Opinião

A lógica do impacto socioambiental deve expandir e o turismo é um grande aliado

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As medidas de isolamento social foram importantes para conter o avanço do corona vírus, diante disso as atividades cuja existência dependiam, essencialmente, da mobilidade humana foram muito afetadas. É o caso do turismo, que foi um dos primeiros a apresentarem as consequências. Com o avanço da vacinação e com a necessidade de buscar novos modelos de operação para atividade, o segmento tem trabalhado, intensamente, na busca por estratégias e novos modelos de operação. Neste sentido, é importante promover uma aproximação entre o segmento de turismo e o modelo de negócios de impacto. Isto porque, durante muito tempo, o turismo priorizou dinâmicas e investimentos no desenvolvimento do turismo de massas que é responsável pelas tensões nos destinos e suas comunidades.

Devido à pandemia, está a surgir uma época menos móvel, onde o “turismo de proximidade” aumentará com preferência para estadias mais longas num destino, ao invés de viajar por diversos locais, tendo menor concentração de pessoas, o aumento da experiência e a participação maior da comunidade local (Duxbury, Fiona; Vinagre, Silva (2020). Por isso, o objetivo aqui é colaborar com o entendimento de que o modelo de negócios de impacto tem muito a colaborar com novos segmentos de mercado, sendo o turismo um deles. 

A ideia de turismo de base comunitária representa um novo paradigma na indústria de viagens. Longe de se constituir em mais um modismo ou uma nova segmentação, baseia-se em premissas teóricas claras e diferenciadas da prática convencional, situando essa nova abordagem, em tese, como uma alternativa que atende aos princípios do turismo pós-moderno.

Caracterizado pelo protagonismo comunitário e pela ênfase nos recursos de origem local, notadamente no que se refere aos atrativos e serviços disponibilizados para os visitantes, a teoria que fundamenta as formulações do Turismo de Base Comunitária (TBC) teve origem na década de 1970, quando a corrente desenvolvimentista das pesquisas em turismo emergiu, principalmente composta por antropólogos e geógrafos, direcionando seus estudos para os impactos da atividade nas comunidades-destino, ao tempo em que desenvolvia a argumentação sobre a sua contribuição para o desenvolvimento local. 

“Os empreendimentos constituídos no âmbito do turismo de base comunitária aproximam-se, pelas características que compartilham, dos denominados negócios de impacto social…”

Os empreendimentos constituídos no âmbito do TBC aproximam-se, pelas características que compartilham, dos denominados negócios de impacto social, pois são iniciativas financeiramente sustentáveis, com viés econômico e caráter social e/ou ambiental, que contribuam para transformar a realidade das populações menos favorecidas e fomentar o desenvolvimento da economia nacional.

Assim, um negócio de impacto social pode ser definido como tudo aquilo que traz transformações e impactos positivos para a vida das pessoas, a médio ou longo prazo. No Brasil, partem de uma lógica de escassez e são criados para gerar mudanças em situações de necessidade e vulnerabilidade. Thomas W. Lamont, define a pobreza não apenas pelo acesso à renda e poder econômico, mas também pelo acesso a serviços básicos de educação, saúde, saneamento e moradia de qualidade.

Leia também: O turismo pós-pandemia: experiências culturais, sustentabilidade e impacto social

Neste sentido, as práticas de turismo promovidas e genuinamente de interesse das pessoas que vivem nas regiões de vulnerabilidade, com matéria-prima de valor simbólico, torna um ambiente de escassez, em ambiente de criatividade que emerge entre os possíveis empreendedores que vivem nas periferias das grandes cidades. Esses empreendedores são a grande referência em transformar escassez em abundância criativa. Mesmo em contextos de necessidade e vulnerabilidade, são capazes de inventar e prototipar soluções incríveis para lidar e transpor problemas vivenciados no dia a dia das comunidades (ICE, 2017). Portanto, a aproximação entre o TBC e os modelos de negócios de impacto social potencializaria tais mudanças.

Trata-se de duas vertentes conceituais que se debruçam sobre o mesmo desafio do desenvolvimento, tendo como pano de fundo a articulação comunitária e a inovação social, aqui definida como “o resultado do conhecimento aplicado a necessidades sociais através da participação e da cooperação de todos os atores envolvidos, gerando soluções novas e duradouras para grupos sociais, comunidades ou para a sociedade em geral” (BIGNETTI, 2011, p. 3).

Experiências empíricas* em alguns Estados Brasileiros, tem mostrado que o fomento a iniciativas que se situem no limiar dessas duas abordagens enfrenta desafios de ordem conceitual, política, institucional, econômica e sociocultural que precisam ser adequadamente endereçados pelos agentes catalisadores desses processos. É preciso aproximar os modelos de negócios de impacto desses setores para promovermos a ampliação da lógica de impacto positivo. Aqui seremos um canal para trazer muitas dessas experiências positivas. Pense nisso!

* Ver detalhes no documento do Ministério do Turismo.

Paulo Henrique Oliveira é acadêmico e empreendedor baiano, sócio da Startei e especialista do Sistema B. Mestre em Desenvolvimento Regional e Urbano e graduado em Turismo e Hotelaria.

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