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Moradia digna não é luxo, mas sim, um direito: Negócios de impacto popularizam serviços de arquitetura e engenharia

7 mins de leitura

No Brasil, milhões de pessoas vivem em moradias que não são consideradas adequadas. Por muito tempo, serviços de arquitetura e engenharia ficaram restritos à parcela da população capaz de arcar com os custos elevados. Essa realidade vem mudando graças a novos modelos de negócios que olham para a população de menor renda.

Por Impacta Nordeste


Desde 1948, quando foi promulgada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ter uma moradia digna não é um luxo, mas sim um direito. Uma moradia adequada tem impacto sobre diversos aspectos da vida de uma pessoa, incluindo em sua saúde. No entanto, morar em um casa confortável e funcional ainda é tido como algo um tanto quanto inacessível para grande maioria das pessoas.

Dois serviços essenciais para qualquer obra é a contratação de um arquiteto e um engenheiro. Enquanto o primeiro cria em conjunto com o cliente o projeto do zero, o segundo atua na execução da obra. A presença destes profissionais traz maior segurança para qualquer tipo de construção.

Mas se a obra já é uma atividade que requer um alto custo financeiro, a contratação de um engenheiro e um arquiteto pode encarecê-la ainda mais, inviabilizando a tão sonhada reforma, principalmente para as pessoas de baixa renda que não possuem recursos para fazer um projeto mais detalhado.

Nos últimos anos, temos observado o surgimento de negócios de impacto social que se propõem a resolver esse problema, por meio de modelos de negócios que viabilizam o acesso a esses serviços em condições que cabem no bolso da população de menor renda.

No Brasil, o maior exemplo é o Programa Vivenda. O programa democratiza o acesso à moradias saudáveis por meio de um pacote integrado de serviços que inclui: crédito, assistência técnica, mão de obra qualificada e materiais. Desta forma, viabiliza reformas habitacionais rápidas, baratas e de qualidade para as pessoas da base da pirâmide.

Fundadores da Vivenda: Igiano Lima, Fernando Assad e Marcelo Coelho. Foto: divulgação/Programa Vivenda

Criada em 2013 pelo empresário Fernando Assad, atuando na comunidade Jardim Ibirapuera, em São Paulo, a Vivenda já fez mais de 1.600 reformas, totalizando mais de 5.600 pessoas atendidas. O Programa tornou-se um case de sucesso na esfera dos negócios de impacto social no Brasil, inspirando outros empreendedores ao redor do Brasil a criarem soluções semelhantes.

Reforma Vivenda: Antes e Depois. Foto: Divulgação Facebook/Vivenda

No Nordeste, região que possui imensos desafios habitacionais, temos observado o surgimento de diversos negócios de impacto que buscam oferecer moradia digna para todos.

Alguns exemplos são a RemodeLar e a Constru&Unir, que fazem parte do Mapeamento de Negócios de Impacto promovido pelo portal Impacta Nordeste, em parceria com a Pipe.Social.

Em diferentes estágios de desenvolvimento, conversamos com seus criadores para saber um pouco mais sobre a atuação de suas empresas, e sobre os desafios e inspirações de serem empreendedores sociais.

RemodeLar

Se o serviço de um arquiteto é visto como algo elitizado por grande parte das pessoas, muito desse efeito é sentido já na sala de aula. Vítor Mourão, arquiteto e um dos fundadores da RemodeLar, percebeu durante a faculdade que grande parte do conteúdo aprendido era voltado para atender justamente a parcela da população que detém maior poder aquisitivo. 

Projeto da RemodeLar. Foto: Divulgação Facebook/RemodeLar

“A ideia do arquiteto ser um profissional associado à elite forma um cenário propício para a autoconstrução, o que explica a má qualidade de grande parte das habitações brasileiras, com pessoas convivendo com insalubridade dentro do próprio lar e realizando reformas que acabam desperdiçando dinheiro e não necessariamente entregando qualidade para quem mora. Nosso trabalho é, sobretudo, voltado para uma das das etapas mais importantes e, em muitos casos, ignorada pelas pessoas. Queremos dar aos moradores mais autonomia para iniciá-la e concluí-la, minimizando burocracias ou imprevistos e a dependência da mão de obra sobre o destino que a reforma terá”, explica Vítor. 

Segundo pesquisa realizada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo no Brasil (CAU/BR) em 2015, no Brasil, 85% da população não contrata profissionais habilitados para construir ou reformar. Em Fortaleza, cidade onde está a sede da RemodeLar, mais de 1 milhão de pessoas vivem em habitações precárias. Foi então que Vítor resolveu mudar este cenário e criou um serviço de reforma habitacional de pequeno porte divididas por cômodos da casa, para atender pessoas de classe média/baixa oferecendo serviços qualificados de arquitetura, como orientação técnica e serviço personalizado. A Remodelar está presente em diversos bairros e comunidades periféricas de Fortaleza, como Mucuripe, Montese, Pirambu e Maracanaú.

Os primeiros atendimentos feitos pela RemodeLar surgiram em janeiro de 2019, mas foi em julho que a empresa passou a atuar no mercado de forma mais consistente. 24 pessoas já foram atendidas em 14 bairros de Fortaleza, contabilizando 32 projetos.

