Covid-19 e as oportunidades para as ONGs

22 de setembro de 2020

Por Daiany França Saldanha
Foto: Joel Muniz em Unsplash


Tenho muito cuidado de usar as palavras “covid-19” e “oportunidades” na mesma frase, mas a decisão de “uni-las” no texto de hoje tem uma justificativa.

No estudo Impacto da Covid-19 nas OSCs brasileiras: da resposta imediata à resiliência, coordenado pela Mobiliza e Reos Partners, que, inclusive, acredito ser de leitura obrigatória aos profissionais do terceiro setor, encontramos conclusões e reflexões em torno de desafios e oportunidades no campo do Investimento Social Privado (ISP), poder público, cidadãos, imprensa e organizações da sociedade civil (as ONGs). À luz desse estudo, portanto, gostaria de “conversar” com vocês sobre as oportunidades da pandemia de Covid-19 para as ONGs.

A pesquisa foi feita com 1.760 representantes de organizações brasileiras e contou com 15 entrevistas que aprofundaram a compreensão dos dados. Como já vínhamos percebendo, e como o estudo aponta, a redução de recursos aparece como o principal impacto da pandemia nas ONGs, o que, de certo modo, contrasta com as sucessivas quebras de recordes de doações no Brasil, que até o fechamento deste artigo soma mais de R$ 6,3 bilhões doados, segundo o “Monitor das Doações da COVID-19”, da ABCR -Associação Brasileira de Captadores de Recursos.

Entre as organizações mais enfraquecidas, destacam-se as organizações de pequeno porte financeiro, representativas na região Nordeste e das áreas de “Cultura e Recreação”. Ora, ora, ora… se isso não descreve exatamente a organização que fundei em 2014, o Instituto Esporte Mais. Por outro lado, entre as ONGs fortalecidas com a pandemia, se destacam as da área de “Saúde” e com orçamentos acima de R$ 3 milhões; as mais fortalecidas, por sua vez, são mais ativas no combate aos efeitos da Covid-19.

E as oportunidades? Vamos a elas!

Para as ONGs, o estudo aponta a colaboração com outras organizações, a articulação e o trabalho em rede como a maior oportunidade. Falei sobre redes aqui no Impacta Nordeste em outras duas ocasiões: Tecendo redes de apoio no pós-pandemia e O papel das redes na mudança social.

O estudo listou as oportunidades para as ONGs em três dimensões: Impacto Coletivo, Gestão e Recursos, transcritas abaixo:

Oportunidades para as Organizações da Sociedade Civil

Impacto Coletivo

  • Atuar para fortalecer uma cultura colaborativa no setor, para captar ou intermediar recursos, compartilhar boas práticas e casos de sucesso de ações e desenvolver projetos e programas de forma integrada com outras ONGs.

Gestão

  • Usar evidências sobre o impacto da Covid-19 na vida dos públicos atendidos pela ONG para planejar e propor novos pedidos de apoio de médio e longo prazo, a partir de leituras do seu campo de atuação.
  • Explorar ferramentas digitais que facilitam os processos colaborativos da equipe.
  • Investigar novos possíveis públicos atendidos e formas de atuação a partir dos novos projetos gerados a partir da Covid-19.

Recursos

  • Desenvolver planos de mobilização de recursos, articulando as áreas estratégicas e meio da organização, e considerando ações táticas utilizadas emergencialmente que possam permanecer como ativos para a organização:
  • Priorizar o desenvolvimento de um plano de captação online e comunicação para áreas meio da organização.
  • Pleitear apoio de médio e longo prazo fundamentados na gestão financeira e planejamento estratégico.
  • Reconhecer e resgatar voluntários e doadores que apoiaram a organização durante a crise.

Essas oportunidades dialogam com as principais necessidades apontadas pelas ONGs: a revisão de planos estratégicos e financeiros e a incrementação da capacidade de captação de recursos, sobretudo no ambiente digital.

Não é pouco trabalho, pelo contrário. O momento pede, ao mesmo tempo, arrojo e cautela, colaboração e espírito inovativo. Eu fico à disposição para colaborarmos e superarmos essa crise juntas e juntos!

Publicado por:
Daiany França Saldanha

Cearense, mulher negra, gestora de projetos sociais e empreendedora. É fundadora do Instituto Esporte Mais, gerente do projeto e rede Construindo o Futuro e mestranda do Programa de Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da USP.