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GSG Summit 2021 reuniu líderes mundiais para discutir impacto social

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Maior evento global de investimentos e negócios de impacto social reuniu mais de 200 especialista para debater soluções para as pessoas e o planeta.

O GSG Summit 2021, maior evento global de investimentos e negócios de impacto, reuniu lideres do mundo empresarial, financeiro, governamental e acadêmico, para debater os caminhos para uma economia mais sustentável para as pessoas e o planeta. Entre os dias 6 e 8 de outubro, mais de 200 especialista e 1500 participantes de 75 países (15 a mais do que a edição de 20202), se reuniram de forma virtual para buscar soluções para 4 temas: a mobilização de capital para impacto, impacto nas economias emergentes, soluções ecológicas e sociais para uma transição justa e transparência para impacto.

O evento que está em sua 7ª edição, conta com grande participação de gestores de fundos que investem em impacto social de diferentes formas em diversos locais do planeta. A partir de termos muito utilizados ao longo do evento como “stakeholder capitalism” (ou capitalismo de “stakeholder”, onde os interesses de toda a sociedade e não apenas dos acionistas, devem ser levados em consideração), pode-se dizer que são investidores que representam uma parcela do mercado financeiro que entendem ser importante adotar novas práticas de investimento, ambientalmente e socialmente mais responsáveis.

O evento contou também com personalidades de governos e instituições, assim como gestores de organizações sociais globais e empreendedores de negócios de impacto. Nomes como Douglas Peterson, Presidente e CEO da S&P Global, Gonzalo Gortázar, CEO da CaixaBank (espanha), Hiro Mizuno, enviado especial do Secretaria-Geral da ONU para Finanças Inovadoras e Investimentos Sustentáveis, se juntaram a personalidades políticas relevantes como Julia Gillard, ex-primeira Ministra da Austrália, Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambienta e ex-candidata a presidência do Brasil, em dezenas de debates, painéis e palestras ao longo dos 3 dias.

Leia também: GSG Summit 2020 – Confira como foi o maior evento de investimentos de impacto do mundo

A convite da Aliança Pelo Impacto por meio do ICE, o Impacta Nordeste foi conferir o que rolou no evento e trazemos para vocês em primeira mão alguns dos principais tópicos abordados.

Dia 1: O crescimento do movimento de impacto

O evento foi inaugurado por Cliff Prior, CEO do GSG. Em sua fala de abertura, Cliff falou sobre o futuro. Como construir um movimento de impacto com transparência real e integridade e como podemos inspirar e fortalecer esse movimento?

Hoje, o GSG conta com uma rede com representação em 33 países. Segundo o CEO do GSG, o movimento de impacto cresceu a partir de trabalhos pioneiros de grande importância nas mais difíceis regiões, visando o impacto em escala, com gestores de fundo criando investimentos orientados para o impacto positivo ao redor do mundo.

Cliff também destacou a importância de ferramentas de mensuração em todos os investimentos, mostrando os impactos positivos e negativos dos fundos de investimentos e seus programas, usando a transparência para promover mudanças em todo o sistema financeiro.

Cliff Prior, CEO do GSG. (foto: Divulgação/GSG)

Apesar dos avanços, Cliff também destacou novas realidades muito preocupantes, como o aprofundamento das desigualdades resultantes da pandemia, a falta de financiamento para os ODS, que estão muito aquém do que precisamos e, como os cientistas apontam, nós precisamos atingir o NetZero antes do que esperado.

O lado positivo para Cliff, são as novas oportunidades de investimentos para demandas sociais como os greenbonds (títulos verdes), os investimentos ESG, o Impact Venture Capital apoiando saltos tecnológicos e a colaboração com governos e reguladores.

Finalizou sua fala anunciando anunciando novas estratégias para o GSG, como a meta de alcançar 2/3 da população global nos próximos anos, com conselhos de investimento de impacto em mais países, incluindo todos os principais centros financeiros do mundo.

“O que nos falta é o compromisso ético”

A ex-ministra do meio ambiente do Brasil, Marina Silva, realizou uma fala destacando a crise civilizatória que o mundo enfrenta e apontou alguns caminhos para superarmos os desafios sociais e ambientais. Para Marina, a pandemia gerou uma crise humanitária e a nossa resposta tem sido desigual e ineficiente. Mais de 800 milhões de pessoas não sabem o que vão comer hoje em todo o mundo.

Marina Silva discursa do GSG Summit 2021.

A crise climática é inquestionável e o desafio de resolver esse problema é gigantesco. Marina destacou a necessidade de implantar politicas para mudar o modelo de desenvolvimento. Propôs soluções para a Amazônia, e sugeriu implantar um programa para aproveitar as riquezas mantendo a floresta em pé.