Um dos principais serviços oferecidos pela RemodeLar é o Projeto da Reforma, onde uma equipe especializada apresenta soluções inteligentes para atender as necessidades específicas de cada cliente, como imagens digitais em 3D do ambiente que será reformado, planta baixa com o layout do cômodo para compreensão da organização do espaço e a lista de materiais de construção e quantidade necessária para execução da obra.

Entre as histórias de clientes atendidos pela iniciativa, Vítor lembra de um em especial. “Atendemos um casal, Veronessa e Brenda, cuja casa onde moravam estava com o processo de construção paralisado. Antes de continuar com o projeto, elas procuraram a RemodeLar em busca de auxílio profissional para explorar todas as possibilidades de seu lar, localizado na Vila Pery, em Fortaleza. O projeto foi apresentado de forma bem descontraída, em uma mesa de bar. Foi um momento divertido! Durante a conversa, elas nos revelaram que já tinham procurado outros arquitetos, mas optaram pela Remodelar por causa do serviço diferenciado e personalizado, além de ser adaptado à realidade financeira e social delas. A maioria dos arquitetos, infelizmente, ainda não está preparado para lidar com um público popular e nós da RemodeLar temos uma metodologia própria para estas situações”.

Para o futuro, a Remodelar espera aumentar o volume de vendas dos serviços ofertados, mas sem alterar os custos operacionais. Segundo Vítor, “Temos alguns desafios internos, como melhorar processos em diferentes âmbitos, o que é natural em todo negócio que está iniciando, mas nosso planejamento estratégico diz para seguirmos no mesmo ritmo”, diz. Atualmente, a RemodeLar integra o Programa Corredores Digitais, projeto da Secitece de fomento ao empreendedorismo que os auxilia no desenvolvimento das suas competências de gestão.

“O que a gente percebeu em nossa experiência é que em muitos casos as pessoas não conhecem o trabalho desse profissional, confudem o arquiteto com engenheiro e dizem que ‘não precisam’, quando na realidade nem eles sabem que precisam. O próximo passo é investir na conscientização e mostrar que vale a pena investir neste serviço”, afirma Vítor.

Constru&Unir

Um outro exemplo de negócio de impacto social no campo da construção civil é o Constru&Unir. Com atuação em Recife, Pernambuco, a iniciativa tem como objetivo ajudar famílias carentes a realizar a reforma dos sonhos. “Percebemos que ao reformar uma casa, ela se transforma em um lar; logo, as pessoas que ali vivem também acompanham essa transformação, pois agora terão uma vida mais digna”, diz Thaís Helena, fundadora da Constru&Unir.

“Percebemos que ao reformar uma casa, ela se transforma em um lar; logo, as pessoas que ali vivem também acompanham essa transformação, pois agora terão uma vida mais digna”.
Thaís Helena, fundadora da Constru&Unir

Thaís nasceu e viveu na comunidade de Brasília Teimosa, em Recife, e logo após concluir seu TCC no curso de Engenharia, observou que no próprio lugar onde morava havia uma problemática social interessante que a despertou para criar o seu próprio negócio de impacto. “Naquela época, olhei aquele cenário onde vivia, com grave déficit de acessibilidade, e pensei ‘Cadê os profissionais de engenharia aqui dentro?’. Fiz pesquisas na comunidade para entender o porquê disso e escutei mais de uma vez que ‘engenheiro é coisa de rico’. Foi ali que surgiu o embrião da Constru&Unir”, diz ela.

Com a ideia em mente, Thaís participou de programas de incubação para negócios sociais, como o Estação Hack do Facebook e Artemísia, além de mentorias no Sebrae e no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), que integra o Porto Digital, um dos principais espaços de inovação do país. Mas para isso, Thais precisou realizar algumas mudanças importantes na sua vida: pediu demissão do emprego para se dedicar integralmente a realização do seu negócio. “Eu sempre digo que ter liberdade é viver de acordo com sua própria essência e eu me descobri levantando essa bandeira, de pensar no próximo como a nós mesmos. Trabalhar com negócios sociais era, de fato, ‘a minha praia’, o meu propósito”, afirma.

Assim como a RemodeLar, o objetivo da Constru&Unir é impactar o máximo de famílias através de reformas habitacionais. A empresa atua na reforma de cômodos a baixo custo, que podem ser adquiridos por pacotes. Além disso, oferece o serviço gratuito de assistência técnica 24 horas.

Um dos clientes atendidos pela Costru&Unir foi uma escola infantil localizada na comunidade do Chié, em Santo Amaro, Recife. “Tinha tudo que você pode imaginar: mofo, infiltração, umidade, revestimento caindo…conseguimos melhorar a vida de 70 crianças numa só reforma. Um projeto como esse me deixa realizada, é o meu motor”, comemora Thaís.

Reforma de escola. Foto: Divulgação/Constru&Unir

O próximo passo da Constru&Unir é oferecer o serviço de forma cada vez mais inclusiva, e para isso, tem contado com uma ajuda especial da Porto Digital. “Sabemos que o morador da comunidade sente dificuldade na hora de solicitar crédito nos bancos tradicionais. Com a ajuda do Porto Digital, estamos estudando a possibilidade de sermos uma fintech vertical, onde o cliente vai ter a opção de realizar o pagamento de sua reforma através de boletos, com o parcelamento maior do que aquele que já trabalhamos”, explica Thaís.

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