Impacto social a partir da cadeia produtiva agroecológica: Uma oportunidade para o Nordeste

14 de fevereiro de 2020

Por Impacta Nordeste


O brasileiro está cada vez mais alerta na hora de ir às compras. Em meio a diversas notícias sobre uso de agrotóxicos e conservantes nos alimentos e os perigos que trazem a nossa saúde, não é difícil se deparar com alguém em um corredor do supermercado lendo o rótulo de um produto cuidadosamente para saber mais detalhes daquilo que posteriormente chegará à sua mesa.

Não é só o preço “mais barato” que vai garantir que determinado produto seja o escolhido. Muitas pessoas preferem até pagar um pouco mais caro no alimento se sua composição, valor nutricional e até a forma de produção sejam mais sustentáveis. 

Em estudo recente divulgado pela Nielsen, empresa global especializada em pesquisas de mercado, em 2019, 42% dos brasileiros entrevistados afirmam que estão mudando seus hábitos de consumos para diminuir o impacto causado ao meio ambiente. Logo, os alimentos orgânicos vem ganhando cada vez mais espaço na casa dos brasileiros. 

Através de técnicas desenvolvidas na agricultura familiar, os alimentos são produzidos sem adição de agrotóxicos e com valor nutricional potencializado. Atualmente, 85% dos alimentos orgânicos produzidos no Brasil provém de pequenos produtores locais.

O apoio de empresas e cooperativas para que os agricultores possam desempenhar suas atividades e conquistar sua fonte de renda são fundamentais. Para se ter uma ideia da importância da agricultura familiar no Brasil para nossa economia, atualmente é a principal atividade econômica praticada em 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. Já 40% da população economicamente ativa no país tem a agricultura familiar como principal fonte de renda.

Apesar disso, os alimentos orgânicos ainda não são tão acessíveis a grande parte da população. Para mudar essa realidade, é preciso estimular a produção agroecológica no Brasil. O apoio às políticas públicas criadas para tais atividades, principalmente aquelas que estimulem incentivos fiscais para produção em pequena escala e bonificações pelo uso sustentável da terra. Outro ponto que merece ser discutido é a liberação de crédito para que o produtor consiga aprimorar suas técnicas de cultivo.

Além das politicas públicas para o setor, diversas organizações estão estimulando as cadeias produtivas agroecológicas para que possam agregar valor aos produtos. Muitos produtores estão adotando o formato de negócios de impacto social e/ou cooperativas. Assim, conseguem aumentar sua renda e ampliar o impacto social desses negócios, já que o lucro com a produção é distribuída entre os participantes de maneira mais justa.

A região Nordeste é bastante propícia para a atividade agroecológica graças ao seu clima e solo fértil que permite o plantio de diversos alimentos. São diversos exemplos de iniciativas que ganharam destaque em todo o Brasil não só pelo caráter sustentável, como também pelo papel social de transformar a realidade de dezenas de famílias.

Cultivo de cacau orgânico – Assentamento Dois Riachões (BA)

Em 2018, 1.900 toneladas de cacau orgânico foram cultivados no Brasil; parte dela oriunda das fazendas pertencentes ao Assentamento Dois Riachões, localizado em Ibirapitanga, interior da Bahia. A comunidade conta com o apoio do projeto Circuitos Arqueológicos, coordenada pela Tabôa – Fortalecimento Comunitário, e aporte financeiro do Instituto Arapyaú.

Produtores avaliam o cacau orgânico em fazenda na Bahia. (Foto: Morgann Jezequel/AFP)

Em 2016, o Assentamento Dois Riachões recebeu sua primeira certificação concedida pelo Ministério da Agricultura, para que os produtores pudessem comercializar seus produtos em feiras ecológicas na Bahia. O reconhecimento também permitiu que os agricultores participassem de capacitações para melhorar seus métodos de produção, como o plantio de árvores mais resistentes, e a instalação de uma estufa para secagem dos grãos de cacau que serão comercializados. 

Hoje, 25 famílias habitam o assentamento, cada uma é responsável por quatro hectares de árvores de cacau, além de participarem da horta comunitária. Além do cacau, frutas e verduras são cultivados por lá sem adição de fertilizantes ou agrotóxicos. 

A produção de cacau acontece por lá desde 2001, quando os agricultores, todos nativos da região, se estabeleceram em uma região próxima a Dois Riachões em instalações precárias. Seis anos depois, após uma desapropriação judicial do terreno, os produtores resolveram se instalar em uma parte da terra (a fazenda conta com 400 hectares de extensão e pertencia a uma grande família de produtores de cacau) para cultivar os seus produtos, utilizando métodos orgânicos e sistema agroflorestal para o plantio de cacau.

Após alguns anos de batalha judicial, a Justiça concedeu a posse da propriedade para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que autorizou a permanência dos produtores na região. 

Os agricultores participaram de um programa público de apoio à comercialização de produtos cultivados na agricultura familiar. Atualmente, parte da produção é vendida para grandes empresas de chocolate brasileiras, como a Amma Chocolate, que, à pedido da própria empresa, em 2018, a fazenda solicitou o selo Ecocert, líder mundial nas certificações de produtos orgânicos. 

O próximo passo é a criação de sua própria fábrica de chocolate, que será financiada de forma colaborativa.

Produção sustentável de polpa de fruta congelada – Delícias do Jacuípe (BA) 

Outra iniciativa agroecológica em atividade na Bahia é a fábrica Delícias do Jacuípe, que, dentre outras coisas, promove o desenvolvimento rural sustentável e preservação da caatinga através da produção de polpa de umbu congelada, fruta típica da região.