“O maior problema da humanidade não é falta de técnica. Não nos falta técnica para acabar com a fome. O que nos falta é o compromisso ético”.

Marina Silva

Ela nomeou o plano de “Amazônia 4.0”, centrado na criação de uma bioeconomia a partir de um sistema agroflorestal e agrosustentável aproveitando a tecnologia e os saberes ancestrais. Esse plano inclui avaliar as ações por meio do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, criado pela ONU); desenvolver Iniciativas que buscam viabilizar recursos humanos, técnicos e financeiros; e fortalecer e financiar modelo de negócios inclusivos.

Para Marina Silva, a implantação de um novo modelo de desenvolvimento requer compromisso politico, ético e financeiro. Ela finalizou enfatizando: “O maior problema da humanidade não é falta de técnica. Não nos falta técnica para acabar com a fome. O que nos falta é o compromisso ético”.

Dia 2: Reimaginando o capitalismo

No segundo dia do evento, o Fórum 3.2 tratou do tema: “Como produtos de Blended Finance podem solucionar problemas sociais e ambientais em escala?”. Blended finance ou financiamento misto é a mescla de fontes de recursos usadas no financiamento de negócios de impacto social.

Nesse formato de investimento, os aportes podem combinar dinheiro de filantropia, dinheiro público e recursos privados de investidores. A ideia é que a filantropia ou o dinheiro público funcionem como um colchão de garantias para absorver as primeiras perdas de determinado projeto ou negócio, dando mais segurança e reduzindo os riscos para o investidor. Com isso, existe a possibilidade de se alavancar mais recursos. No brasil, a Vivenda é um bom exemplo de negócio de impacto que utilizou o blended finance para captar investimentos.

Participaram desse momento, nomes como John Balbach, Diretor de investimentos de impacto da Fundação MacArthur, Maya Ziswiler, CEO na Fundação UBS Optimus, entre outros. Os panelistas debateram quais produtos de blended finance proporcionaram impacto imediato, em escala, nos últimos 12 meses e como o setor privado estão pensando em aumentar o nível de recursos nesse modelo.

“A atual forma de capitalismo está fundamentalmente quebrada”

O fórum 4.2, “Reimaginando o capitalismo: como podemos criar um sistema econômico mais justo?”, se propôs a debater alguns dos desafios estruturantes no coração do sistema econômico atual. Esse painel contou com a participação de Sharan Burrow, Secretária Geral da Confederação Internacional de Sindicatos, Felicia Wong, Presidente e CEO do Instituto Roosevelt, Christopher Jurgens, Diretor da Omidyar Network, Halla Tómasdóttir, CEO e Chefe de Transformação do Time B e Grieve Chelwa, Diretor de Pesquisa na The New School.

O debate iniciou da conclusão que o sistema capitalista, da forma que é hoje, está quebrado (ou com defeito). Os debatedores refletiram como podemos, coletivamente, criar uma nova economia mais inclusiva. Um mercado que possa servir aos interesses de todos e do planeta, com nova politicas, regras e incentivos para mudanças sistêmicas fundamentais.

Sharan Burrows destacou a necessidade de refazer o contrato social e enfatizou a importância de uma economia focada em criar empregos e oportunidades. Por sua vez, Halla citou o exemplo do que ela chama de “capitalismo com cuidado” (ou “care capitalism”) dos países nórdicos. Os países dessa região da Europa possuem os melhores índices de desenvolvimento e segurança sociais do mundo. Segundo Hall, com a polarização politica dos últimos anos, há uma ideia errada que esses países são socialistas, quando na verdade, todos que moram lá sabem que vivem sob um regime capitalista, mas com “múltiplos stakeholders”.

“Precisamos de uma economia para as pessoas e para o planeta”

Halla Tómasdóttir, CEO e Chefe de Transformação do Time B

Halla também destacou empresas que estão rompendo padrões, com uma atuação onde “há um compromisso com a vida”, citando a Natura como exemplo. Para ela, todos os negócios precisarão ser assim. “Precisamos de uma economia para as pessoas e para o planeta”, finalizou.

Já Grieve Chelwa, pontuou a predominância de atuação das multinacionais na África sem contrapartidas para a sociedade. Enfatizou o papel de institutos e instituições para pressionar por regulações e lutar para “distribuir” os ganhos. Grieve colocou como desafio o fortalecimento da sociedade civil no continente africano, mais enfraquecida em comparação com o norte global, e que não consegue pressionar por um capitalismo mais humano.

