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Microempreendedoras do Nordeste: entre a emancipação e a necessidade

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Nos últimos anos, o empreendedorismo tem despontado como uma alternativa para milhões de brasileiros. De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2019, o país atingiu 23,3% de taxa de empreendedorismo inicial, considerada a maior marca da série histórica que teve início em 2002. Ao todo, 38,7% da população adulta é composta por empreendedores. São aproximadamente 53,4 milhões de brasileiros à frente de alguma atividade empreendedora, em diferentes estágios.

Apesar do hype, grande parte dos empreendedores e empreendedoras brasileiros são movidos por necessidade, especialmente em períodos de aumento do desemprego. A mesma pesquisa, que no Brasil é realizada em parceria com o Sebrae, avaliou também a motivação para começar um novo negócio. Quase 90% dos empreendedores iniciais brasileiros concordam (total ou parcialmente) com a afirmação que a escassez de emprego constitui uma das razões para desenvolver o seu empreendimento.

Em tempos de pandemia, a tendência é que esse índice aumente ainda mais. Em declaração dada à revista PEGN, Carlos Melles, presidente do Sebrae, afirmou: “como um dos resultados da pandemia do novo coronavírus, acreditamos que neste ano de 2020, o grupo dos empreendedores iniciais cresça e atinja o novo recorde histórico, com uma proporção de 25% do total da população adulta. Este número, segundo nossa projeção, será puxado pelas mulheres, pelas pessoas negras, em geral, os grupos que mais costumam ser afetados pelo crescimento do desemprego”.

Esses números reforçam a importância de políticas e programas (públicos e/ou privados) voltados ao empreendedorismo que levem em consideração os diversos perfis de empreendedores.

Empreender é a solução?

Empreender pode ser, de fato, uma saída para alcançar a independência financeira. Mas, diferente da narrativa amplamente difundida, não depende apenas do esforço individual de cada um. Dependendo das circunstancias, especialmente de seu ponto de partida (econômico, técnico e social), a jornada possui diferentes graus de dificuldade. Não cair no discurso fácil de que o sucesso depende exclusivamente de empenho e que empreender é saída para todos os males, é importante para começar de maneira realista e traçar um bom planejamento para enfrentar os desafios.

O discurso simplório de que o seu sucesso “só depende de você”, pode causar danos a autoestima e aos próprios negócios de empreendedores e empreendedoras que começam a sua jornada em contextos de vulnerabilidade. Afinal, uma pessoa que começa a empreender com R$1 mil reais (ou menos), enfrentará muitas limitações que podem interferir diretamente no sucesso ou não de sua empreitada. A limitação financeira é somente um dos diversos fatores. Podemos citar outros desafios como acesso/conhecimento de mercado, déficit educacional, falta de acesso à tecnologia, além de problemas sociais como o machismo, no caso das empreendedoras.

Caso a pessoa não obtenha êxito em determinado empreendimento, a falsa ideia de que ela é a única responsável pelo seu sucesso ou fracasso, logicamente vai a levar a duvidar de sua capacidade, afetando em diferentes níveis sua autoestima e resiliência para traçar uma nova rota, realizar os ajustes necessários e aprimorar os seus conhecimentos. Por tanto, compreender o seu contexto de forma objetiva e não cair em discursos rasos, é o primeiro passo para o empreendedor encarar os desafios, que certamente vão aparecer, e pensar em estratégias para enfrentá-los. Assim como lidar com a situação de maneira pragmática caso não obtenha êxito.

Isso não quer dizer que motivação não seja importante para começar. Pelo contrário, é fundamental. Trabalhar duro e buscar se aprimorar, também. Mas ter consciência desses diversos fatores pode fazer toda a diferença para obter sucesso.

As microempreendedoras do Nordeste.

Como vimos anteriormente, em contextos de desemprego, os primeiros grupos a recorrerem ao empreendedorismo são as mulheres e a população negra.  No Brasil, 34% dos donos de negócio são mulheres. Entre os novos negócios, as mulheres já são maioria e representam 15,4%, enquanto a dos homens, 12,6%. Um maior número de homens a frente de empreendimentos mais longevos e um número próximo ou maior de mulheres a frente de novos negócios tem sido uma constante nas estatísticas do empreendedorismo no Brasil.

