhecimento, da percepção de valor e, nesta sociedade onde o capital impera, do consumo. Quem empreende como eu, ocupa cargos de liderança em organizações sociais, empresas privadas, movimentos políticos ou simplesmente em nossas casas (ou seja, todos nós)  é corresponsável pela vida como ela está. E também como ela será. Não, eu não estou culpando cada um pelas desigualdades, mazelas, doenças e todos os males do mundo. Também não estou vangloriando pelas nossas belezas e conquistas. Cada um ocupa uma posição social de poder respectivamente proporcional a sua responsabilidade. É aquela história de Sartre “O homem é o lobo do próprio homem”.

Quando falamos que os negócios de impacto precisam crescer, ser fortes e adentrar a sociedade de maneira intensa é justamente para que tenhamos grandes responsabilidades e possamos gerar impacto relevante. Especialmente se esse poder for diluído em centenas de milhares de negócios, que enfraqueçam a lógica de grandes conglomerados, que acabam sendo menos diversos e mais hostis.

Neste período pandêmico, se você está tão desacreditado quanto Nelson, faço um convite para que acesse o mapa de negócios sociais, da Pipe social, ou o banco de tecnologias sociais, da Fundação do Banco do Brasil e conheça os perfis dos negócios e as magias que eles estão gerando para de alguma forma segurar a barra – das desigualdades, desinformação, da fome e ausência de políticas públicas que chegue a todos. E se você já conhece alguém que está realizando coisas incríveis e fazendo a vida como ela deveria ser, convide para se inscrever no Prêmio Empreendedor Social, da Folha de São Paulo. Incentive!

Os negócios sociais / de impacto não vão mudar o mundo. Mas eles nos colocam em contato com experiências transformadoras, que abrem as portas da percepção (parafraseando Aldous Huxley) e nos permitem mudar nossas atitudes e construir caminhos alternativos ao que está posto. Romper com as estruturas requer transição. E acredito que os empreendedores de impacto conduzem novos movimentos.

Saville Alves. “Sou uma liderança feminina na sustentabilidade”. Depois de trabalhar na Braskem e Oi, encontrou no empreendedorismo social, que já acompanhava desde a época como liderança do Movimento Empresa Júnior, sua paixão. Hoje é sócia e cofundadora da SOLOS, negócio de impacto que tem transformado a cadeia das embalagens pós-consumo. É membro do Grupo de Pesquisa Gestão para Baixo Carbono da Escola da Administração da UFBA, e integrante da Câmara de Inovação para Sustentabilidade de Salvador. Formada em Comunicação Social, pela UFBA, é uma baiana arretada. LinkedIn | Email

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