Felicia Wong arrematou a conversa destacando a necessidade de um “campo de jogo” mais justo e equilibrado entre o poder econômico e a sociedade em geral. Ela destacou que para equilibrar esse jogo precisamos da participação dos governos.

Oportunidades de investimentos na América Latina

A América Latina marcou presença no evento. A sessão “Oportunidades de investimento de impacto na América Latina” reuniu nomes da região para debater oportunidades para investidores. A mesa contou com nomes como Marta Cruz, Co-fundadora e Sócia na NXTP Ventures, Filipe Borsato, do BNDES, Miguel Cortes, CEO do Grupo Bolivar, entre outros.

Marta Cruz destacou o crescimento no número de negócios com propósito. Pontuou que a geração “millennial” quer empreender não somente para obter lucro mas para impactar positivamente as pessoas. Mencionou o exemplo da empresa Chilena Kilimo.

Felipe Borsato, representante do BNDES, destacou os investimentos do banco de fomento brasileiro, incluindo produtos voltados para o desenvolvimento sustentável, como green bonds e adiantou os planos do banco para lançar produtos de blended finance. Segundo Felipe, o banco quer direcionar investimentos de 100 mi em fundos de impacto. Mencionou o programa Garagem BNDES, que recebeu 1500 inscrições, o que indica o interesse de novos empreendedores em empreender com impacto. Mencionou também o trabalho da ENIMPACTO (estratégia nacional de investimento e negócios de impacto) no incentivo ao setor.

Borsato finalizou sua fala com um alerta. Destacou a importância dos dados para avaliação de impacto e prevenir o “green washing”, assim como para facilitar novas possibilidades de investimento, conectando as necessidades dos empreendedores e os desejos dos investidores.

Dados para mudar as lentes dos investimentos

O fórum 5.1, “Mensurando e administrando impacto para alcançar os ODS”, desenhado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento), explorou o papel dos Padrões de Impacto para Finanças Sustentáveis desenvolvidos pela OECD-UNDP, para promover o desenvolvimento de um sistema de transparência e accountability (responsabilização). A mesa debateu os desafios da mensuração de administração de impacto em países em desenvolvimento e o papel de diferentes atores em superar esses desafios.

Neil Gregory, da International Finance Corporation, destacou a importância do uso de dados para mudar as lentes dos investimentos. A expressão “mudar as lentes” foi muito usada durante o evento, no sentido de mudar o olhar do investidor na hora de investir. Neil também destacou a transparência como fundamental no processo de investimento de impacto.

Haje Schutte, Conselheiro Chefe de Finanças da OCDE, fez uma reflexão sobre a importância de criar padrões e como eles ajudam no processo de mensurar impacto. Fala corroborada por Maria Zappia, Chefe de Impacto e Blended Finance da BlueOrchard Finance. Segundo a executiva, os padrões trazem clareza para realizar os investimentos.

Stéphanie Émond, Chefe de Impacto da FinDev Canada, destacou que sem metas e caminhos claros, há um risco de “green washing”. Para Stéphanie, é necessário que os investidores se comprometam com uma estrutura de trabalho e ferramentas comum a todos.

O que queremos para o setor em 10 anos?

Na reta final do evento, o fórum 6.1 debateu “O que queremos que o setor seja em 10 anos?”. O painel contou com a participação de Cliff Prior, CEO do GSG, que começou a conversa destacando a evolução do “movimento do impacto”, começando com poucos investidores dedicados a financiar negócios de impacto para resolver desafios sociais, até o engajamento de gestores de grande fundos de investimento e desenvolvimento. Segundo Cliff, o crescimento do movimento está levando cada vez mais gestores a mensurarem o impacto de todos os seus investimentos e os resultados das empresas.

Amma Lartey, CEO da Impact Investing Ghana, trouxe uma perspectiva africana dos investimentos de impacto, salientando a importância da colaboração e sugerindo o aprofundamento radical de ações colaborativas.

O evento foi finalizado com um discurso de Cliff Prior, destacando os avanços do movimento liderado pelo GSG, em especial a implantação da força tarefa do G7, por sugestão do Reino Unido, no formato proposto em articulação com as lideranças presentes no GSG. Cliff também salientou avanços na agenda de impacto nos EUA, África e Ásia. Outro exemplo citado foi Israel, onde todas empresas públicas (com ações na bolsa) precisam divulgar um relatório ESG. Finalizou destacando a criação do Conselho de Sustentabilidade do FMI, ação que vai ajudar a criar padrões de sustentabilidade para investidores no mundo todo.

Agradecemos à Aliança Pelo Impacto, o ICE e a organização do GSG pelo convite.

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