Segunda a pesquisa, os motivos para isso podem variar, mas passam por uma participação maior de empreendedoras por necessidade, onde parte das mulheres busca o empreendedorismo como um bico em momentos de piora da renda familiar e abandona posteriormente a atividade empreendedora quando há uma melhora da renda familiar. Também são apontados outros aspectos socioculturais, como o maior envolvimento das mulheres com as obrigações do lar.

Quando falamos sobre os desafios das mulheres microempreendedoras do Nordeste, embora exista uma variedade de perfis, muitas se encaixam nesses contextos. Junto com os desafios de empreender, há uma série de barreiras econômicas e sociais que precisam ser superadas. Mesmo com essas barreira, muitas microempreendedoras nordestinas conseguem superar os obstáculos e conseguem sua emancipação através da renda gerada por meio de suas iniciativas.

Empreendedora contemplada com o microcrédito e
orientação da Acreditar (foto: site/Acreditar)

Para ajuda-las nessa jornada, há algumas iniciativas direcionadas a empreendedoras nesse contexto. Uma iniciativa que se destaca é o programa As Marias da Acreditar. A Acreditar é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como finalidade promover o desenvolvimento local através do microcrédito produtivo orientado, empreendedorismo e educação financeira. A organização atua como uma rede de suporte a empreendedoras e negócios, atendendo mensalmente cerca de 400 microempreendoras e famílias em situação de vulnerabilidade social no interior de Pernambuco. Seu objetivo é criar um ambiente de oportunidade e vidas dignas através do fomento e apoio ao empreendedorismo, educação financeira, microcrédito e gênero, a fim de construir mecanismos para microempreendedoras locais viverem melhor suas vidas, através dos seus próprios negócios.

O projeto As Marias oferece às mulheres o direito de empreender, trabalhando educação empreendedora e gênero como premissas de liberdade e desenvolvimento local. Estimulando que através dos seus negócios elas possam ter autonomia para serem donas de suas vidas. O projeto já impactou mais de 2 mil empreendedoras em 6 cidades de Pernambuco.

De acordo com a organização, os impactos da Covid-19 impôs um grande desafio não só para as empreendedoras mas também para a própria organização. A Acreditar tem sentido os impactos diretos no fluxo de caixa e no aumento da inadimplência nos fundos de microcrédito. Ao mesmo tempo, a procura por assessoria e acompanhamento aumentou. Para manter vivo o trabalho da Acreditar de levar dignidade para as pessoas e dar continuidade as várias atividades econômicas, em especial as lideradas por mulheres, a organização lançou uma campanha de financiamento coletivo. A meta é arrecadar R$26 mil para continuar a oferecer os diversos serviços e apoios e manter vivo o ecossistema de vida digna e autonomia, através de fomento aos micronegócios da região.

Além da Acreditar, outro exemplo é a coalizão ÉDITODOS, uma aliança de organizações que reúne vários atores do ecossistema de empreendedorismo negro no Brasil que busca promover o ato de empreender baseado na oportunidade, enfrentando o racismo estrutural e as disparidades de gênero.

Afinal, empreender é para todos?

Seja por opção ou por necessidade, empreender é cada vez mais uma opção para milhões de brasileiras. Abrir o próprio negócio pode ser sim uma alternativa que pode trazer a tão sonhada independência financeira e autonomia. Mas o ato de empreender não é igual para todos e não pode ser tratado como a salvação de todos os males. Cada contexto possui as suas particularidades e necessidades. Uma boa dose de motivação e inspiração, acompanhada de uma boa leitura da realidade e de seus desafios pessoais é a mistura perfeita para o caminho do sucesso.

*Foto: Site/Acreditar

ANTES DE IR !
O que acha de apoiar as empreendedoras do Nordeste atendidas pela Acreditar?
Se você pode, visite o site do financiamento coletivo e conheça mais sobre o programa As Marias. Lá você pode conferir mais informações sobre o programa, ver depoimentos das empreendedoras, saber como os recursos serão aplicados de forma totalmente transparente e fazer a sua contribuição.

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