Polpa congelada produzidas com frutas da Caatinga (Foto: Luiz Fernando Ricci)

Em atividade desde setembro de 2016, a fábrica comunitária foi fundada e é gerida por mulheres membros da Cooperativa Ser do Sertão, fundada em 2008. A ideia surgiu através de mulheres agricultoras locais que estavam em busca de alternativas para o fruto do umbuzeiro, árvore típica da caatinga, presente em diversas propriedades da região.

“Tinha umbu desperdiçado no campo, não tinha valor comercial na região. Foi então que as mulheres se deram conta de que a fruta poderia ser aproveitada. A gente dizia ‘que era bom’, então a população resolveu fazer alguma coisa com ele”, diz a agricultora Nereide Segala, uma das conselheiras da Cooperativa Ser do Sertão.

O objetivo é criar oportunidades para melhorar a vida dos moradores do sertão através da agricultura familiar, subvertendo o conceito “indústria da seca”. Ou seja, com o trabalho desenvolvido pela cooperativa, o produtor rural é incentivado a continuar produzindo na região. O município de Pintadas (BA) e mais outros 13 municípios situados na Bacia do Rio Jacuípe são assistidos pela cooperativa.

O apoio de organizações públicas e privadas foram essenciais para que a cooperativa conseguisse o investimento necessário para abrir a fábrica. Em 2015, a parceria entre diferentes organizações da sociedade civil, como a WRI Brasil e a Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH), viabilizaram a regularização da indústria comunitária de produção de polpa de frutas Delícias do Jacuípe.

A fábrica também produz polpas de maracujá-caatinga, goiaba, manga, acerola, cupuaçu e seriguela, todas frutas nativas da região.

Capacitação de agricultores familiares no cultivo de alimentos orgânicos – Muda Meu Mundo (CE)

No Ceará, a empresa de impacto socioambiental Muda Meu Mundo, fundada pela pedagoga Priscilla Veras, ajuda na capacitação de agricultores familiares no cultivo e na comercialização de alimentos orgânicos a preço justo.

Priscilla Veras, criadora da Muda Meu Mundo (Foto: Projeto Draft)

A ideia de criar seu próprio negócio surgiu após Priscilla se tornar mãe. Preocupada em oferecer alimento saudável e orgânico para seu filho, ela se aprofundou no tema e, a partir disso, percebeu as diferenças entre o que sua família consumia e as famílias dos agricultores que conhecia através de seu trabalho na ONG Compassion International.

Com vontade de mudar essa realidade, Priscilla pediu demissão de seu antigo emprego e com o dinheiro da rescisão e ao lado da irmã Deborah, se inscreveram em um programa para negócios de impacto social da Artemísia para ajudá-las a estruturar o negócio. 

No início, os alimentos produzidos eram posteriormente levados pela Muda Meu Mundo para serem vendidos nas feiras de Fortaleza por um preço mais acessível. Do valor total arrecadado, 60% ficava com o produtor e os 40% restantes para a empresa. No entanto, Priscilla observou que esse modelo era cansativo, e em 2019, seus produtos passaram a ser comercializados nos supermercados.

A empresa criou parcerias entre mercados e agricultores em um modelo de cluster, onde os agricultores produzem de forma agrupada com foco somente naquilo que será vendido, reduzindo desperdícios e custos adicionais com transporte. Todos os alimentos passam por testes químicos para avaliar a qualidade e os produtores participam de capacitação presencial e online, cujos conteúdos foram desenvolvidos por Priscilla em parceria com tecnólogos e especialistas no assunto, para aprimorar seus conhecimentos quanto às técnicas agroecológicas. 

Atualmente, a Muda Meu Mundo paga ao agricultor entre 60% e 150% a mais de preço de mercado e vendem por 15% a 20% mais barato que o alimento orgânico convencional vendidos nos supermercados.

Ybí-ira – Meliponicultura de abelha nativa sem ferrão de Jandaíra (RN)

No município de Jandaíra, no Rio Grande do Norte, a Ybí-ira, uma empresa de impacto socioambiental, nasceu da vontade de jovens sertanejos em buscar alternativas econômicas a partir do resgate da meliponicultura, construindo uma nova história local implantando os Jardins Caatingueiros Melíferos, tecnologia para recuperação da caatinga, que propicia alimento natural às abelhas nativas sem ferrão, mesmo nos períodos de secas.

Ao valorizar o trabalho sagrado das abelhas nativas, responsáveis pela polinização das flores da caatinga para produção do mais delicado e puro mel (ou ouro líquido do sertão, como denominam), os produtores tiveram a possibilidade de ficar em suas terras.

Extração de mel com bomba de sucção abrigada em tenda de tela. (Foto: Divulgação)

Muito conectado à sua terra, Francisco Melo, criador da Ybí-ira, identificou oportunidades a partir dos recursos da biodiversidade local, aliando a preocupação em recuperar e proteger o patrimônio genético. Com a ajuda do Sebrae RN, estruturou a empresa como um negócio de impacto social. Além de produzir mel e produtos derivados com sabor único, a Ybí-ira preserva a biodiversidade da região e apoia os trabalhos dos jovens agroecologistas da associação local. Assim podem manter viva sua história, impactar vidas e distribuir o sabor único e doce das iguarias da caatinga.

Recentemente, o mel produzido pela Ybi-Ira chamou a atenção do renomado chef brasileiro Alex Atala. Ele fez a harmonização do mel com queijos frescos e convidou a empresa para participar do seminário da FRU.TO, uma plataforma de engajamento e mobilização para discutir a alimentação, os problemas, os desafios e as soluções do nosso tempo e para os próximos anos.

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